quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Manchete

(Imagem: Pinterest)



Nenhum anunciante, colaborador – nada. A existência de O Periclitante estava nas mãos de seu único repórter, fotógrafo, editor e proprietário, M. Neves. Seria preciso trazer emoção e impacto às páginas. Era o que o genial Neves estava determinado a fazer naquela segunda-feira: voltaria das ruas com a notícia-verdade, a matéria-impacto. Não duvidassem dele.

Com sua velha câmera a tiracolo passou, como de hábito, pela fila do posto de saúde, onde a miséria implorava diariamente a migalha de um socorro-favor. Viu quando a mãe grávida pôs no chão a criança que tinha nos braços, atenta ao batidão de um funk. Cabeça metida dentro da bolsa, revirava seu conteúdo à procura do telefone celular.

O repórter viu a criança afastar-se da mãe, o fotógrafo botou-lhe a câmera nas mãos e o editor determinou que ele acompanhasse aquele menino de andar cambaleante como o de um bêbado. A mulher falava, sorria, gesticulava e fazia charme ao telefone, enquanto a criança seguia abrindo um claro na multidão na medida em que avançava.

Contorcendo-se no meio daquela gente, o jornalista procurava não perder a notícia de vista. Pisou o pé de uma velhota carregada de sacolas, deu uma cotovelada no carro do pipoqueiro, quase derrubou a banca de um camelô. Em volta, as pessoas viam correndo com certa desenvoltura pela calçada uma criança cuja mãe seguia tagarelando ao celular.

Braços estendidos, o garotinho parou junto ao segurança do carro-forte de uma transportadora de valores. O homem, por sua vez, tinha sua atenção voltada a dois sujeitos um pouco mais à frente: mão na coronha da arma, estava preparado para reagir a qualquer movimento suspeito.

Atraída pelo brilho do cano cromado, a criança tocou com os dedinhos a mão do segurança que, num salto espetacular, sacou a pistola do coldre e apontou-a na direção do que supunha ser a origem de um ataque. O clarão do flash de M. Neves registrou a cena que daria vida à primeira página da edição de O Periclitante no dia seguinte: de cara assustada, um segurança apontava a arma para uma criança que sorria.

Abaixo, a manchete: “Infância ameaçada!”

(Repost - Editado)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Nem é necessário tamanha aventura pelas ruas para termos a manchete:"Infância ameaçada"! Nas casas, que deveriam ser "lares" há muitas nessas condições. Mães preocupadas com seus celulares, suas mensagens, sua conexão com a fofoca e novelas, relegam ao submundo a nossa infância que gera hoje os adultos do amanhã!
Abraço.

Almir Albuquerque disse...

O post traz um caso de negligência de uma mãe, mas o que me chamou a atenção é o estado de tensão permanente em que seguranças e agentes da lei vivem. Tal situação estressante transforma seres humanos em bichos acuados, prontos para dar um ataque violento de defesa.
Assim são, principalmente, as nossas polícias.
Lembro de ser criança e o meu pai sempre me levar a um policial para conhecê-lo, e eles sempre bastante solícitos e educados, acenavam e conversavam.
Hoje, não sorriem, não olham pra sua cara e se você chegar perto, já levam a mão à arma...
Almir Albuquerque
Panorâmica Social