terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Paz na serra


(Imagem: José Carlos Brandão / Facebook)



Recorro a foto que José Carlos Brandão compartilha através de rede social. É por ela que suponho a paz que, ainda ou sobretudo, se esconde em recantos longínquos. Lá, por onde não se percebem traços da rotina que indigna o país pela injustiça e pelo escárnio.

A velha casa, em cenário bucólico na Serra da Canastra, evoca silêncios que guardam história e sabedoria. Vejo bananeiras em torno dela, adivinho jabuticabeira, pitangueira, mangueira e um pé de abacate. Não se saberá das marcas de encantos e desencantos que o tempo e a serra testemunharam, ocultas pelo mato rasteiro que cobre o chão.

A ausência de uma antena de tevê espetada no telhado centenário reforça a presença de silenciosa paz. Silenciosa e preciosíssima paz, que nos preserva do interminável bombardeio de caras, declarações, notas, desmentidos e discursos de quem nos supõe em estado de idiotice permanente.

A foto não mostra flores, nem pássaros. Mas eles certamente estavam lá, trinando e colorindo o que pode ser um pedaço de paraíso, onde a vida escoa lenta e sem segredos na sua essência.

Lenta e sem segredos. Mas misteriosamente fascinante a quem seja capaz de enxergá-la de portas e janelas escancaradas, despertando nos corações simples um enigmático e silencioso sorriso.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Mau exemplo

(Imagem: Pinterest / axfashions.com)

Curioso país o nosso, onde o que se afina com as aspirações da sociedade não costuma ultrapassar a sonoridade dos discursos.

No quintal do falatório há muitas unanimidades, e uma delas é a Educação. Existisse um medidor como o impostômetro registrando cada vez que se recorre à palavra educação para apontar uma prioridade no país, e haveria surpresa pela longa fileira de algarismos contabilizando essa frequência.

Não se educa sem bons exemplos. Mas na nova configuração que se procura dar à sociedade, exemplo é primo-irmão do conselho: se fosse bom, seria vendido. Nunca como antes, o velho aforismo do 'faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço' exibe-se com desenvoltura exatamente de onde deveria ser escorraçado a vassouradas.

Proscrito como galocha, bomba de flite ou máquina de datilografia, o bom exemplo foi amordaçado e dispensado no porão escuro do esquecimento, para onde soberbos e imprudentes costumam enviar valores universais como justiça e verdade, além das próprias culpas.

O julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, da liminar do ministro Marco Aurélio Mello afastando Renan Calheiros da presidência do Senado, confirma isto. Apenas dois integrantes daquela Corte – o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, e o próprio autor da liminar – apelaram para o vácuo de bom exemplo na atitude do senador alagoano, ao recusar-se a cumprir ordem judicial. Janot perguntaria que exemplos ficariam para crianças, adolescentes e brasileiros em geral. E o ministro Marco Aurélio, depois de enfatizar a 'quadra estranha, onde valores estão invertidos', definiria a atitude de Renan Calheiros como 'triste exemplo para o jurisdicionado em geral'.

Interprete-se como quiser a decisão do STF – política, ponderada ou juridicamente correta. Mas o fato é que o descumprimento de uma decisão judicial é exemplo – mau – que vem enriquecer a já fartíssima coleção de outros semelhantes, caprichosamente elaborados por nossas lideranças.

Exemplo insepulto e que cheira muito mal.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Peregrino


(Imagem: Pinterest / homoviatorplenum)

Quando abriu os olhos, o dia também nascera. Aprendeu a dominar o escuro-claro, a driblar a insegurança do desconhecido, a encantar-se. Agarrou mãos, amou olhos, sorriu para sorrisos.

Chorou, brincou.

Iluminou caminhos, embora o azul da manhã também lhe revelasse sombras. Descobriu formas e tamanhos; cores, gente e rumos; cão, flores e dores. Houve risos, sonhos, diversão.

Amou.

No calor do meio-dia, entregou-se. Esfalfou-se. Mais gente e mais dores, menos risos e sorrisos. Soube da solidão, que enfrentou a dois, a quatro... Havia sonhos, projetos, futuro. Pediu fé.

Conduziu.

Em tarde morna, ocaso de sombras e de fina névoa. Os olhos varriam o claro-escuro, sorrindo silêncio de corações peregrinos e já distantes. Surpresas se revelaram em solidões e lágrimas.

Lembrou.

Procurou mãos no frio da noite. Recordou olhos, desejou sorrisos.

Cansado e só, adormeceu sorrindo.

(Repost - Editado)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Hibernando


(Imagem: Pinterest, do álbum de Gustavo Oliveira



Tocada pelo céu cinzento e pela chuva miúda e persistente que cai por lá onde ela mora, Mariana anuncia hibernação. Decisão sedutora, sobretudo quando parece predominar entre nós um certo desalento que, assim como a chuva que fustiga a poetisa, acinzenta horizontes.

As razões desse desalento podem brotar do noticiário que a cada dia retrata um cenário que evoca o mitológico Sísifo, condenado a empurrar eternamente uma pedra de mármore até o cume de uma montanha. Por desígnio dos deuses, a pedra então rolava de volta ao ponto de partida, obrigando o personagem a recomeçar todo o trabalho.

Em tempos em que o absurdo vai adquirindo admirável naturalidade, segundo definição de conceituado comentarista político, refugiar-se no silêncio é consolador e reconfortante. Não o silêncio omissivo, mas o restaurador silêncio que nasce da exaustão e da sabedoria e que, em muitos casos, costuma ser mais eloquente que vários discursos.

Na Antiguidade o silêncio consagrou outro mito, o do filósofo Secundus, que resistiu até à ameaça de morte o pedido de Adriano para que falasse. Instado então pelo imperador a pronunciar-se por escrito, Secundus escreveu numa tabuinha que, apesar de ter o poder temporal de impor-lhe a morte, Adriano nada poderia contra sua voz e suas palavras.

O silêncio foi também a atitude de antigos Padres da Igreja nos primórdios do Cristianismo, quando certo peregrino se aconselhava com eles no deserto, para em seguida desprezar-lhes os ensinamentos e persistir numa vida de erros. Mas indo o reincidente ainda uma vez a eles, em busca de consolo e orientação, encontraria apenas o silêncio como resposta.

Há tempo de falar e tempo de calar, diz o Eclesiastes. O silêncio pode ter a face da cumplicidade ou da coragem, da dor ou da covardia.

Mas pode também ser assustador e tristemente profético.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

O rabo da ratazana


(Imagem: Pinterest)

Fábulas. Há também a do gato e do rato velho.

Rodilardo, o gato, temido pela crueldade, passava fome diante da falta de caça. Aterrorizado, o povo rato mantinha-se nas tocas.

Mas o que tinha o gato de maldade, tinha também de esperteza. Pendurando-se cuidadosamente em uma trave de madeira, fingiu-se de morto. A notícia logo se espalhou, e dando-se conta da novidade, a rataria realizou festa espetacular. Cantavam, dançavam, riam, apostavam na causa da morte do bichano. Até que, lá pelas tantas, Rodilardo ‘ressuscitou’, trucidou uns tantos e ameaçou roer até os ossos dos fugitivos.

Não satisfeito pelos muitos ratos que lhe haviam escapado das garras, o gato cobriu-se de farinha e foi deitar-se junto à sacaria, enganando assim o restante do bando. Menos a uma ratazana velha e sem o rabo, perdido em outras armadilhas do passado.

A história vem a propósito da releitura de um artigo escrito há tempos pelo dramaturgo Mauro Rasi, falecido em 2003. Nele, Rasi ressalta a segurança de que precisamos para viver. Não apenas segurança, mas certezas. “É preciso distinguir com exatidão o amigo do inimigo, a sobrevivência depende desse discernimento”.

No artigo, intitulado O homem tornado doente (e ao qual creio já ter feito alguma referência aqui neste Pretextos-elr), o escritor aborda a cultura “tomada por homens cuja função é propagar falsas informações” – os supressivos, que vivem para gerar medo.

- Noventa por cento da ‘cultura’ que nos faz impotentes e infelizes, pacientes desse triste hospital que é a Terra – escreveu Rasi – vem de dados falsos, que se alastram.

Manipular pela aparência. Tornados integrantes da família do dono do castelo, os cavaleiros medievais tinham entre seus deveres, pelo alimento ou feudo que às vezes recebiam, manter o povoléu sob o jugo de giros regulares de intimidação – a que denominavam ‘cavalgadas’ – em torno do castelo. Era sua função mostrar a superioridade do homem a cavalo, tornado agente do poder de coerção.

Há estratégias, claro, para manter o público sob controle. O lingüista norte-americano Noam Chomsky relaciona uma dezena de procedimentos com essa finalidade. Distrair o povo, criar problemas para apresentar soluções, utilizar o aspecto emocional muito mais do que a reflexão e manter o público na ignorância e na mediocridade são rédeas eficazes.

Estratégias discursivas também surtem efeito. Médico e doutor em história da economia pela USP, Eduardo Bueno Fonseca Perillo assina, com a economista Maria Cristina Amorim, da PUC/SP, artigo que serve de exemplo. Publicado em junho de 2009 na revista Scientific American, nele os autores afirmam que “a repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade, e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico”.

A mídia, claro, tantas vezes se presta à manipulação. Li recentemente, ilustrando texto de Georges Bourdoukan, o que a título de anedota se conta com algumas variações conhecidas. A história faz referência a um cachorro que ataca uma menina no Central Park, em Nova Iorque. Enquanto curiosos, atemorizados, observam de longe o ataque, um homem se lança sobre o animal e, depois de muita luta, salva a criança.

Maravilhado, um policial se aproxima do herói, cumprimenta-o e prevê que a manchete dos jornais no dia seguinte anunciaria: ‘Um valente nova-iorquino salva a vida de uma menina’. O homem agradece e diz que não é de Nova Iorque.

- Bom – diz o policial. – Então a manchete será: ‘Um valente americano salva a vida de uma menina’.

Ao ser informado que o homem não era americano, mas palestino, o policial nada diz. No dia seguinte, os jornais publicariam a notícia, com a manchete: ‘Terrorista árabe massacra de maneira impiedosa um cachorro americano de raça, diante de uma menina de sete anos que chorava aterrorizada’.

O excesso de informação, já se disse, impede a reflexão. E como sem reflexão não pode haver discernimento, é fácil entender porque a canalhice da manipulação tem levado a sociedade tantas vezes a perder o rabo.

(Repost)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O grito pela esperança



Parece consensual a ideia de que vivemos tempos ameaçadores. Ouve-se por aí, entre meias-vozes e olhos arregalados, a rotina de previsões sobre dias (mais) difíceis, e até uma quinzena que se aproximaria escura como a noite. Noite que, para Santo Agostinho, é a mãe dos maus.

À medida que avançamos na informação, avançam sobre nós os temores. O futuro, não raro risonho e dócil às nossas esperanças no passado, hoje tem feições marcadas de apreensão e medo: o que é possível à maioria aguardar de um amanhã inevitavelmente atrelado a um hoje em que a vida é banal, o discurso enganador, a mesa rara, a saúde cara e o conhecimento inacessível?

A transformação de uma entressafra em longa estiagem de lideranças capazes de conduzir a sociedade a horizonte de realizações duradouras, respaldadas em valores universais, se, de um lado, faz sedutor e temerário o olhar para o passado, de outro emite alertas. Mais: exige mudanças muito além das que nos pedem apelos adocicados e oportunistas em favor de minorias. É o cidadão – homem, mulher, negro, índio, branco, estrangeiro, deficiente físico ou não, idoso ou jovem – que deve e exige o respeito do Estado e de seus governantes.

A devastação de valores morais e éticos é via larga para a violência, a insegurança e a má administração da coisa pública. Revigoradas pela impunidade e pela reverência que lhes fazem editorias ávidas de faturamento, tais mazelas não só ocupam mais espaço na mídia como atraem seguidores, encorajados pela capenguice da Justiça e pelos maus exemplos que as lideranças derramam com largueza sobre a sociedade.

É o ser humano que, em todas as direções, clama por justiça, atenção, oportunidades, acolhimento. Mas tantas vezes, na contramão dessa realidade que o nosso egoísmo falseia, somos levados a priorizar atenção aos animais, relegando nosso semelhante à própria sorte.

Os tempos não são ameaçadores. A ameaça está em nós mesmos, errantes peregrinos sem outra esperança que não a da súplica no livro de Ester, para que o Deus poderoso sobre todas as coisas nos ouça a voz.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Boa notícia

(Imagem: Pinterest / technoimage)

Não tem sido fácil oferecer ao leitor – este ser solidário e crítico – textos que o aliviem de temas preocupantes, ainda que por um quase nada de tempo. Ágil em abafar o murmúrio da canção que embala esperanças, desejos e alegrias, o cotidiano mostra-se quase sempre carregado de monstros bem nutridos e ruidosos.

Como escreveu mão anônima em muros da capital equatoriana certa ocasião, noite e sonhos avançam juntos. Talvez nos faltem fé e esperança que nos arrastem escuridão adentro, conduzindo-nos à saída do túnel. Quase epidêmica, a má notícia é, a um só tempo, ágil no despertar e entorpecer emoções. Toca mais do que a rara emoção que brota da conquista que liberta. Até porque esta, com traços de pieguice açucarada, virou estratégia de marketing.

É preciso conhecer a infelicidade alheia, bisbilhotar-lhe dores e angústias antes de experimentarmos a lembrança fugaz de que ainda podemos nos levantar a cada manhã, com saúde e planos de navegação para a vida. A quem tem teto, comida e saúde, boa notícia também é sonho. Sempre faltará algo, pois ambição sem limites é monstro insaciável, gêmeo de política tributária injusta.

Boa notícia, mesmo em grão, pode começar onde menos se espera. Até numa barata, cuja incompatibilidade com o chinelo é histórica. Foi esse inseto repugnante, por exemplo, que inspirou a ciência na realização do sonho de quem não tem mãos.

A estrutura das pernas da barata – em camadas superpostas e presas por uma espécie de mola – permite ao bicho adaptar-se a superfícies irregulares automaticamente, sem a intervenção do cérebro. E isso já levou cientistas a trabalharem desenhos de mão mecânica, em lugar de processos computacionais então considerados muito caros.

A notícia pode não ser tão importante para a maioria de nós, fechados quase sempre em nossas prioridades. Mas já revigorou esperanças.

Mesmo que tenha levado ou ainda leve o leitor a desferir numa barata uma chinelada reverente.

(Reeditado)

terça-feira, 27 de setembro de 2016

A lista

(Imagem: Pinterest / Angel Boligan)

A uma semana da eleição, anotei os dois primeiros algarismos do número que identifica os candidatos por agremiação política. Pretendia com isto identificar, entre os mais de 400 candidatos a vereador em Juiz de Fora, a quais partidos e coligações os pretendentes ao legislativo municipal estavam filiados.

Fui ao site do TRE-MG. Ali naveguei exaustivamente sem dar com a relação dos candidatos. Enviei e-mail àquela repartição, solicitando que me informassem o caminho para chegar à tal lista, já que a mesma só estava então disponível com facilidade aos assinantes ou a quem se dispusesse a adquirir um exemplar do jornal local.

A resposta veio logo, acompanhada do link para alcançar o que eu pretendia. Mesmo exigindo certo nível de experiência com a internet (o site do TRE-MG não oferecia uma aba com atalho para se chegar facilmente aos candidatos), consegui chegar aos nomes.

Apesar desse relativo sucesso, não foi possível copiar a lista em formato legível. A única maneira de fazê-lo a quem não fosse experiente na matéria era exportando o arquivo, com extensão que truncava o texto, triplicando e embaralhando os nomes.

E tudo isto para saber quais os cidadãos que se propuseram a disputar uma vaga na Câmara de Vereadores... Algo que deveria estar ao alcance de todos com facilidade. Lista afixada em locais estratégicos, públicos e privados, facílima de ser consultada também por qualquer um na internet, independente do nível de habilidade do interessado.

Curioso país o nosso, onde o amadurecimento e a educação política do cidadão parecem incomodar profundamente os que alimentem outros objetivos de natureza pessoal. Mais ‘produtivo’ deixar as coisas como estão, tendo o voto obrigatório como a cereja do bolo.

Considerando-se a chatice do horário político, do lero-lero dos discursos, da sujeira das ruas e do descaramento nas promessas, entre outras formas de terror, continua menos desafiador e mais cômodo escolher em quem não votar.

sábado, 24 de setembro de 2016

O candidato


(Imagem: Pawel Kuczynski / yogui.co)


- O amigo fique sabendo que hoje me sinto mais leve, como há tempos não acontecia.

- Ah é? Posso saber o motivo desse ar assim tão satisfeito?

- Poder até pode, mas sabe como é, né? O assunto nem é muito bom de se conversar assim, numa fila de banco...

O outro deu um sorriso amarelo e calou-se. Para por um fim na conversa e dissimular a curiosidade, passou a ler as instruções de uso impressas na embalagem de um inseticida para plantas que trazia numa sacola. “Vai ver, o assunto do levezinho aí é mulher”, pensou.

- Mas o amigo fique à vontade se não quiser conversar a respeito. Eu não lhe confessei o motivo de meu alívio, e penso que não seria justo deixar assim a coisa no ar...

- Sim ? – o primeiro gemeu erguendo as sobrancelhas, mas sem desviar os olhos da embalagem de inseticida.

- Pois então, o motivo é a política.

O leitor das instruções de uso enfiou a embalagem de inseticida na sacola, arregalou os olhos e desligou-se do mundo para entregar-se à conversa.

- Ah, é?

- É. A soberana voz do povo falou mais alto e não elegeu a maioria dos candidatos que nos torturaram pela tevê, pelo rádio, pelos alto-falantes, pelo telefone fixo, pelo telefone celular, pela imundície das ruas, pelo discurso mentiroso, pela falta de projetos, pela falta de respeito...

Só a sacola com o inseticida para plantas do petrificado leitor das instruções de uso fazia algum movimento, agitada pela brisa. O levezinho então parou e tocou o braço do outro:

- Tudo bem com o amigo? Algum problema?

- Claro... claro... quer dizer, nenhum problema.  Eu prestava atenção no que o senhor falava.

- Pois é o que digo. E os nomes dos candidatos? Fiz questão de guardar o santinho daquele que, a meu ver, foi a derrota mais merecida, a que me lavou a alma.

- Quem era ele? – perguntou o leitor das instruções.

O levezinho remexia os bolsos, tirava montes de papel dobrado – receitas médicas, volantes de loteria, fichas de caixa, contas...

- Ô, gente, cadê o danado? Tava aqui...

O outro espichava o pescoço, enfiava os olhos pelos bolsos do levezinho, chegou a deixar no chão a sacola para desocupar as mãos que, inquietas, queriam ajudar na procura.

- Ah, achei! Tá aqui o desgraçado! – e o levezinho sacou, de dentro de uma conta, o santinho que procurava. Orgulhoso, exibiu-o como um troféu de caça ao leitor das instruções.

- Olha aí o campeão da chatice universal: Tadeu Tingole! Encheu o meu saco, encheu o saco de todo mundo na minha rua, no meu bairro...

Aqui, o levezinho fez uma careta, ensaiou trejeitos e começou a cantar o jingle do candidato derrotado.

- Todos juntos com o Tingole / que é bom, que não é mole... Bem feito, foi engolido!

O leitor das instruções olhava o santinho do candidato e devolvia o olhar para o levezinho, que continuava a cantar o jingle do Tadeu Tingole.

- Mas o senhor não desconfiou de nada não?

- Se desconfiei? – perguntou, alegre, o levezinho. – Desconfiei de tudo desse sujeito aí, por isso fiz a maior campanha contra ele.

Segurando a sacola com a embalagem do inseticida, o leitor das instruções tinha o rosto vermelho, as narinas anunciavam um fogaréu. Súbito, estendeu a mão direita, pegou a mão do levezinho, e antes que este desse pela coisa, apertou-a dizendo com ironia:

- Muito prazer, eu sou o Tadeu Tingole. Desde já, considero-o dispensado de votar em mim no próximo pleito. Passar bem!

Disse e retirou-se, pisando duro. A mulher que estava à frente do levezinho desabou em gargalhada.

- Desde o começo eu achei a cara dele parecida com a do Tadeu Tingole...

- Mas ele no santinho tem cabelos pretos e lisos, olhos claros e aparenta não mais que 35 anos. Esse cara que estava aqui é meio careca, cabelos grisalhos, olhos escuros e tem mais de 50 anos. Como é que eu ia adivinhar que era o Tingole?

- O senhor não sabe não? Meu neto disse que é esse negócio de computador. Tem um programa que bota a gente novinha na fotografia...

O levezinho não sabia o que dizer, mas a mulher continuava a falar.

- O senhor não acha que seria muito melhor um programa que pusesse a gente novinha de verdade? – perguntou piscando o olho para o levezinho, que guardou o santinho do Tadeu Tingole no bolso e não quis mais saber de conversa.

(Publicado em A Idade da Maçã)

sábado, 17 de setembro de 2016

Nanicos



(Imagem: Pinterest / Steve Cutts)


A triste página de sua história que a Nação escreve bem poderia dispensar o longo desfile, pelas tribunas da Câmara e do Senado, de políticos nanicos chamando a si os méritos pela cassação de mandatos – seja quem for o cassado –, exibindo-os como um troféu conquistado em batalha.

Essa demonstração de pequenez e imaturidade para exercer um mandato parlamentar tem marcado presença constante nos discursos de representantes de partidos que, em verdade, pouco ou nada dizem ao cidadão exasperado diante do que vê e prevê.

Se é indiscutível o fato de a democracia não prescindir de partidos políticos e seus membros, não menos verdade é que, apesar disso, persiste o mau cheiro que exala do cenário onde lideranças deveriam agir em nome do cidadão. Este, chamado regularmente a trocar seu voto por promessas tão voláteis quanto sorrisos e apertos de mão de candidatos durante a campanha eleitoral, tem sido desrespeitado sem o mínimo constrangimento da parte de quem o representa, agravando um mal que pela própria democracia se deve curar.

Buscar vantagens servindo-se da tragédia é prática recorrente. Veja-se o exemplo da mídia, que explora o tema à exaustão visando apenas assegurar audiência e faturamento. Rumina-se sem dó, nem piedade, a morte trágica do ator e a do anônimo nas ruas, vítima da insegurança que a improbidade alimenta com fartura. Sob a falsa aparência de solidariedade ou prestação de serviço, destrincha-se a dor e o sofrimento alheios para lucrar.

"Há, sem dúvida, uma estreita ligação entre a avaliação que o cidadão faz do Parlamento e o desempenho ético dos parlamentares", escreveu o então deputado Aécio Neves na introdução da edição de 2002 do Código de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara dos Deputados.

E há mesmo. Uma ligação que, de tão estreita, tem passado despercebida por boa parte dos que entendem representar um eleitor cada vez mais determinado a cassar-lhes o mandato que usurparam.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Pimpinâncias

(Imagem: BETLR)


Uma fileira de pequenos adesivos colados na parede do banheiro assinala importante conquista de Gabriel no uso, primeiro do peniquinho, depois do vaso sanitário. Dispostos em linha reta estão heróis, planetas, símbolos, logomarcas e bichos, entre os quais o golfinho Bastapolo, o cavalo marinho Lacutaco e o peixe Mutucalo.

Tempos olímpicos (relativamente ao esporte, e não ao caradurismo na política) acabaram apresentando aos quatro anos do herói o Hino Nacional Brasileiro. Dono de ouvidos sensíveis a ritmos e acordes e, além disso, atento e aplicado intérprete de canções que lhe despertem o interesse, o pequeno patriota deu início dia desses à cantoria no banheiro, diante das marcas enfileiradas de suas vitórias.

Em gravação feita pelo pai, o cantor começa com um surpreendente 'pimpinante' (retumbante?). E segue na melodia original:

"O alfava da umalibi pimpinichitu / O pipi ta na panela da xistante / Se espelhavam acebledade / Que va ser o môfo da felicidade / Pulvanado vossa excelência / Que va ser o mofo da natuleza / Você pinquê, inda megê, sem ser pingê, sansão / Da fôlve de são blinau flugê cissu / Um polvo seu volato da pumompom / Um slom tão panão uvê etu / Um polvo sa taná esse estante / Se beleza, a ser beleza / Que fazer o morro da natuleza / Ta sa fundano, tem nui da, tem nui da, ô da / Um polvo esteve la ta sa fundano a ti..."

Às palavras novíssimas que Gabriel nos apresenta, certamente se juntarão as mumificadas fúlgidos, impávido, fulguras, florão, garrida, lábaro e plácidas, tão desconhecidas para ele quanto para milhões de brasileiros adultos, alfabetizados ou não. Ainda assim, Gabriel certamente haverá de dominá-las em futuro que se deseja brilhante, com a beleza da natureza preservada e onde excelências não permitam o môfo de uma felicidade nacional sempre adiada.

Sem poder contar com um Sansão que nos dê uma mãozinha, que ao menos mereçamos as bênçãos de Deus e um pouquinho da fôlve de São Blinau.

Amém.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Notícia de amor

(Imagem: Pinterest / Claude Monet)


A manhã azul e fria encheu-se do ruído habitual. A novidade era aquela inscrição no asfalto, pintada caprichosamente por mãos anônimas durante a madrugada: Laura, me perdoe. A súplica terminava em um coração bem desenhado, cujas linhas contornavam um buraco ainda pequeno, mas que a chuva e o trânsito se encarregariam de ampliar como a dor de uma paixão não correspondida.

Estrategicamente posicionada para ser vista do pequeno prédio de apartamentos bem em frente, a mensagem chamava a atenção de quem transitasse por ali, particularmente dos passageiros que aguardavam o ônibus na calçada do outro lado da rua. Quem seria Laura

- Falta de vergonha, sujar assim a rua... – reclamou a jovem abraçada a uma pasta recheada de papéis, apontando para a pichação enquanto buscava com o olhar o apoio da mulher que usava um chapeuzinho de flores.

- Gente que não tem o que fazer... – acrescentou o homem de guarda-chuva.

A mulher voltou-se para um e outro e argumentou: talvez aquilo fosse resultado de um arrependimento profundo, com o arrependido já tendo tentado todos os meios, sem sucesso, para alcançar o perdão da amada. E, à beira de um ato de desespero, tornara pública a sua dor, vendo naquela pichação sua última esperança.

- Coitado! Só quem já passou por uma situação dessas sabe avaliar bem o que representa tamanho sofrimento... – disse. E arrematou:

- Todo mundo fala nele, mas pouca gente conhece, de fato, o que é o desespero.

- Eu conheço e muito bem! – rebateu o homem do guarda-chuva. – Sabe lá o que é morar onde seu vizinho do prédio em frente tem um casal de poodles que passa o dia e parte da noite na varanda do apartamento, latindo sem parar?

- Isso é coisa de um tal Sedecias – atalhou uma voz cujo dono escutava a conversa do outro lado do poste. – O homem era apaixonado por essa Laura, até que ela terminou com ele pra ficar com um cara milionário. O Sedecias achava que a culpa era dele, e fez de tudo pra reconquistar a mulher. Até que passou por aqui ontem à noite, ligou pra ela, tocou o interfone e nada. Saiu e voltou de madrugada trazendo com ele pincel e tinta. Estava chorando quando pichou o asfalto. Foi embora em seguida, dizendo que encontraria paz nas linhas do trem.

- O senhor não fez nada para impedir? – indignou-se a jovem.

- Fazer o quê, dona? Eu não estava aqui, não. Quem me contou isso foi meu cunhado, e quem contou pra ele foi o porteiro da noite no prédio do lado.

- Tá certo, ele pichou a rua... – emendou a jovem. – Mas não precisava tomar atitude assim... tão definitiva!

A moça pegou o celular enquanto todos permaneciam em silêncio.

- Alô, Fonseca? Pauta aí matéria que envolve pichação, caso de amor e provável suicídio. Manda equipe aqui pra Rua Manoelito Mignon. Repórter e cinegrafista devem procurar uma tal Laura no número 235. Desesperado, o ex-namorado dela pichou um pedido de perdão no asfalto, mas a Laura trocou o cara pra ficar com um sujeito rico. Então o apaixonado disse que ia encontrar paz na ferrovia.

Sem jamais aparecer, dar uma declaração ou conceder uma entrevista, Laura não passaria de um vulto fugaz de chapeuzinho numa das janelas do edifício, registrado em imagem de baixa qualidade feita por celular anônimo.

Nos dias que se seguiram, correria a notícia de que a misteriosa personagem não apenas perdoara seu ex-amante, como estaria à sua procura.

Exceto um passageiro clandestino que, flagrado em vagão de carga de uma composição admitira ter embarcado ali como primeira etapa de uma volta ao mundo pegando carona, não se registraria qualquer anormalidade no tráfego de trens que atravessavam a cidade.

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

As malas de Marina

(Imagem: Pinterest)


Há tempos dei com pequeno texto de Marina, jornalista de passagem meteórica com seu blog pela internet. Ele começava com a dúvida sobre se Lisboa dormia cedo demais, ou se era ela, Marina, quem estava sempre acordada.

Pois há textos que pegam a gente e não largam. E esse é um deles. Tratei de conservá-lo, e creio que registrei comentário à época. Se não o fiz deveria tê-lo feito, pois o texto merece.

A autora transpira dolorosa solidão em apenas uma dúzia de linhas. Da janela, Marina não mais reconhece o silêncio de ruas que já não lhe dizem nada. “O barulho dos raros carros em Arroios em nada diferem dos sons de ninar que agora passam num canal português”. Canção, aliás, que não chama e nem lhe tira o sono.

Uma semana havia se passado desde que Marina chegara à capital portuguesa, mas as malas continuavam “quase intactas no chão, prestes a serem levadas para o primeiro autocarro, comboio, avião... para um destino qualquer”. Destino que já fora Dublin, de onde, “apesar do nojento cheiro de cerveja e catchup das ruas”, brotava saudade naquela noite quente de Lisboa.

Sozinha pelas ruas, a autora confessava, melancolicamente, sentir um vazio e “um não sei bem o que é”. Quanto mais conhecia os cenários, Marina mais descobria sua paixão pelas pessoas. “Sozinha, tudo não passa de mera paisagem” – concluía.

Na ocasião em que o li, o texto me pareceu capaz de provocar a mesma dor com que alguém descrevia a própria solidão. E ainda hoje ele é forte, desenhando uma espécie de saudade das gentes, de uma humanidade que, imaginada solidária na singular e comum aventura, apenas na catástrofe consegue por vezes recorrer a um tênue e invisível laço fraterno.

Não soube mais de Marina, nem de suas malas quase intactas em Lisboa. Muito menos da solidão que, em poucas linhas, deixou escapar num fragmento de dor tão vivo e tão verdadeiramente humano.

Tomara fosse ele contagiante, espalhando-se por aí, pelas noites quentes, desmanchando malas sempre prontas a partir para o imenso vazio de um individualismo absurdo e suicida.

(Repost)

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Ana

(Imagem: Pinterest, do álbum de Lindy Nobre Scher)



Abriu o portão da garagem pela manhã e deu com um carro estacionado bem em frente, impedindo sua saída. Esperou pelo motorista, mas atrasado para o trabalho, fez um bilhete e prendeu-o no limpador de parabrisas: “Você me impediu de sair. Em consideração, deixo de solicitar o guincho”.

Ao chegar em casa no final do dia, o homem encontrou um papel cuidadosamente dobrado e metido numa fresta da porta,: “Sinceras desculpas! Tive problemas com Michelle e fiquei aflita. Um abraço. Ana”.

O bilhete de Ana (nome de sua primeira namorada) recendia familiaridade, calor humano e um perfume agradavelmente suave. Mesmo por escrito, era impossível ficar indiferente a uma saudação que, nascida de um pedido de desculpas, desembocasse num abraço e permitisse ao destinatário supor até um sorriso da remetente. Além do mais, não conhecera Ana que fosse feia.

Já amplamente desculpada, a motorista que bloqueara sua saída inquietara-lhe a solidão. Insone, ficou supondo Ana, desejando que o carro da mulher novamente estivesse lá na manhã seguinte, bem em frente à sua porta. Esperaria para conhecer a motorista, perguntaria por Michelle, trocaria impressões sobre o tempo. E, claro, relevaria o novo bloqueio com a desculpa de que não iria ao escritório.

Mal haviam começado a colorir-se os dias daquele solitário, os rabiscos de esperança logo se desfizeram: nenhum carro impedindo sua saída da garagem, nenhuma Ana, nenhum novo bilhete que atualizasse aquele, cuja releitura frequente marcara o papel com rugas e dobras. A cada exame de seu conteúdo, o homem descobrira entrelinhas com insinuações sutis, convites, acenos – tudo mais que suficiente para transformar mensagem casual em apaixonadíssima carta de amor.

Ana só apareceria numa fila de supermercado poucos meses mais tarde, quando o homem já relegara o bilhete ao fundo de uma gaveta. Suspeitara que fosse ela pelo perfume e pelo nome de Michelle, que ela chamava a todo o momento pedindo calma à criança que trazia consigo. Ana era como ele imaginara: uma mulher linda.

Seguiu-a até o carro, que confirmou sua suspeita. Com o coração aos pulos, identificou-se como o autor do bilhete que anunciara dispensa do guincho em consideração... Ela se lembrava ainda?

- Ah, sim, mas isto foi em frente à casa do meu amigo Roberto Almeida, ali na rua Cascais, né?

- Rua Cascais, 95... – o homem respondeu à meia voz.

- Isto!

- É que eu comprei a casa do Roberto...

Ana sorriu com um traço de timidez e pediu desculpas em dobro: pelo bloqueio da garagem e pelo engano no tom familiar com que redigira o bilhete. Em seguida, entrou no carro e, antes de partir, recomendou a Michelle que desse “um adeusinho pro moço”.

(Repost)

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

A tosse da vaca


(Imagem: Pinterest, do álbum de FelipeArte)

Sem ter como segurar a língua nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Quê que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo decidiu ser mais direto:
- É... Esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente!
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear com dissimulado interesse um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos em seu interlocutor, que de novo se desculpou.
- O senhor releve a minha insistência, mas judiar é palavra que remete a “judeu”. Não é a melhor maneira de se expressar. Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento que prevenisse possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo.
Dito isto, voltou a folhear a revista.
(Repost - Editado)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

A Carta


(Imagem: Pinterest, do álbum de Helton Bastos)

Querida Danielle:
Vovô escreve para você porque sua mãe me disse da sua dificuldade em cumprir essa tarefa da escola. Assim, envio-lhe esta carta, que você responde, copia tudo no seu caderno de casa e leva para a professora. Aí você me conta que sua cartinha para o vovô foi a que tirou a melhor nota, combinado?
Vovó Esperança e eu estamos bem, mas com muitas saudades de vocês. Qualquer dia a gente aparece aí na capital.
E você? Estudando bastante? Como estão seus pais?
Enquanto escrevo, o vizinho aqui em frente ouve essas músicas de hoje – o tal de funk. Você gosta disso, Danielle? Pois vovô agora se delicia com a terceira de Brahms...
Espero que você tenha desistido de fazer a tal tatuagem de dragão. Você é ainda muito nova, e seus pais estão certos em não deixar que você faça isto agora.
Estude bastante. Vovô já está ansioso para receber sua cartinha.
Um beijo para você.
Ass.: Vovô Felício e vovó Esperança.
PS – Peça à sua mãe notícias da Juju e me escreva sobre ela na sua resposta.
Vô:
Legal receber sua carta. É a primeira que eu recebo na vida.
Não sei se vou tirar notão. Não gosto de escrever cartas, eu nunca escrevi uma. Prefiro e-mail e face. Você tem face, vô? Se tiver, me adiciona lá. Já estou com 825 amigos.
Não curto muito o funk, não. Gosto mesmo é da dupla Zé Ronaldo e Apolinário. Curto eles cantando “Errei a mira”.
Não sei o que você quis dizer com “a terceira de Brahms”.
Não desisti da tatoo. Dragão é legal e eu ainda vou ter um nas costas, bem grandão.
A Juju morreu atropelada na segunda-feira. Foi a maior confusão aqui na rua.
Bjs.     
Dani
Danielle querida:
Demorei um pouco para responder sua cartinha (sua mãe me falou que sua nota foi boa e que ela teve que corrigir uns errinhos antes de enviá-la a mim).
Como você já deve saber, vovô não andou bem. Ficamos, vovó e eu, muito abalados com a notícia que você deu sobre a Juju.
Querida, a Juju a que eu me referia era a minha única prima ainda viva, a Júlia, e que também mora aí na capital. A Juju que morreu atropelada, segundo sua mãe, foi uma tal dona Judite, vizinha de vocês...
Na minha idade, Danielle, tenho só dois amigos verdadeiros e que, certamente, já me valeram e ainda valem pelos mais de 800 que você diz que tem no face (é uma rede social, né?). Tenho isso não, Dani. Vovô e vovó nem precisam disso para continuar a ser felizes.
Beijo para você, outro para seus pais.
Vovô Felício.
PS – Brahms era um compositor de música erudita. A “terceira” é uma das sinfonias que ele compôs.

(Repost - Editado)

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O Vigia - 11


(Imagem: Pinterest, do álbum de Ivey Zimmerman)



Peguei meu rádio, algumas peças de roupa e o que sobrou do mapa, e meti tudo numa sacola. Tive o cuidado de não esquecer a cópia amarelada de “O Vigia”, que tão ternas recordações me traz de sua autora. Tudo pronto, fui a mais uma noite de vigília.
Bebel não apareceu. Estive apenas com Priscila, a quem entreguei um envelope lacrado recomendando-lhe que o fizesse chegar às mãos da minha amiga. Em telegráfico bilhete, eu falava sobre uma “breve temporada de férias”, cujo retorno à pilha de tijolos só eu sabia que não aconteceria mais: logo cedo eu passaria no escritório do patrão, onde alegaria uma emergência qualquer – algo inadiável, definitivo e grave o suficiente para que pedisse demissão.
À curiosa Priscila eu disse, sério, que o envelope continha passagens aéreas que nos permitiriam, Bebel e eu, passar tórridos dias de lazer em Burkina Fasso.  A loura arregalou os olhos, deu um gritinho e disse que tomaria satisfações com a traidora companheira, que nada havia comentado com ela sobre a viagem.
Pouco antes das três horas peguei minha sacola, saí e tranquei o cadeado do portão. Antes, tive o cuidado de deixar acesa a lâmpada da entrada.
Nessa hora ouvi o primeiro apito do trem.

FIM