domingo, 23 de agosto de 2015

A sandália e o sapateiro

(Imagem: Pinterest / Pin de Adil Muhammad)


Disse certa vez a escritora Marina Colasanti que um pobre é um péssimo negócio, e que se isto pode não corresponder à verdade se olhado por outro ângulo, passa a sê-lo quando se multiplica.
É possível que corramos o risco de enxergar pobres como palavras e números. Pobreza para o pobre é algo individual, um estado permanente de negação do que é bom e confortável na vida. Aquilo que a tevê mostra com brilho e sedução e do qual só lhe é permitido, algumas vezes, adquirir parcela modesta. Assim mesmo, à custa de volumoso carnê de prestações mensais.
Mais do que a negação de bens ou de conforto, é a solidão que aflige o pobre. Solidão que em geral começa em casa, na família que marginaliza seus membros menos aquinhoados. Afinal, parente pobre não tem o que partilhar, a não ser a própria pobreza. Nada de aventuras glamurosas, nem conquistas ou novidades da tecnologia, mas apenas necessidades. Trabalhar com pobre é pedir esmola para dois – reza o preconceito. Que, aliás, bem poderia ser “oficializado” com a instituição de cotas para pobres e a criminalização da pobreza. É tentador imaginar considerado crime inafiançável o favorecer ou induzir à miséria...
Pobres estão nos discursos, sempre. São os degraus que sustentam a escalada da ambição em busca do Poder. Apesar do aumento de investimentos e da ajuda externa, há os que afirmam que a pobreza mundial ganha força porque tudo isso não é concedido para combatê-la, mas para aumentar a riqueza dos investidores de outros países.
Todo o mundo sabe que pobreza rende votos, rende lucros e é prolífica. Só a riqueza é contida e seletiva, e dela 90 por cento da humanidade apenas ouve falar. Ou, no máximo, consegue ver-lhe as pegadas.
Pela boca de Jó, os maus afastam os pobres do caminho, obrigando-os a se esconderem. Quando invadiu Jerusalém, o rei Nabucodonosor levou de lá para a Babilônia os chefes e todos os homens de valor, como ferreiros e artífices, totalizando cerca de dez mil pessoas. Só deixou para trás os pobres.
Vem-nos ainda da Bíblia Sagrada, pela palavra do profeta Amós, a exortação de que se comprariam “os infelizes por dinheiro e os pobres por um par de sandálias”.
Para que não tivéssemos um déficit desse tipo de calçado, talvez fosse o caso de se ministrar o curso de sapateiro aos que nada possuem. Não indo além das sandálias, conforme reza o provérbio, a maioria teria, quando nada, uma profissão.
E, de quebra, poderia exercê-la com prudência, dignidade e sabedoria suficientes para não se deixar levar por toscos discursos e vãs promessas.

(Repost)

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tentando a sorte

(Imagem: Pinterest - Pin de Mallory McInnis)


Sonolenta, a mulher que atendia em um dos guichês da casa lotérica chamava os clientes um a um. A fila era longa e entediante como aquela segunda-feira.

- Próximo...

No balcão ao lado, o vendedor de bilhetes ajeitava, distraído, o penteado em estilo moicano diante de um espelhinho de bolso.

- Bom dia, minha noiva! Vem me encontrar, vem me abraçar...

A voz que saudava a funcionária do caixa era a de um sexagenário cliente. Indiferente ao calor e aos olhares curiosos dos enfileirados, o galanteador disparava as cantadas em tom solene e grave, como se declamasse um poema. A mulher primeiro olhou com um rabo de olho, depois deixou escapar muxoxo digno de compaixão. O homem fingiu não perceber.

- Tudo bem, minha flor rosa?

- Hoje não estou pra conversa, nem para os muito poucos amigos... – advertiu a atendente, enquanto devolvia farta papelada ao cliente da vez.

- Próximo!

Simulando interesse por números para a extração da federal, o homem prosseguiu na investida:

- Ninguém é de ninguém / na vida tudo passa / Até quem nos abraça...

Desconhecendo tratar-se de uma letra de música, duas jovens na fila comentaram a fala do apaixonado. Uma delas disse que o homem “poetava verdades” ao definir “também como passageiro até quem nos abraça”.

- Ou até quem nos quer abraçar... Lindo, isto! – filosofou a outra.

Voltando-se para o do espelhinho, que ainda ajeitava o penteado, o galanteador disparou:

- Ah, Bené, o amor é lindo!

O outro sorriu e olhou para a colega do caixa.

- Próximo...

O próximo era o galanteador.

- Minha flor...

- O senhor é bilhete? Então é com o Bené ali... Próximo! – e a mulher do caixa fechou os olhos, ignorando a expressão de desapontamento do apaixonado. Passou em seguida a bater nervosamente uma caneta no vidro do guichê.

- Próximo!

O homem então encheu o peito, abriu os braços e soltou a voz:

- Esta é / a última canção / que eu faço pra você...

Depois sorriu e foi embora. No guichê, a mulher continuou, impaciente, a bater a caneta no vidro:

- Pró-xi-mo!

(Repost)

domingo, 9 de agosto de 2015

A Cabeça de Ifé

(Imagem: Pinterest - Pin de Nu Bia)

Entre as marcas de nossa passagem pelo planeta, uma delas encontra-se hoje no Museu Britânico. Trata-se da Cabeça de Ifé, descoberta na cidade de Ifé, sudoeste da Nigéria, junto com outras doze há quase oitenta anos.
Produto das grandes civilizações medievais que existiram há cerca de seiscentos anos na África Ocidental, a Cabeça de Ifé é pouco menor que uma cabeça de tamanho natural e feita de latão. O artista que modelou o objeto permanecerá oculto membro de uma cultura que não deixou registros escritos.
Segundo Neil MacGregor, diretor daquele museu, a Cabeça de Ifé tem rosto oval “elegante, coberto de linhas verticais talhadas com precisão”. Junto com outras da mesma origem, a peça destruiu “as noções europeias de história da arte”, levando os europeus “a reavaliarem o lugar da África na história cultural do mundo”.
Para o romancista nascido na Nigéria, Ben Okri, a Cabeça de Ifé causa-lhe o efeito de certas esculturas do Buda. Isto porque “a presença da tranquilidade em uma obra de arte revela uma grande civilização interna, porque não se adquire tranquilidade sem reflexão, sem fazer as grandes perguntas sobre nosso lugar no universo e encontrar respostas razoavelmente satisfatórias”. Para ele, civilização é isso.
Não será necessário muito esforço para entender a distância que nos separa do conceito de civilização de que fala o escritor nigeriano, e relatado por MacGregor em seu livro A História do Mundo em 100 Objetos. Nosso multiculturalismo, com requintes de globalização, certamente não produzirá mais uma arte tão representativa de um povo, e, provavelmente, nem tão capaz de revelar a tranquilidade que advém de profundas reflexões.
Desavisados, consumimos o que nos tenta impingir a mídia venal em nome de seus próprios interesses. Será arte e será sucesso o que uma miserável cabeça humana decidir que deva ser sucesso e arte. De costas para o Criador, o mundo há muito passou a erigir seus rentabilíssimos ídolos, porque alguém disse que precisamos deles.
Cidade cujos vestígios vão a 500 aC., Ifé tem por nome uma palavra que, na língua yorubá, significa amor. O que não deixa de ser, no mínimo, curioso para uma cultura que legou ao futuro poucas, mas surpreendentes obras de arte.
Sucessores daquele artista nigeriano que, numa era distante, modelou em latão a extraordinária peça sem nunca imaginar quão longe ela chegaria no tempo, a nós nos resta reconhecer o serviço que ele nos presta. A Cabeça de Ifé pode nos ajudar a refletir na civilização que moldamos e, sobretudo, no legado que remeteremos às gerações do futuro.
Se houver legado digno e se houver futuro.

(Repost)

domingo, 2 de agosto de 2015

Especulações vocabulares


(Imagem: Pinterest, pin de Holly Cornellius)

Não se desfaz mais nada, hoje. Quem queira desmanchar, arrasar ou destruir algo com sucesso, terá que desconstruir. E com ferramentas orais e morais capazes de romper blindagem – palavra guerreira que saiu dos domínios da beligerância, mas foi sequestrada quando passeava em Brasília.
E é lá, no planalto que um dia foi sonho de Dom Bosco, que hoje se procuram agendas positivas – o que confirma a existência de seu contrário, as negativas, para a defesa de cujos efeitos há de se executar a tal blindagem. Se a medida não for suficiente, tira-se o alvo de cena ou do foco, confiando em que a proverbial amnésia nossa deixe correr o barco em águas que se quer tranquilas.
Se blindagem foi sequestrada em estado de êxtase por Brasília, inexperiência e teimosia tramaram ato tão vil, pois o vocábulo desprezou o conselho da palavra ética. Muito debilitada, ética está de saída, e leva na bagagem ecos de diálogos, declarações e ofensas tão inacreditáveis quanto inesquecíveis. Sai de cena – ou do foco – particularmente ressentida pelo abandono de sua companheira de tanto tempo em ambientes republicanos – a palavra conselho. Embora também sem credibilidade, conselho tem feito tudo para manter-se sob a luz dos refletores, fazendo concessões a finalidades inconfessáveis, em especial as que compõem as tais agendas negativas.
Sem popularidade, a palavra viés teve seus curtos momentos de relativa fama. Invejosa, tentou amizade com a velocíssima agilizar – uma veterana na arte de não deixar rastros. Dissimulada, agilizar não costuma mostrar-se inteira, e nas poucas vezes em que isto acontece, é vista circulando na penumbra e em ambientes restritos. Ainda assim, quem já tenha recorrido a ela nem sempre reconhece tê-lo feito, pois existem suspeitas de que a palavra não dê atenção apropriada à higiene pessoal, carregando com ela odores e manchas de subterrâneos por onde tenha circulado.
Nota-se adaptação rápida da insossa e manquitolante pré-sal ao clima do cerrado, lá por aquelas bandas do Distrito Federal. Apesar de dividida, essa jovem esvoaça com desenvoltura pelos ambientes palacianos, embora já tenha feito mais sucesso com longa agenda (positiva), voltada ao reconhecimento de todo cidadão brasileiro em qualquer metro quadrado do solo pátrio.
Das gêmeas valores, apenas permanece inarredável junto ao poder aquela cuja personalidade se caracteriza por forte apego às questões monetárias. Sua irmã – desprendida, generosa, voltada às questões morais e espirituais – há muito tem demonstrado preferência por lugares mais retirados. Não só em razão de seu desprestígio mas, sobretudo, porque onde há humildade é também possível encontrar suas parceiras, as palavras alegria e paz.
Rumor muito forte tem espalhado inquietação a respeito do vocábulo justiça. Há observadores que apostam na sua clonagem maldosa, afirmando que a verdadeira já estaria em local incerto e não sabido, sob regime de recolhimento forçado. Outros porém dão como inconsistente esta versão. Dizem que justiça, na verdade, tem empenhado a maior parte de seu tempo em longa e penosa mudança para território geográfico ainda desconhecido.
Polêmicas e discussões à parte, parece haver consenso em relação à sobrecarga de responsabilidades sobre uma palavra que, maltratada e usurpada em sua dignidade, não consegue mais transferir respeito ao sujeito a quem deve nominar: a palavra eleitor. Esta, por sua vez, mal consegue enxergar lá no alto, servida por vassalagem e coroada de brilho, a palavra arrecadação e seu fidelíssimo escudeiro, o vocábulo imposto.
E cá de baixo, onde raramente aparecem os maiores e mais contumazes usuários da palavra eleitor, o sujeito ao qual esta palavra ainda serve com fidelidade não descobriu a quem despachar, com urgência urgentíssima, a incômoda e inquietante palavra socorro.

(Repost de Agosto/2009 )