sexta-feira, 4 de março de 2016

A arrogância dos cogumelos

(Imagem: Pinterest/DevianArt)


No supermercado, o homem com seus sessenta e poucos anos, envaidecido, contava a outro sobre o neto. ‘Ele tem cerca de quatro anos’, dizia. ‘O garoto é esperto, pega o tablet e pede para ver filme. Atende e fala direitinho ao celular... Quando que nessa idade a gente fazia isso?’

Não fazia. Não havia tablet, o aparelho de telefone era fixo, pesado e ficava fora do alcance das mãozinhas. Televisão era novidade cara e distante, e nem era fácil chegar perto e manusear os botões do rádio. Filme? Aos quatro anos de idade? Esqueça. Porém mais do que todas aquelas limitações, havia respeito – algo que tem encolhido como o permafrost do Ártico.

Pois crianças de quatro anos daquela época geraram e pariram, mas tentam conter, com valentia e possibilidades nada arrebatadoras, o que parece uma violenta maré de desvario que avança sobre netos de hoje.

Referi-me aqui certa vez à imagem cinematográfica de um velho que morre, esquecido e solitário, num quarto de hotel. Pode também ser numa calçada, sob uma ponte, num asilo ou num barracão restrito a raros metros quadrados. Para não reviver a visão usual e sofrida proporcionada por um hospital público ou uma clínica psiquiátrica.

A figura do velho, no entanto, é só um recurso que traduz a indiferença, para ficar no mínimo, que a sociedade dispensa a quem acumula idade e experiências e, além da própria, quase sempre ajuda a escrever outras histórias. Porque afinal – e como já se disse – não há solidão pequena.

Olhando um pouco para trás, veem-se vultos de adolescentes que encaravam com naturalidade e graça os benefícios da tecnologia em relação à realidade de seus antepassados. A Humanidade conquistara, aprendera. E isso era bom.

Mas a velocidade com que avançamos no tempo e fazemos História – sobretudo, a ‘qualidade’ desse avanço – mal nos permite rascunhar um passado que se acumula feito a nevasca do inverno novaiorquino. Netos de quatro anos nos fazem velhíssimos na meia idade. Corremos o risco de sermos condenados a pagar ainda mais impostos se alguma autoridade, como certo ministro japonês, nos considerar fonte inesgotável de despesas para o Estado. Corrupto pode, velho não.

Também já contei aqui o exemplo de uma famosa companhia petrolífera europeia, que recorreu em certa ocasião às cabeças brancas que haviam trabalhado na empresa, interrompendo-lhes o merecido descanso. E isto porque os jovens empregados tinham dúvidas sobre a química dos polímeros.

Conhecimento e conquistas prematuras, no vácuo de valores, costumam produzir figuras como a do personagem de Saint-Exupéry, que inchava-se de orgulho por considerar-se um homem sério e não fazer outra coisa senão somas. ‘Nunca cheirou uma flor. Nunca olhou uma estrela. Nunca amou ninguém’. Mas o orgulhoso e sério mago das finanças não era um homem, mas um cogumelo.

A pressa para se destacar num mundo absurdamente competitivo tem produzido erros que uma considerável soma de experiências talvez não conseguisse sanar, a não ser pelo espaço de algumas gerações. E experiência é o que se deseja ter, própria e se possível bem antes da maturidade. Que, por seu lado, é metida goela abaixo da meninada, a título de autodefesa em um cenário que se faz mais hostil a cada dia. Não bastassem (maus) exemplos que proliferam feito tiririca no ambiente político em que vivemos. 
   
A experiência, como a vida, se esvai a seu tempo. Costuma deixar lembranças que igualmente se dissolvem, restando-lhes, em alguns casos, apenas um fóssil. Pode-se imaginar, no silêncio de um velho que morre, um doce e enigmático sorriso aos que ficam. Por que não lamentar que se considere ultrapassada e inútil, diante do volume de informações hoje disponíveis, a sabedoria com que se premiou uma vida de sofrimentos e sacrifícios pessoais?

Não há nostalgia, mas a suspeita de que educar para um futuro com liberdade é, de longe, o maior desafio da Humanidade. Educar resgatando valores devastados, como humildade, senso de justiça, respeito pelos iguais e pelo planeta. E fé. Disso certamente dependerá se e quanto ‘futuro’ poderemos ter como seres humanos.

Ou como cogumelos.

(Repost - Editado)

2 comentários:

Lucélia Muniz França disse...

Dando uma passadinha aqui para informar que indiquei o teu Blog para o Prêmio Dardos. Um abraço!
Segue link da postagem:
http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/2016/03/premio-dardos.html

Enquanto Allan Lucena disse...

Eu sou da época que criança mexer na televisão eram proibido, até que chegaram o vídeo cassete e eu instalei sem olhar no manual. Bons tempos.

Perde-se o respeito pelos velhos, não mais só os de cabeça branca, mas pelo que é mais velho, não necessariamente ultrapassado, mas é que o novo e inovador tem sido muito mais intere$$ante.

O problema não é esse. É que não há mais valores, respeito e honra nisso.
Antes uma tecnologia era lançada para complementar as falhas de outra, hoje ela é lançada para substituir a outra. Como faz uma maçã mordida por aí. E fazemos isso com tudo, inclusive com pessoas, mordemos o que precisamos e jogamos o resto fora. Quando sai de moda ou quando fica muito caro.
Com 7 bilhões de pessoas no mundo, uma ou outra que eu desprezo, não vai fazer diferença, não é? Não é?

Bem... eu penso como um velho e já fui bastante mordido e jogado fora por isso, então eu não sei dizer a resposta. Sei que quem morde não sente. Sei que quem joga fora, nem lembra. Mas também sei que isso é insustentável e que vai mudar. E pelas crises atuais a mudança já vem chegando.

Abraços!