terça-feira, 24 de novembro de 2015

A farsa e a lama

(Imagem: Pinterest / hative.com)

Renovar a esperança é exercício diário. Mais que exercício, é desafio. Acompanhar a marcha do tempo e dos acontecimentos é também pender entre o acostamento largo e sedutor do cansaço e o horizonte oculto pela incerteza.
Como que evocando a imagem bíblica do barro da criação, a lama que escorre desde a barragem que se rompeu na cidade mineira de Mariana é parte de outras torrentes que afloram na sociedade, a começar pelo ambiente político. Momentos tão inspiradores de repugnância talvez sejam raros na história recente do país, diante das proporções que assume a corrupção e a desfaçatez que dão as caras a cada minuto ou a cada página de noticiário.
A derrocada de valores que nos trouxeram até aqui sugere risco ao futuro pela falta de referências que ultrapassem a visão individualista, apesar dos discursos que alertam para o fato de que navegamos todos no mesmo barco. Na prática, a teoria é outra.
A imprensa publica sobre a realização recente, patrocinado por uma revista norte-americana, de um fórum de debates a respeito da sociedade de consumo. Discutiu-se na ocasião a sedução do luxo e da oneomania, ou o impulso de comprar o desnecessário. A par das 'razões estéticas e sensoriais' apontadas como também responsáveis por orientar nossas preferências, muito se empregou na ocasião o verbo sinalizar como sinônimo de exibir para despertar a admiração do possuidor. Ver ou sentir a desigualdade corrói mais o tecido social que a desigualdade em si, afirma um dos cientistas da Universidade de Yale e que participou daquele fórum.
Quando exemplos de ostentação partem de figuras públicas dos mais altos escalões, passam por lideranças e setores da sociedade como o esporte, e chegam ao funk, então algo provavelmente vai mal. Especialmente se essa gastança é mantida pelo sacrifício e privação da imensa maioria de um país, cujo progresso vem historicamente sendo atrelado a um futuro quase inalcançável.
Do juiz Sérgio Moro já se ouviu que a Operação Lava Jato é uma voz pregando no deserto, haja vista a cara de paisagem que fazem o Congresso e o Governo diante da ausência de iniciativas contra a corrupção.
Às vésperas do Natal, o papa Francisco referiu-se em homilia à farsa que se esconde nas luzes, presépios, árvores iluminadas e festas, pois o mundo “não escolheu o caminho da paz”. E ilustra esta advertência com a imagem de um Deus que chora, mas cuja ira, segundo Paulo, se manifesta contra “a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça, aprisionam a verdade” (Rm 1, 18).
Quadro desanimador, mas que, apesar de tudo, exige forças e sobretudo a fé capaz de renovar a esperança.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Acenos

(Imagem: Pinterest / Marina Coric)

- Deve haver alguma explicação, ainda que não clara para mim agora. Mas está tudo bem.
A frase foi dita por Ferrah Leni Fawcett de nascimento – Farrah para a mãe, que logo trocou o e pelo a por considerar a mudança sonoramente adequada ao nome da filha. Atriz de talento e beleza, enfrentou o câncer com coragem, manifestou-se incapaz de alcançar uma explicação razoável para a doença e sugeriu, com um “ainda” e um “agora”, que tudo para ela ficaria mais claro no futuro. E amarrou sua esperança com um it’s all right.
Católica por formação, Farrah Fawcett teve um sacerdote ao lado de sua cama antes de morrer, recebeu a Unção dos Enfermos, aceitou o pedido de casamento de seu companheiro Ryan O’Neal, quando já a gravidade de sua doença não deixava esperanças de vida, e reclamou um pouco de privacidade. Além disso, tomou a iniciativa de trazer a público seu estado, gravando algo sobre seu sofrimento em um vídeo de aproximadamente duas horas de duração.
Exemplos que deixam eco. Como o de outra atriz, Audrey Hepburn, falecida em 1993 aos 64 anos. Filha de uma baronesa holandesa e de um banqueiro inglês, Audrey nasceu em 1929 e teve infância difícil. Premiadíssima no teatro, cinema, música e televisão, também foi vítima do câncer, e antes de morrer, deu o último passeio, ao lado de seu companheiro e também ator, Roberto Wolders, pelos jardins de seu refúgio em Tolochenaz, na Suíça. Na ocasião, daria a ele instruções de como cuidar de cada planta.
Embaixatriz da UNICEF, Audrey Hepburn percorreu vários países para prestar apoio às ações em benefício dos mais pobres, dos que nunca ganham prêmios e passam pela vida tão anônimos quanto nela entraram. Foi assim que andou por Macau, Japão, Irlanda, Etiópia, Turquia, Bangladesh, Vietnã, Somália...
Corajosa gente essa, que apesar de tudo consegue despedir-se deixando-nos gestos e olhares de uma quase incompreensível esperança humana. Sem muito esforço, talvez pudéssemos entrever, em acenos definitivos como esses, um sorriso de terna compreensão para conosco – peregrinos que seguimos adiante sem tantas vezes nos darmos conta de nossa miséria.
(Repost)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que falta

(Imagem: Pinterest / Damien Byrne)

Há duas décadas quando, em relação ao que se vê hoje o mundo era praticamente outro, uma mulher morreu na porta de um hospital no Rio enquanto aguardava atendimento sob uma placa com a palavra "Emergência". Cardíaca, a comerciária Neusa Ferreira morreu na calçada, um dia depois de o pedreiro aposentado Felipe Ferreira da Silva também ir a óbito em sua própria casa. Ele ficara cinco dias internado no mesmo hospital com derrame cerebral e infecção generalizada, e fora atendido apenas por enfermeiras que lhe ministravam sedativos e cuidavam de sua alimentação. Em ambos os casos, a justificativa para a falta de atendimento especializado era uma greve de médicos.
À época, ambos os casos ganharam as páginas dos jornais e espaço nos noticiários da tevê. A administração do hospital, os sindicatos das categorias profissionais envolvidas e as autoridades estaduais trocaram acusações, apresentaram queixas, reivindicaram e prometeram providências para que novas tragédias semelhantes não voltassem a acontecer. Repetindo: isto, há 20 anos.
No espaço destas duas últimas décadas, quantos casos semelhantes ocorreram e continuam a ocorrer, assim como os discursos, as declarações, os inquéritos e as promessas? Na semana passada, uma enfermeira morreu depois de procurar atendimento na instituição em que trabalhava há sete anos – um hospital também no Rio, onde não lhe fora prestado atendimento adequado diante do que parece ter sido um diagnóstico equivocado de seu verdadeiro estado de saúde.
Em 1996, a fatalidade que vitimou a comerciária carioca indignou também um médico da organização “Médicos Sem Fronteiras”, que na época extravasou sua revolta em artigo publicado na imprensa. “O que matou aquela mulher na porta do hospital foi o egoísmo, e não o salário baixo. (...)  Foi o desastre da ética humana entre os médicos, que hoje passa mais pelo campo mercantilista de relacionamento com os planos de saúde antes de passar pela vida humana”, escreveu então o autor do artigo.
Mesmo não cabendo generalizações quanto a desvios de comportamento em qualquer situação ou categoria profissional, a leitura coincide com a opinião popular sobretudo no Brasil, onde a saúde pública tornou-se algo indescritível. E quem paga plano de saúde sabe também que paga caro por um atendimento que se degrada a cada dia.
Mais que o egoísmo e o desastre da ética humana, falta-nos um pouco de compaixão por nós mesmos e pelo sofrimento em relação à dor alheia.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A paz pelas sapatilhas

(Imagem: Pinterest / Pin de amelipomidorkina)


I Due Rivali. Este era o título do primeiro espetáculo de balé apresentado no Brasil, no então Teatro Régio (antiga Casa de Ópera Manoel Luís), no Rio de Janeiro. O mês era Dezembro e o ano, o de 1811. Junto com o espetáculo, coreografado pelo bailarino e coreógrafo francês Joseph Antoine Louis Lacombe, seria apresentada também a ópera L'oro non compra amore, composta por Marcos Antônio da Fonseca Portugal em homenagem ao contrato de casamento de D. Pedro com a arquiduquesa D. Leopoldina. Lacombe acabara de chegar ao Brasil para atender exclusivamente a corte, e se tornaria o primeiro professor particular de dança.
Dois anos mais tarde o mesmo Lacombe dirigiria – desta vez no Real Teatro São João – a pioneira apresentação do balé clássico no país. A dança se desenvolveria por aqui apenas um século depois, já no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a partir de apresentações das companhias russas Diaghilev e Pavlova. A escola do teatro só surgiria ali em 1927.
Difícil não associar sofrimento, dores, dedicação, disciplina, sacrifício e dificuldades, a palavras como apaixonante, magia, encantamento, beleza, emoção e sonho, quando o tema é o balé. Mesmo em tempos de frágil criatividade e valores estéticos discutíveis (ou até em decorrência dessa realidade), o balé segue erguendo um público para aplaudi-lo cada vez com mais entusiasmo.
Clássico ou contemporâneo, o balé talvez seja, dos movimentos corporais, o que mais nos aproxime de um autêntico vôo em busca da liberdade. Ao entrevistar o fundador e coreógrafo do St. Petersburg Ballet Theatre, Boris Eifman, Ana Botafogo disse que bailarinos usam movimentos para interpretar sentimentos e idéias. E acrescentou acreditar que todos devem ter a técnica clássica. “Também acho”, respondeu Eifman. “Se você observa um bailarino que não tem a técnica clássica, ele é um diletante. O balé é a linguagem que pode exprimir idéias e sentimentos importantes, pode trazer uma paz especial” – completou o coreógrafo.
Paz especial. Maurice Bèjart – a quem o balé também deve o sucesso de que desfruta hoje – já o definira como uma janela aberta para o céu. Paz celestial ou não, o balé continua atraindo a dedicação de alunos e professores. E o aplauso de platéias emocionadas.
Um indicador da década passada apontava para algo em torno de 220 escolas de balé no Brasil. Hoje esse número está certamente bastante ultrapassado. “A dança tem se tornado mais presente em termos de visibilidade social” – afirmou certa ocasião o então diretor do Nederlands Dans Theatre, Jiri Kylian. Para ele, só era ‘imperdoável’ o fato de algumas companhias se dedicarem apenas a reproduzir o repertório já existente.
- Nós somos os responsáveis pela história do futuro. Não tivesse existido a associação Petipa/Tchaikovski, que aceitou um risco enorme para produzir o que produziu, não teríamos a história da qual tanto nos orgulhamos hoje – arremataria Kylian.
Um provérbio define a dança como a mãe de todas as linguagens. Diante do desgaste da palavra (o homem inarticulado age, segundo Brodsky), pode caber à dança a nobre missão de desarmar os espíritos, favorecendo a que se alcance a paz de que falava Boris Eifman.

(Repost)