terça-feira, 28 de julho de 2015

Cardápio

(Imagem: Pinterest)

Apesar de tudo, chegaram as férias. O casal arrumou as malas, reservou um destino paradisíaco, traçou rotas entre risos e ansiedade das crianças (cujos celulares foram prudentemente recolhidos) e, no dia da redenção, todos voaram em direção ao carro, carregado com as bagagens desde a tarde da véspera.
Seriam 15 dias de...  Não, 15 dias não: seriam mais. Embora planejassem o retorno para daí a uma quinzena de merecido descanso, eles afinal dispunham de flexibilidade no trabalho, e já haviam acertado ausência por mais tempo.
No banco de trás, as crianças disputavam espaço – a mais velha demarcando para si o equivalente a dois terços do assento, com a justificativa de deixar lugar para seu Lecavorco – a representação em pelúcia de um ser indefinido para os ‘de casa’, que puseram aquele nome em algo com juba de leão, cara de cavalo e focinho de porco. Dissimulado, o mais novo empurrava sorrateiramente a mochila, avançando sobre o terreno a ser invadido enquanto sua dona contava, distraída, o número de caminhões que vinham em sentido contrário. A estratégia ia dar, invariavelmente, em discussões e tapinhas para lá e para cá, seguidos do maior berreiro – ora do invasor,  ora da invadida.
Do banco da frente primeiro emanaram palavras dóceis para conclamar as partes em conflito à pacificação. Sem obter resultado, a mãe passou ao segundo estágio das medidas coercitivas, ameaçando castigo e até acenando com a possibilidade de cancelarem ida a Orlando nas férias de final de ano. Aqui, o conflito deu mostras de arrefecimento, seguindo-se um silêncio quase imediato.
Nada como a pedagogia adequada. A mãe piscou para o motorista e fez um sinal de positivo com o polegar, sem que as partes em conflito dessem pela discreta celebração da vitória. Ele olhou de lado, deu um sorrisinho indecifrável e seguiu dirigindo.
Não demorou muito e tudo recomeçou, com o estalido de um tapa seguido de um "para!", gritado a plenos pulmões pela latifundiária. O invasor botou a boca no mundo.
Depois de sinalizar à direita, o pai parou o carro no acostamento e, voltando-se para trás, decidiu pela aplicação de pedagogia própria. Sem alterar o tom de voz, anunciou:
- Olha aqui vocês dois, vamos combinar o seguinte: ou param imediatamente com essa briguinha boba, ou não tem mais almoço na estrada, mas na casa da tia Cida.
Foi o suficiente para que se restabelecesse a paz pelo resto da viagem.

domingo, 19 de julho de 2015

Surpresa no mar

(Imagem: Pinterst, pin de Heidi Franklin)

Fonseca recebeu o amigo em casa para cerveja e bate-papo. A mulher tagarelava ao telefone. De olhos e ouvidos atentos à conversa do pai, o pequeno guarda de trânsito concedera trégua ao apitaço infernal, depois de fazer do bloquinho para anotação de recados, um monte de papel rabiscado. Eram multas aplicadas à irmã, que 'dirigia' pela casa um caminhão-caixa de papelão, transportando Gigi – a girafa de pelúcia cujo focinho era um borrão de batom vermelho. As contas com a lei eram acertadas mediante pagamento de uma bala a cada infração. Apreensiva, Larissa via sumir da bolsinha cor-de-rosa suas reservas de liberdade.
Mas a conversa do pai com o amigo era mais importante que o trânsito. Ambos falavam sobre um certo Gaspar, que tinha aprontado poucas e boas.
- Hereditário, Fonseca. Picaretagem tá no sangue... – dizia o amigo.
O pai do garoto rebatia a teoria do outro. Entretido na conversa, o guarda não via a motorista do caminhão furtar-lhe as balas na latinha que ele fizera de cofre.
- Pois não sabe que o pai do Gaspar foi intimado, lá pelos anos trinta, a pagar dívida pelo conserto de um capote?
Fonseca soltou uma gargalhada, mas o amigo ficou sério.
- Verdade... A cobrança foi feita pelo credor através de anúncio de jornal. Uma dívida de cinco anos, que o outro cobrou sob ameaça de trazer a público 'o caso da viúva'.
Já meio tocados pela bebida, os dois riram alto. Passaram então a especular sobre a viúva, o caso, a dívida e o constrangimento do pai do Gaspar – este, definido pelo amigo do Fonseca como um patife.
- Um senhor patife – é o que ele é.
A palavra instigou o guarda de trânsito, que cutucou o pai querendo saber o que era um patife. Mas não obteve resposta.
- O pai do Gaspar – disse o Fonseca – pode até ter sido um patife, mas o Gaspar? Não acredito.
O menino insistiu na pergunta, tocando de leve o braço do homem, que derramou cerveja sobre a mesa.
- Olha aí, Rodrigo! Deixa a gente conversar...
O garoto resmungou pedido de desculpa, mas continuou ali, escutando. O amigo seguia acusando o tal Gaspar.
- Pois eu digo que emprestei a ele uma espada que foi do meu avô. Jurou que precisava para o personagem de Marechal Roquefrut, que ele representava naquela peça. E veio me dizer depois que a espada desaparecera no camarim do teatro... – queixou-se.
- É, esse pessoal de teatro não brinca em serviço... – o Fonseca emendou sem o menor interesse, enquanto buscava outra cerveja no refrigerador.
- Mas o patife tem outra igualzinha. A filha dele contou um dia à minha mulher no salão de cabeleireira.
O guarda de trânsito resolveu apelar para o apito, soprado a plenos pulmões. Fonseca sacudiu-se todo com o susto, e quando procurou a criança, ela já estava longe
Solicitada a interferência da mãe (que ainda tagarelava ao telefone), a paz foi restabelecida. Fonseca então pôde voltar a interessar-se pela suposta patifaria do Gaspar, até que um grito, vindo do quarto das crianças, paralisou papo, cerveja e tagarelice. A um só tempo os adultos compareceram à porta de entrada para o oceano, onde no caminhão-caixa de papelão (agora transformado em navio) navegava o casal de aventureiros. 
Toalha de rosto presa às costas como se fosse capa, o menino fizera de tapa-olho um pé de meia preta do pai. Com os braços, erguia uma espada de plástico. A ex-motorista de caminhão chorava, reclamando da ‘espadada’ que levara na barriga por causa das balas roubadas.
Sorrindo orgulho e valentia, o ex-guarda de trânsito anunciou aos três grandões que observavam da praia que, a partir daquele instante, ele era um patife – o herói do mar.

(Repost)

domingo, 12 de julho de 2015

Peixe e abacaxi

(Imagem: Pinterest, pin de Recyclart)


Uma tirinha publicada como parte de antiga campanha publicitária para um jornal, afirmava que peixe e abacaxi têm escamas, porém nem peixe é abacaxi e nem abacaxi é peixe. Ilustrava-se, assim, o risco que representam as meias-verdades – praga que hoje se generaliza não apenas na política, mas sobretudo na comunicação onde, supõe-se, deveria haver honestidade no tratamento do que se passa ao público.
Manipulada com refinada técnica, a comunicação através da mídia tem transformado meias-verdades em fatos irretorquíveis sobre os quais não se aceita discordância, sob pena de que recaia sobre os contrários, quando nada, o rótulo de preconceituosos.
A gente do povo no Brasil, sabidamente, não alimenta preconceito de raça, cor ou religião. Porém uma maldosa e distorcida estratégia de abordagem da opinião pública tem procurado 'esticar a corda', polarizando posicionamentos quanto a essas e outras questões, na tentativa de tirar de conflitos muitas vezes artificialmente criados, dividendos trocados por fatias de poder, votos e audiência.
É claro, há na sociedade setores que defendem e praticam hábitos inadmissíveis, contrariando uma visão conceitual de igualdade, justiça e liberdade. Essa chaga está viva como nunca até em nação tida como a mais democrática do mundo – os Estados Unidos da América. Mas lá como cá, felizmente ela não é predominante.
A prática do preconceito deve ser combatida com a educação e com a lei, e jamais com o estrelismo e a avidez hipócrita dos que repetem aquela velhinha da anedota que, muito vaidosa, subia a todo instante numa cadeira no centro do salão de festas lotado de fotógrafos e colunistas sociais, para gritar ao microfone que não queria ser fotografada.
Rarefeito de bom senso e capacidade de discernimento, o ambiente político do país, assim como boa parte de sua mídia, precisa rever-se com uma dose adequada de humildade e espírito público, se é que se pretende começar a restabelecer a verdade.
Porque, afinal, abacaxi é abacaxi e peixe é peixe.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

A receita

(Imagem: Pinterest, pin de Lyn LaCava)


A quadragésima-segunda edição de Contos Pátrios, reunindo textos de Olavo Bilac e Coelho Netto e publicada em 1954 pela Livraria Francisco Alves, era voltada à formação escolar infantil, na área da extinta Educação Moral e Cívica. Dela faz parte o conto intitulado ‘O Rato’, que tem por personagens principais um menino de nove anos e sua mãe – mulher paralítica ‘que jazia prostrada pela moléstia’.

Muito esperto, o garoto acordava cedo, fazia a limpeza do aposento onde vivia, ‘mudava a água nas bilhas, deixava ao alcance da mão da paralítica a cafeteira e o pão’, e saía à rua para pedir esmolas na porta das igrejas. E o fazia resguardado por um atestado de médico, que ‘por misericórdia’ tratava da doente.

Narra ainda o texto que certa vez, depois de voltar para casa chorando e levando algumas moedas, a criança nada explicaria à sua mãe. No dia seguinte ela o veria chegar sorrindo e trazendo nos bolsos mais dinheiro. O menino então revelaria ter vendido jornais para um amigo de rua, tendo este lhe prometido aumentar a quantidade de exemplares, transformando o até então infeliz pedinte em digno jornaleiro. Quanto ao pranto da véspera, ele fora resultado da humilhação imposta ao garoto pelo pai de outra criança, ao negar-lhe uma moeda por desconfiar que ela seria deixada ‘na primeira taverna’.

Excessos à parte, a olhos atuais não pode passar despercebida a distância estelar que nos separa  de uma sociedade baseada em valores hoje moribundos, para dizer o menos. Há mais de seis décadas, não causaria muito espanto que uma criança de nove anos cuidasse de sua mãe inválida com tanto zelo e responsabilidade. E nem que, para isso, tivesse que esmolar à porta das igrejas, respaldada por um atestado de médico que atendesse a paciente com compaixão e gratuidade.

O leitor do século 21 não vacilaria ainda em ver as cenas descritas como ficção meio boboca, ao imaginar que um menino pobre voltasse para casa, sistematicamente, depois de passar o dia inteiro pedindo esmolas. E – mais surpreendente – levando e entregando à sua mãe o dinheiro angariado.

Encontrar um amigo de rua que encaminhasse o pedinte para uma profissão como a de jornaleiro (que, por sua vez, lhe rendesse o suficiente a seu sustento e ao de sua mãe), parece tão impossível quanto crer que uma criança de nove anos, vivendo nas ruas e agindo mal, hoje, pudesse empregar a esmola recebida na aquisição apenas de inocente tabaco ou bebida em um bar.

Delírio mesmo só a sobrevivência, em nossos dias e por mais de quarenta edições, de um livro de contos infantis de autor brasileiro adotado pelas escolas.

Lá ou cá, algo saiu ou está saindo errado.

(Repost)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

As sementes do rei

(Imagem: Pinterest, pin de Supakorn Chinanawin)

Em terras muito distantes vivia um povo numeroso, trabalhador e privilegiado pela qualidade do solo de onde germinavam os melhores frutos durante todo o ano. Regalando-se com as delícias produzidas no reino, o rei e sua corte levavam vida mansa e tranquila, indiferentes à luta diária dos súditos, a cujas necessidades eram geralmente lentos e malevolentes no atendimento, porém ligeiros na cobrança do imposto real.
Invejando a produtividade da terra alheia, os habitantes das nações vizinhas ateavam fogo à sua vegetação na expectativa de que aquele solo fértil se transformasse em terreno onde apenas brotassem ervas daninhas.

Cansado pelo combate constante aos focos de incêndio, o povo queixou-se ao rei que, por sua vez, prometeu-lhes providências. O soberano então enviou emissários aos limites do território real com a tarefa de convencer os inimigos, em nome da boa vizinhança, a não incendiarem suas terras.
Assim foi feito. Correu o tempo, mas nada mudou: os inimigos do reino das terras boas e de excelentes frutos continuaram lançando tochas no meio da plantação do vizinho na calada da noite, causando com isto enormes estragos.
Desesperados, os súditos voltaram ao rei e este tentou acalmá-los com a notícia de que seus ministros já integravam comissões especiais, encarregadas de estudar técnicas agrícolas capazes de disponibilizar aos produtores sementes modificadas geneticamente e imunes ao fogo. Enquanto esse objetivo não fosse alcançado, todos deveriam evitar apagar os incêndios limpando o terreno em volta da área atingida de maneira a que o fogo, extinguindo-se pela falta de combustível, não se alastrasse ao resto da plantação.
Indagado sobre a razão desse procedimento, o rei explicou que apagar simplesmente o fogo seria agir sobre a consequência, quando o melhor seria fazê-lo sobre a causa. E isto significava tentar convencer os inimigos a não repetirem aquele gesto. Quanto às sementes especiais, elas apareceriam em algum momento no futuro.
O rei ainda falava a seus súditos quando um extraordinário incêndio devastou as terras do reino, matando o soberano e sua corte, seus súditos e os ministros reunidos em comissões técnicas para tratar das providências que jamais se concretizariam.