quinta-feira, 25 de junho de 2015

Proposta

(Imagem: Pinterest, Pin de Evelina Jorgensen)

Homem sério, empertigado, limpíssimo. Organizadíssimo. Assim era o Bicalho – o funcionário aposentado mais presenteado, louvado e condecorado da repartição pelos bons serviços prestados durante mais de 30 anos. Meticuloso e detalhista, era sujeito que valorizava segundos e centavos. Se existem, dizia, então devem ser úteis e utilizados. Sempre.
Tamanha exatidão nascia na mente, percorria-lhe o corpo magro e chegava à ponta dos dedos, sob a forma de petelecos, para tirar um cisco de cima da mesa ou da lapela de um paletó. Tanto gosto por minúcia e limpeza o fazia apertar os olhos por trás de grossas lentes, à cata de um fio de cabelo em qualquer blusa. Ou acertar a posição de um livro sobre o móvel, deixando-o a simétrica distância das margens. Era assim, o Bicalho: desvirava o que estava virado, tampava o destampado, destorcia o torcido, endireitava o torto. No mundo bicalhino não poderia haver desordem.
Em casa, a mulher já se acostumara com aquele homem que parecia ter pinças no lugar dos dedos e uma lupa ao invés de olhos. Fosse interrompida no trabalho de descascar batatas para atender ao telefone, e quando retornasse à cozinha a faca já estaria lavada e seca na gaveta de talheres, as batatas mergulhadas em água numa vasilha cuidadosamente tampada.
Assim como a gaveta de meias e o armarinho de remédios, a vida seguia absoluta ordem do portão para dentro da casa do Bicalho, até que um dia o caos se instalou. Veio chegando devagar, sorrateiro, travestido de noite de festa para celebrar o aniversário de dona Padinha, a vizinha e amiga de sempre.
O casal compareceu ao clube para a comemoração, onde não faltaram vestidos longos e decotes ousados, paletós maiores do que os donos, nós de gravata mal dados, algumas bengalas, muitos garçons e alcoólica alegria. Tudo ao som de conjunto musical razoável e gritaria ensurdecedora. Foi nesse ambiente que dona Milu e o marido ocuparam seus lugares à mesa, depois de o cuidadoso Bicalho passar sobre o assento das cadeiras uma pequena flanela que levava, dentro de um saquinho plástico, metida no bolso da calça.
Uma fila de convidados se formou assim que a aniversariante apareceu para receber os cumprimentos. E lá estavam o aposentado e sua mulher, bem atrás de Luzia Ladylight – uma convidada gorda, falante e que, desde que fizera ponta no papel de empregada doméstica em três capítulos de uma telenovela, passara a suplicar platéia e aplauso. Ao voltar-se e perceber atrás de si aquela figura elegantemente trajada, Luzia ensaiou olhar insinuante e murmurou queixa quando à demora no andamento da fila. Mas o vozerio ao som da banda tentando executar Besame mucho, levou o Bicalho a crer que a mulher perguntasse as horas.
- São 23 horas, 35 minutos e quatro segundos.
Nesse instante o aposentado notou que a mulher tinha uma alça do vestido torcida sobre o ombro esquerdo. Inquieto, esforçou-se para desviar o olhar. Para distrair a atenção, contou os ladrilhos pretos que se alternavam com os brancos em um metro quadrado de piso. Recontou-os uma, duas vezes. Mas aquela alça ali, bem ao alcance da sua mão reparadora, acabou derrotando-o. Ansioso, Bicalho aproximou-se do ouvido de Luzia Ladylight e sussurrou o mais polidamente possível:
- Por gentileza, a senhora me permite que eu desvire a sua alcinha?
A carteira que a mulher tinha em uma das mãos primeiro bateu na nuca do sujeito que estava à sua frente, e em seguida foi achatar-se na cara do Bicalho, que quase caiu.
- Safado! – gritou Luzia Ladylight para o marido de Dona Milu, enquanto o homem que levara o golpe na nuca pedia satisfações e exigia desculpas da agressora.
De imediato teve início um empurra-empurra. Dona Milu já retirara o zonzo Bicalho para o outro lado do salão. Ambos haviam se colocado bem próximos a uma porta lateral, escondidos por uma parede de curiosos. O tumulto se desdobrara em várias discussões, envolvendo quatro ou cinco convidados muito agitados. Dois seguranças surgiram do nada e retiraram dali os mais exaltados, querendo saber quem começara toda aquela confusão. Por seu lado, Luzia Ladylight varria o ambiente com o olhar.
- Aquele velho safado... Ele deve ter escapado, aquele sem-vergonha!
- Mas... senhora... – ponderou um dos seguranças.  – O que foi, afinal, que o tal velhote lhe disse?
Era a deixa tão esperada. A mulher primeiro se fez de constrangida, não sem antes olhar os rostos solidários e ansiosos que a rodeavam. A plateia estava ali, mal se contendo para aplaudi-la ao descrever o ‘gravíssimo assédio sexual’ de que fora vítima. Luzia Ladylight tomou fôlego, e antes de fazer a revelação da noite, fez questão de reafirmar que, apesar do vozerio e da música alta no salão, ouvira ‘perfeitamente as palavras do cafajeste’. E tentando imitar a voz do Bicalho, anunciou em alto e bom som:
- Ele disse: a senhora deixa que eu tire a sua calcinha?
Lá fora, o casal Bicalho já tomara um táxi para desaparecer na noite.

(Repost)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Alienação e poder

(Imagem: Pinterest - Pin de Andrea Reynolds)


O mundo estava ainda em guerra quando, no Natal de 1944, o Papa Pio XII dirigiu mensagem aos povos, distinguindo ”povo” de “massa”.
Movendo-se por vida própria e difundindo, de sua exuberância de povo verdadeiro, a vida no Estado e em todos os seus órgãos “pela infusão do vigor e da consciência da própria responsabilidade, além do sentimento do bem comum”, o conceito de povo, segundo a mensagem, diverge do de massa. Aqui ela é definida como inerte em si mesma “e não pode mover-se senão pela ação de um elemento externo para um fim que ela desconhece.” Habilmente manipulada e usada “pelas mãos ambiciosas de um só ou de muitos agrupados artificialmente por tendências egoístas, pode ser reduzida a não ser mais que uma simples máquina”. Vista por esse ângulo, massa “é inimiga capital da democracia e de seu ideal de liberdade e igualdade.”
A reflexão vem a propósito de análise das transformações pelas quais vem passando o mundo, feitas por Moisés Naim em O Fim do Poder. Ex-Ministro do Desenvolvimento na Venezuela, diretor executivo do Banco Mundial e editor-chefe da revista Foreign Policy, o autor aborda a degradação do poder e suas consequências na sociedade humana remetendo-nos, quando nada, à teimosa resistência que temos em aprender com os erros do passado. Quando escreveu a mensagem “Benignitas et Humanitas”, Pio XII afirmou que os povos, diante do sinistro resplendor da guerra, como que despertavam de prolongada letargia adotando, diante do Estado e dos governantes, “uma atitude nova, interrogativa, critica, desconfiada”.
Passados 70 anos, Moisés Naim lembra que “nunca mais” é o lema universal dos sobreviventes da guerra, e ressalta que, apesar disso, persistem o terror, a coerção e a violência como “forças poderosas que transformam as vidas e as comunidades humanas”. Assim é que os “dividendos de paz” da Guerra Fria já desapareceram, diante de eventos como a Guerra do Golfo, o ataque ao World Trade Center, o genocídio em Ruanda e as guerras civis na África Ocidental, entre outros.
Das consequências da degradação do poder – que cria solo fértil para a demagogia – Naim cita o surgimento de charlatães e do que chama de “vendedores de poções mágicas” ou “simplificadores”, para quem um novo ambiente torna mais fácil alcançar o poder. Em razão disso – e de toda a minuciosa e bem fundamentada análise a que o autor submete a questão – faz-se necessário que a sociedade abra espaço ao diálogo, em todos os níveis, sobre as mudanças por que passa o poder no mundo.
O livro é instigante ainda por questionar, por exemplo, se o aumento nos sentimentos de solidão, apontado por vários estudos de ciências sociais no mundo desenvolvido, não se relaciona com a degradação do poder também na família. Existindo um risco crescente para a democracia e as sociedades liberais no século XXI, o autor acena com a possibilidade de que ele provavelmente tenha origem não em uma “ameaça convencional moderna (China) ou pré-moderna (radicalismo islâmico), e sim do interior das sociedades nas quais a alienação se instalou”.
Alienação que, entre nós, leva jeito de realidade hábil, insistente e convenientemente manipulada com incansável dedicação. 

terça-feira, 16 de junho de 2015

Ainda os laços e as descobertas...

(Imagem: Pinterest - Pin de Jeff Jarvis)

Em junho de 2009 surgia aqui este Pretextos-elr, no que se desenhava uma modesta tentativa para desengavetar ideias e exercitar a rotina de escrever, desaquecida pelo afastamento das redações. Longe de boa parte delas jornalista consegue sobreviver com a estranha impressão de que perde pouco ou nada.
Quando este blog nasceu, o autor, como agora, finalizava originais de um livro institucional encomendado. A proposta reacenderia a velha rotina, porém mais confortavelmente pelo fato de a “obrigação” ser auto-imposta: sem vontade ou inspiração, nada de texto. Hoje, mais de 400 postagens foram oferecidas à paciência e generosidade de leitores que apareceram ao longo dos anos.
A experiência rende frutos disfarçados de laços e descobertas. Como as de que palavras deixadas aqui trazem de volta um pouco de cada leitor, que os olhos não veem mas o coração percebe. Gente que se aproxima, apesar da distância, muitas vezes mais do que quem está sempre perto de nós. Simples, indecisos, bem humorados, céticos, reveladores. Espontâneos. Leitores cujo pensamento a rotina de um jornalista raramente permite perceber, salvo pela seção de Cartas à Redação.
Quanto aos laços, eles surgem sorrateiros, armados pela visita e pelas palavras que leitores fiéis deixam a cada nova postagem. São como alegres e ruidosos passageiros de um trem que faz parada em estação esquecida pelo tempo. Riem, conversam, compram e desaparecem em seguida, reembarcados à frente do silêncio e da solidão para os quais nunca há trens, nem horários.
Atrelado a laços de estima tão especiais, que nascem do que deveria ser apenas um exercício de rotina, aqui se desenhou também uma espécie de compromisso realizado pela publicação de “A Idade da Maçã” – livro que reúne alguns dos textos nascidos em Pretextos-elr.
Fica, assim, sempre renovada a gratidão pela acolhida. E junto, o aceno ao trem que parte, na teimosa esperança de que retorne sempre.

terça-feira, 9 de junho de 2015

A tosse da vaca

(Imagem: Neil Beech/Behance/Pinterest - Pin de Carol Kuehnhold)

Sem ter como segurar a língua, nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Que que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo resolveu ser mais direto:
- É, esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente...
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear, com dissimulado interesse, um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos no outro, que de novo se desculpou.
- O senhor me desculpe, já disse. Mas judiar é palavra que remete a “judeu”, não é a melhor maneira de se expressar... Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito, a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento pra prevenir possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo. 

Dito isto, voltou a folhear a revista.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Habilidade

(Imagem: Pinterest, pin de Droosy S)

Macedo saiu apressado. Ia ao banco, pagaria algumas contas, depois...
- Meu bem você nem tomou café direito... – choramingou a mulher, que só teve tempo de anunciar novidade do neto, antes que o marido ganhasse a rua.
- Novidade? Que novidade?
- É o Pipinho quem quer contar...
Macedo soltou um muxoxo, acenou e desapareceu na primeira esquina.
Não percorrera ainda meio quarteirão quando percebeu que alguém o seguia assobiando um sem–fim de agudos, dobrados, rebuscados e desafinados acordes capazes de provocar calafrios. Não bastasse isto, o assobiador calçava chinelos que dialogavam em chlep-chleps insuportáveis.
- Chlep, chlep, chlep, chlep...
De repente o barulho cessou. “Parou no camelô de frutas”, deduziu Macedo. Mas a trégua duraria pouco, recomeçando em seguida. Apesar de mais distante, o assobio se transformara em pipios da melodia do hino rubronegro. Isso pôs em alerta o tricolor Macedo, fazendo-o reduzir o ritmo da caminhada até ser ultrapassado por um sujeito de boné, camisa desabotoada, calção e de chinelos. Uma barriga respeitável abria caminho para o assobiador, que torcia e retorcia os beiços para desenhar um bico adequado ao assobio. Fechava os olhos, erguia as sobrancelhas, e tudo ia terminar em careta assustadora.
- Chlep, chlep, chlep, chlep...
Parado junto ao meio-fio, Macedo deixou que o assobiador o ultrapassasse e virasse a primeira esquina. Por coincidência, iria na mesma direção. O que não queria dizer.... ou queria? E se o destino de ambos fosse o mesmo?
Macedo afinal moveu-se e atravessou a rua. Foi até a banca de jornais, espiou as manchetes. Chegou depois a uma casa lotérica, comprou bilhete, dispensou dois dedos de prosa a um conhecido e partiu para o banco.
Já no caixa eletrônico, Macedo desincumbiu-se da tarefa e voltou à rua. Lembrou-se então do neto e da novidade anunciada por Genu. Decidiu que seria ele, o Vô Cedo, a levar ao Pipinho a surpresa de uma camisa do Fluminense.
Na loja de artigos esportivos, pegou das mãos da vendedora uma pequena camisa com o escudo do tricolor, estendeu os braços e passou a admirá-la com um sorriso. Em seguida mandou embrulhá-la para presente, e já se preparava para fazer o pagamento quando o rubronegro hino veio chegando em pipios toscos, marcados pelo som de chinelos em marcha.
- Chlep-chlep...
De posse de sua compra, Macedo pagou e bateu em retirada antes da chegada do assobiador.
Em casa, custou a se conter enquanto esperava o neto terminar o banho. Assim que a criança apareceu na sala, o avô tomou-a no colo e disse que tinha uma surpresa.
- Eu também tenho, vô! Mas conta a sua primeiro.
- Não, conte a sua... – fingiu o velho.
- Não vale! A sua primeiro...
Macedo então entregou o embrulho ao garoto, que em segundos se desfez do laço de fita e do papel.
- Oba, uma camisa de futebol...
- De futebol não, Felipe: do Fluminense.
O garoto sorriu e disse que não ia usá-la ainda porque não resolvera se torceria pelo time do avô ou pelo Craquecaraca – o time dos colegas da escola.
- Mas você pode torcer pelos dois, ué...
- Então você também pode torcer pelo Flamengo, né? – rebateu a criança.
- Eu sei, eu sei.... – sorriu complacente o avô. – Mudando de assunto, qual é a sua surpresa para o vovô?
O rosto do menino iluminou-se:
- É que eu aprendi a assobiar...
 (Repost - Reeditado)