quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Último capítulo

(Imagem: Pinterest / Pin de Vivien Qi)

A mal distribuída paciência não estava, como as riquezas do mundo, nas mãos de poucos mas praticamente nas de um só: as do baixote Lúciclo Pinhão. Membro do valoroso clã dos Pinhão, o Jó do século 21 chegara ao mundo pelo amor de Lúcia e Clodoaldo, e uma das coisas que aprendera desde muito cedo é que haveria de soletrar, pacientemente, o próprio nome pelo resto da vida.
Mente fertilíssima, Lúciclo Pinhão ficara famoso pelo caso do galo Machado. Resolvido a aliviar a dificuldade de locomoção do rei do galinheiro devido a defeito congênito em uma das patas do animal, o homem dotara a ave com um par de minibotas confeccionadas em couro por ele mesmo. Certa tarde o “galo de botas”, recolhido ao poleiro, passara a cabeça pelo buraco de uma telha e, preso pela garganta, fora encontrado morto na manhã seguinte.
- Lulu, esse caso do galo não pode ser verdade, eu não me lembro disso. E depois, se aconteceu mesmo, é claro que o Machado se matou de tristeza...
A observação de Marinelza, fã incondicional de telenovelas, era sempre a mesma. Ainda que o marido repetisse que lhe ocultara aquela “tragédia”, a mulher continuaria afirmando que o galo suicidara.
- Lulu, você é insensível. Os bichos também sofrem por amor, morrem de desgosto. Galinhas tem seus príncipes encantados, e galos as suas princesas.
Lulu aquiescia e não se falava mais no assunto. Até que alguém pedisse a ele que contasse “o tal caso do galo”.
Mansa e rotineira, a vida do casal Pinhão conheceria a turbulência durante uma viagem de carro ao Rio. Atenta ao horário da novela, a mulher sacara da bolsa o aparelhinho de TV portátil, ligara-o e aguardara o marido encostar o carro, como era o ritual naquelas circunstâncias. Mas o motorista seguia em frente.
- Lulu?
- Que foi, Nelzinha?
- Você não ouviu nada?
- Não... Que foi?
- O barulhinho da antena automática, Lulu! Eu já liguei a TV e você não parou o carro pra eu ver a novela...
- Mas hoje não é a repetição do capítulo de ontem? E depois, você já sabe tudo o que vai acontecer...
- Mas, Lulu, novela é novela: emoção sempre.
Lúciclo Pinhão então parou no acostamento e desligou o motor. Enquanto isto, a mulher secava as lágrimas com um lencinho de papel.
- Vai, Afrânio, dá logo uma decisão nessa bandida traidora... – Marinelza instigava, de olho na TV.
- Já decidi, madame. É um assalto!
A frase acabara de entrar pela janela do carona, junto com o cano da arma e a cara do ladrão.
- Vai passando logo aqui pro Juca a bolsa com a grana. O baixinho aí também... A grana, doutor!
- Juca? Isso não é nome de ladrão... – arriscou, distraído, o baixinho Pinhão que, petrificado de susto e medo, permanecia agarrado ao volante. De braços erguidos, Marinelza via a bolsa sendo levada no momento em que a traidora de Vendaval Calamitoso gritava “bandido!”, como resposta a um tapa que recebera do herói Afrânio. O ladrão assustou-se:
- Bandido?
- Não fui eu quem disse, foi aquela safada da Marília... – justificou Maninelza ainda rendida, mas de olho no pequeno monitor em suas mãos.
- Ah, é Vendaval Calamitoso? – quis saber o Juca. – Passa pra cá a TV também, madame, que eu perdi o capítulo de ontem...
O ruído de uma sirene antecipou o aparecimento de um par de faróis na estrada. Tão rápido quanto surgira, o ladrão sumiu no interior do matagal levando com ele os sonhos de Marinelza.
(Repost - Editado)

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As mãos e os sonhos

(Imagem: Pinterest / Pin de Donna Nicholson)


Leio em edição quase centenária de jornal mineiro, que certa Joaquina da Conceição exercia o ofício de parteira. E se anunciava na folha, credenciada pela ‘prática de Maternidade da Santa Casa de Misericórdia’. Atendia chamados a qualquer hora e, para os pobres, cobrava ‘qualquer preço’.
É possível que tenhamos nos esquecido do quanto já foi mais simples e humano receber os que chegam, destinados a percorrer conosco parte do caminho. Mais simples, mais humano e mais barato. O anúncio evoca prioridade a ser prestada às gerações futuras, ao acontecimento misterioso do nascer de gente – e não de números, contribuintes ou dados estatísticos.
O passado de menos recursos e mais rigores tinha lá, quando nada, algo de corações aquecidos, ao invés de prioridade à temperatura dos bolsos. Nascia-se no aconchego das casas ou nas maternidades – porém sem cheque-caução, plano de saúde ou fila de espera nas calçadas. O parto era parto, sem financiamento e sem juros.
E quem nascia assim tinha também o inalienável direito de sonhar, como têm os que hoje chegam com desembarque filmado, gravado e fotografado. Até porque eram consideravelmente menores os riscos de se terem sonhos abortados, não só literalmente, mas também devido a trocas de bebês na maternidade, seqüestros ou abandonos numa lixeira.
Indago-me se sonhos de quem vinha pelas mãos de uma parteira, como as que eram comuns naquela fração de passado, não trariam junto um perdido elo de pureza, encantamento e coragem que os atrelava, de alguma forma, a futuro menos cinzento. Considerados à distância, aqueles sonhos revelam feições de engrandecimento humano, enquanto os de hoje parecem trazer a cara do pavor. Tímidos, não raro se restringem à sobrevivência digna, livrando o sonhador de horrores como bala perdida, desemprego e mau político.
Aventuras e desventuras de viver necessitam mais que disponibilidade e acolhimento de uma Joaquina da Conceição – que certamente teve, em sua partida, um nada de presença dos que ajudou a chegar. Elas pedem generosidade, acolhimento verdadeiro, simplicidade.
Para Montaigne, a morte é a condição de nossa criação – razão pela qual devemos dar lugar aos outros, assim como o deram a nós. Portanto não nos bastará ‘ceder’ o lugar, mas assegurar, a quem chega ou está por vir, o humano direito de sonhar.
(Repost) 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Chance perdida

(Imagem: Pinterest, pin de Rocio Simon)

Benditos amigos da confraria do Bar do Augusto, aos quais Eforce Uan Calixto Dores – ex-acertador de maçaroqueira, ex-arriador de filatório, ex-aprendiz de macarroneiro, ex-artista de força capilar e ex-bokonô – passara a dever mais um empurrãozinho na tentativa de acertar o pé na vida. Conhecido pelos confrades como Piloto Cheirinho, topava qualquer parada desde que a proposta não afrontasse 'escandalosamente' a lei e os bons costumes. Mesmo com a abundante e riquíssima variedade de superiores exemplos.
No Bar do Augusto, um dos membros da confraria acenara-lhe com a chance de “por a mão numa graninha”. Não era lá grande coisa, mas a oportunidade poderia render-lhe agenda de compromissos para o ano todo. Que trabalho?
- Moleza, Piloto! – o confrade tranquilizara o ansioso Eforce Uan. – Duas horinhas só vestido de macaco num fim de semana. Vai lá, conversa com o Petruco...
A caminho do encontro com o agente de eventos e locação de fantasias, Eforce Uan ensaiou argumento que lhe pareceu decisivo para demonstrar experiência profissional: diria que, "entre outros papéis semelhantes", interpretara o de jacaré como mascote do Clube Atlético Landinho Gorupira – o Calango. É verdade que tudo acontecera por poucos meses, até que a diretoria optasse pela dissolução da entidade em razão da escassez de atletas, recursos e sócios solidários e convictos.
O tal Petruco recebeu o candidato sem dar-lhe muita atenção. Apontou para o figurino de macaco – na verdade um gorila aterrador, porém sem a cabeça. A peça vestia um capacete, posto sobre uma cadeira num canto da sala.
- Vai querer com guinchado? – o agente perguntou ao confuso cliente. Não obtendo resposta, explicou-lhe que a fantasia podia ser ou não acompanhada de equipamento com a gravação da voz de alguns animais. Acomodada em bolso embutido sob a axila esquerda, quando pressionada a engenhoca reproduzia guinchado, rugido, cacarejo, gorjeio ou relincho. Para isso, bastaria selecionar a voz compatível com a peça a ser utilizada.
O homem enfiou a cara na roupa de macaco, ligou o equipamento e o acionou. A cabeça do king-kong então emitiu, ao invés de um rugido de fera, um estridente uaa-uaa-uaaa.
- Aí, é só encaixar a cabeça depois de vestir a fantasia e fechar o zíper – explicou o Petruco.
Tudo acertado, Piloto Cheirinho retirou-se levando numa sacola a ferramenta de trabalho.
No dia do evento Eforce Uan compareceu ao salão de festas pouco antes das 23h, conforme o combinado. Entrou por uma porta lateral e chegou ao camarim improvisado, onde vestiu o figurino, testou a unidade de voz e aguardou ser chamado. No momento certo, entrou no salão em penumbra e acionou o equipamento, que passou a emitir o guinchado de um macaco a intervalos regulares.
Logo a surpresa caiu no gosto dos convidados, que se divertiram com o guinchado de chipanzé na figura de um gorila selvagem. Depois de dar uns saltos e simular uma ou outra ameaça de ataque, o king-kong passou a integrar a equipe de garçons.
Já prestes a encerrar-se o período para o qual Eforce Uan fora contratado (e depois de submeter-se a uma série quase infindável de selfies), um caroço de azeitona lançado por mãos anônimas mergulhou decote adentro de uma convidada. Já tonto pela bebida, o acompanhante da mulher decidiu reclamar satisfações, e como não se identificara o responsável pelo disparo, deu-se início à confusão. O homem queria porque queria a presença dos organizadores do evento. E o fazia de forma exaltada no instante em que o macaco passava a seu lado emitindo um guinchado.
Derrubado no tumulto que se formou, Piloto Cheirinho não apenas foi parar debaixo de uma mesa como o equipamento de voz mudou de guinchado para cacarejo. Impossibilitado de desativá-lo naquela circunstância, Eforce Uan esgueirou-se como pôde até alcançar o camarim. Ali, para sua surpresa e aflição, constatou que o fecho que prendia a cabeça ao corpo da peça havia emperrado.
O salão continuava tomado por gritos, barulho de copos e de bandejas indo ao chão. Uma voz feminina insistia:
- Gente, cadê o macaco?
Foi a senha para que Eforce Uan ganhasse a rua e corresse tanto quanto pudesse. O equipamento de voz seguia cacarejando, indiferente aos golpes que, àquela altura, Piloto Cheirinho desferia em si mesmo.
Na primeira esquina deu com a polícia e foi parar na delegacia, de onde saiu depois de explicar tudinho, tintim por tintim, quando a madrugada já ia alta.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Corações e certezas

(Imagem: Pinterest, pin de Chatta Ghost)

Tenho, entre sites favoritos, os que me trazem novidades a respeito de progressos e descobertas da Ciência. É útil saber um pouco sobre onde nos tem levado nosso tatear histórico – na verdade, uma apalpação com jeito de sabedoria impossível de ser ultrapassada. Houve tempo em que se imaginava, por exemplo, que a taxa de expansão do universo, conhecida desde o início do século passado, estivesse em desaceleração. Mas os cientistas acabam de descobrir que acontece exatamente o contrário: o universo está se expandindo em velocidade crescente devido, provavelmente, à ação de enigmática matéria escura.
Pesquisando documentos em arquivo, dou com resenha de livro do jornalista francês Jean-Pierre Lentin, publicado há tempos. Nele o autor rebate acusações parcialmente infundadas, direcionadas a jornalistas por pesquisadores da Ciência. Entre autores do que denominou 'besteirol científico', Lentin cita Augusto Comte. Para o filósofo positivista, a idéia de que unidades básicas de tecidos orgânicos fossem formadas por células não passava de 'moda e confusão, provocada pelas ilusões do microscópio'.
Há mais exemplos: o cirurgião francês Paul Broca, que via em cérebros pequenos um indício de estupidez de seus donos, teve sua pesquisa adaptada depois que se descobriu que os alemães têm cérebros maiores do que os franceses. Nessa área, o autor da resenha sobre o livro menciona outro neurocirurgião – o português Antônio Egas Moniz – criador da lobotomia, uma cirurgia que não mais se pratica.
Seguem-se outros casos, mas nenhum se iguala ao que Jean-Pierre Lantin qualifica 'a frase mais imbecil de todos os tempos', proferida em 1887 pelo químico, professor e político francês Marcellin Berthelot. Àquela ocasião, o sucessor de Louis Pasteur na Academia Francesa de Ciências afirmara que 'para a Ciência, o mundo de agora em diante não tem mistério'.
John L. Casti, matemático das ciências humanas e professor titular da Universidade Técnica de Viena, escreveu certa vez que a questão é saber se o mundo real ‘não é complexo demais para ser apreendido pela mente humana. Em outras palavras, se há ou não limites para o que esperamos descobrir com recursos e instrumentos do que chamamos de ciência’. No campo da Astronomia, só as pesquisas do Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês) são, hoje, 100 trilhões de vezes mais poderosas do que há 50 anos. Quem informa é Frank Drake, astrônomo e fundador daquela instituição.
Apesar da avalanche de informações que produzimos atualmente, nossas ‘certezas’ permanecem vacilantes como nossos corações. A Ciência é um produto humano, segundo Albert Einstein. Assim como o erro. O problema é que ele nos assusta, nos faz mudar de calçada para não dar de cara com uma sociedade que reverencia cada vez mais a tecnologia, esquecendo-se de que somos, apenas, seres humanos.
(Repost)