quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Burocracia




(Imagem: Pinterest / Jaelyn W)


Vário Moreira surpreendeu-se com o cano da arma batendo na janela do carro. Acabara de descalçar os sapatos, trocando-os pelas habituais sandálias de borracha que usava para dirigir. O ladrão, um jovem de cara risonha e cínica, assumiu o lugar do motorista, deixando o proprietário do veículo de pé, braços erguidos e fisionomia indescritível.

- Toma aí seu sapatinho, tio. Vira de costas até eu ir embora, senão leva chumbo... – o ladrão sentenciou e sumiu levando o carro.

Par de sapatos pendurado em dois dedos de uma das mãos e sem o celular, que ficara sobre o banco do carro, Vário entrou no primeiro boteco e ligou para a polícia. Esperou uma eternidade, mas a viatura que ficaram de mandar para o local não apareceu. Ligou então para a mulher que, depois de muita choradeira, pegou o outro carro da família e foi buscar o marido.

Seguiram ambos para a delegacia mais próxima, onde deram de cara com um cartaz informando que naquele final de semana (era fim de noite de um sábado), os queixosos deveriam dirigir-se a outra repartição, distante cerca de dois quilômetros. Lá, um policial apareceu com um retângulo de papel menor que a palma da mão e, “para adiantar o expediente”, segundo anunciou, foi anotando nele os dados que seriam transpostos mais tarde para o sistema: nome do proprietário, endereço, características do veículo roubado...

Na medida em que ocupava o espaço disponível para anotação, o bravo servidor público diminuía a letra, aproximava cada vez mais do rosto a palma da mão, fazia caretas que denotavam perseverança e fé na ocupação útil daquele papelzinho de nada.

- O endereço do cidadão é Rua Príncipe das Flores que número? – perguntou o policial.

- Mil duzentos e trinta – Vário respondeu.

O policial fez mais caretas e virou o papel no sentido anti-horário, espremendo ainda mais a anotação.

- Ô, diacho, o zero saiu na ponta do meu dedo... – lamentou.

Registrada finalmente a ocorrência, Vário Moreira e a mulher tomaram o rumo de casa, onde ela desabou na cama, mas ele não conseguiu pegar no sono. A todo instante vinha-lhe à mente a figura do ladrão, seu tom de deboche na voz... Quando finalmente começou a cochilar, foi despertado pelo telefone: era da delegacia, de onde uma voz avisava que o carro fora encontrado.

- De repente, seu Vário, o senhor pode vir até aqui e a gente dá um jeito de liberar logo o veículo...

Vário sacudiu a mulher:

- Acorda, Natália, que já encontraram o carro!

A mulher resmungou algo como “dá o carro de presente pro ladrão” e seguiu desacordada.

Já amanhecia quando Vário desembarcou do táxi em frente ao pátio de depósito da delegacia. Identificou-se com o porteiro dizendo que estava ali para resgatar o veículo.

- Garcia, ô Garcia! – o homem gritou para o colega, que surgiu do nada e se aproximou a passos rápidos.

Os dois confabularam a certa distância, de maneira a que Vário não ouvisse o que diziam. Em seguida, o tal Garcia pegou o telefone, fez com a mão uma concha junto ao bocal do aparelho, enquanto encurvava ligeiramente o tronco como se estivesse se protegendo de um ataque aéreo. Encerrada a ligação, sinalizou algo ao porteiro e desapareceu como surgira.

- Seu Vário, a gente está tendo a maior boa vontade com o senhor. Pra resolver logo o seu problema e o senhor não ficar sem o carro no fim de semana, né? Mas o cidadão vai ter que falar com o delegado, tô ligando pra ele aqui, ó... Alô, doutor Filgueiras? Aqui é o Mureta... não, o Mureta... É o Pavio, doutor Filgueiras... Então, o seu Vário, aquele do carrinho azul que a gente já achou, tá aqui e vai falar com o senhor que é pra ver se dá pra liberar logo o veículo...

Vário pegou o telefone, disse um respeitoso “alô doutor Filgueiras” e foi tudo. O delegado informou que liberar veículo resgatado das mãos de bandido, só durante o expediente, depois de preencher o formulário adequado e recolher as taxas.

- Só na segunda-feira, meu amigo – sentenciou o Filgueiras. – O senhor vai ter que se dirigir primeiro à delegacia de Justiciano, aqui do lado, que é o município em cuja jurisdição o seu carro foi encontrado. Lá, o senhor preenche o formulário, assina, recolhe a taxa e depois – aí sim, o senhor estará habilitado a retirar o veículo.

Vário agradeceu e passou o telefone ao Pavio, a quem perguntou se podia ao menos ver o carro – se tinham estragado alguma coisa, revirado o porta-luvas...

- Vai ser possível não, seu Vário. Infelizmente. Só mesmo na segunda – o porteiro foi dizendo com a pose de um disciplinado guarda imperial de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

A vítima do roubo agradeceu, deu meia volta, embarcou noutro táxi e voltou para casa.

Na segunda-feira, o expediente na delegacia mal começara e lá estavam Vário Moreira e a mulher, ele portando um envelope pardo com cópias de documentos exigidos para a liberação do veículo. Na sua vez de ser atendido, dispôs sobre o balcão toda a papelada.

- Certificado de propriedade do veículo? – quis saber o agente olhando por cima dos óculos.

- Tá aqui, ó... – exibiu Vário.

- Não é isso, mas aquela via com o recibo de venda...

- Precisa? – admirou-se a vítima do roubo.

- Precisa. Sem aquilo, nada feito.

Vário e a mulher percorreram de novo os 25 quilômetros até em casa, de onde voltaram depois à delegacia portando o documento. No guichê, o funcionário examinou o papel com ar entediado e pediu xerox.

- O cidadão sai por aquela porta, sobe uma rua de terra logo ali ao lado... É perto, uns 50 metros só. Lá em cima tem uma portinha pintada de azul. Ali eles fazem cópia xerox... – o homem explicou.

- Mais alguma coisa? – Vário indagou em tom de mal disfarçada impaciência.

O funcionário respondeu que era só retirar o veículo no depósito. E arrematou:
- O carro foi encontrado trancado e o ladrão levou as chaves. O cidadão tem aí consigo a chave reserva, né seu Vário?

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Bem, Eduardo quero parabenizá-lo pelo novo layout do seu blog!
Quanto à crônica da vida como ela é: "Burocracia"... ri, xinguei a "safadeza burocrática", tive pena do Vário, que por pouco não se "avariou" mentalmente diante de tantas invencionices burras que proliferam nessas repartições... Triste quando delas necessitamos!
Abraço.

Marcos disse...

E,por ai mesmo. Agora compre um bem leiloado pela PRF. Ai vera de 3 a 4 meses para conseguir regularizar e emplacar. Isso e Brasil. Respeito zero para o cidadão.
Excelente texto
Abraço

Luis Coelho disse...

Grande seca!!!
Gostei da história ela é actual. Continua acontecendo todos os dias.
Burocracia demais e boa vontade a menos.