domingo, 14 de fevereiro de 2016

A vez do escracho

(Imagem: Pinterest/Sebastien Thibault)


A titular de uma secretaria da Prefeitura de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, publicou recentemente em rede social, segundo leio na imprensa, um texto onde recomenda que uma vítima da Síndrome de Guillain-Barré vá catar coquinho. A paciente mora na baixada fluminense e lá ficou internada por oito dias.

Não se trata de ato isolado, mas de tendência que se alastra e se generaliza – a do escracho, venha de onde vier. Querendo homenagear uma de suas apresentadoras do momento, a tevê mostrou dia desses um grupo de carnavalescos exibindo camiseta onde a 'homenageada' aparecia em gesto conhecido como 'dar uma banana'.

Com desenvoltura jamais vista, ergue-se o dedo médio em gesto fálico gratuitamente, por nada. Em passado não muito distante, a mídia publicou foto da Presidente da República durante a abertura da Copa do Mundo em 2014, onde Dilma Rousseff aparecia exibindo o dedo médio de ambas as mãos. O que sugeria uma reação às vaias do público seria atribuído mais tarde a uma montagem fotográfica.

Verdade ou não, o poder não está distante do gatilho que dispara escrachos para todo lado. Basta seguir os embates no Congresso, onde já se assistiu um membro do Senado xingar a mãe do Procurador Geral da República durante discurso proferido da tribuna daquela Casa.

E se ‘de cima’ o exemplo que vem é o mau, o da educação rasinha e rota, com mais razão a grosseria toma conta das ruas. Ali, movimentos sociais apelam para palavras de ordem com ofensas que, pulverizadas como a corrupção e a roubalheira, parecem não atingir o individualismo falsamente coberto por uma espécie de redoma invisível. Só parecem. Exemplos são implacáveis na determinação de se fazerem replicados, sobretudo pelos mais jovens.

Não se detenha nos numerosíssimos exemplos encontrados na internet, onde há muito o gesto adocicado de exibir um coraçãozinho com as mãos foi substituído por caretas, gestos (o do dedo médio é o preferido por homens e mulheres) e frases feitas contendo ofensas ao leitor seja ele quem for. Para se incluir na ‘tribo’ é preciso escrachar autoridades (culpadas ou não), atletas, figuras públicas e não-públicas.

Atirada ao porão das coisas inservíveis, a boa educação fica, assim, apenas na lembrança dos que são capazes de se indignar e se perguntar, secretamente, se ainda é possível esperar um futuro menos sombrio.

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Abominável, meu caro Eduardo, ao que somos submetidos diariamente via mídia em geral! E, o pior de tudo isso que você, com muita propriedade escreveu em sua crônica, nem um pouco 'escrachada', mas sim realista, é que os personagens, adultos e com curso superior, em sua maioria, tratam-se de 'Excelência'... Fazem de seus postos, regiamente pagos por nossos impostos, ringue de lutas, e xingamentos. Até quando suportaremos isso?
Abraço.

Ana Bailune disse...

Olá, Eduardo.
O que se deu por aqui - pelo menos, é o que fiquei sabendo - é que a paciente em questão, após tentar tratamento em vários outros lugares e conseguir somente aqui em Petrópolis, ainda falou mal e reclamou do atendimento. A funcionária errou em sua abordagem, mas ninguém sabe, ao certo, o que a levou àquele desabafo... o que existe demais hoje em dia, é a polemização de tudo, do que se fala, e até do que não se fala. E quando se muda o contexto de algo que foi dito ou de um acontecimento, é possível criar realidades bem diferentes da realidade...
Abraços!

Zilani Célia disse...

OI EDUARDO!
A EDUCAÇÃO PROVÉM DA CULTURA E DO RESPEITO E ESTES ITENS ESTÃO EM BAIXA EM NOSSO PAÍS.
A VIDA, QUE JÁ FOI TÃO PRECIOSA UM DIA, ATUALMENTE PERDEU SEU VALOR.
ÓTIMO TEXTO PARA REFLETIRMOS.
ABRÇS

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