quinta-feira, 28 de maio de 2015

Sussurros essenciais

(Imagem: Pinterest, pin de Ayandra Vasconcelos)

Em artigo sobre o silêncio, publicado certa ocasião na imprensa, a autora citava a relação entre silêncio e democracia lembrando exemplo na origem dos Estados Unidos. Reunidos na Filadélfia em fins do século 18, os fundadores da República teriam mandado cobrir de terra a rua de pedras para abafar o trote dos cavalos, evitando assim que o ruído perturbasse os trabalhos para redigir a Constituição.
Incompreensível que, a par de tantos avanços positivos na área da saúde, especialmente em relação aos cuidados com o peso corporal e à prevenção de outras doenças, pouca atenção se dê atualmente ao excesso de barulho em país onde o brado não só é retumbante, como está no próprio hino.
Como se sabe, lei aqui entre nós é coisa difícil de pegar. Tão desrespeitada quanto ela, só mesmo o silêncio. Ainda segundo a autora do tal artigo, queixa sobre ruído passou a ser vista com sarcasmo, sendo escapismo ou neurose exigir silêncio. Isto, a partir da urbanização crescente no século passado.
Não há muito tempo uma igreja em São Paulo recebeu a visita de agente público, com notificação para que os administradores do templo pagassem multa em razão do toque dos sinos que chamavam os fiéis às missas. Porém contra o barulho ensurdecedor nas ruas (sobretudo o decorrente dos escapamentos dos carros e das motos, além dos absurdos sistemas de som que transformam qualquer sucata motorizada em um verdadeiro trio elétrico) parece não haver legislação capaz de reprimir uma prática que a má educação individual e pública patrocina. E nem se fale aqui no comportamento das pessoas em locais públicos como restaurantes, salões, teatros e - pasme-se - até nas igrejas, onde a gritaria e o falatório chamam a atenção de ouvidos e comportamentos, digamos, mais civilizados.
Metaforicamente, há gritos necessários como os de protesto contra silêncios de cumplicidade que acobertam ilícitos, a exemplo dos que a sociedade vem tomando conhecimento e com os quais se surpreende sempre mais. Mas os vigorosos decibéis com que vamos nos acostumando, graças à malemolência e ao descaso da autoridade pública em relação à aplicação da lei, certamente abafam sussurros essenciais não só à saúde individual, mas também à da democracia. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sabujos e líderes



O presidente da Casa Legislativa diz basear em orientação técnica da assessoria da Mesa, a decisão de invalidar determinada proposta submetida à votação. Mas o parlamentar que patrocinara a iniciativa não aceita a explicação, e declara equívoco do presidente o de amparar-se no que lhe apontam “esses sabujos”.

Por sua vez outro parlamentar, exaltadíssimo e de dedo em riste, esbraveja contra o presidente da Casa tratando-o por “você” e exigindo que mude sua decisão. Em desarmonia, um coro de vozes grita palavras de ordem, tecendo críticas aos colegas e ampliando o tumulto.

É da natureza democrática – explica-se. E é mesmo. O Parlamento é onde se “parla”, se dialoga, se acordam soluções em benefício da sociedade e do país. Ou se deveria fazê-lo, respeitados os limites da boa educação e da convivência minimamente civilizada. Tudo em atenção aos eleitores, aos próprios pares, e à dignidade das respectivas Casas do Congresso Nacional.

A História registra momentos de escuridão do Parlamento brasileiro – e não apenas relacionados a regimes autoritários. Em 1963 dois senadores – Arnon de Melo, pai do atual senador Fernando Collor, e Silvestre Péricles, ambos de Alagoas – protagonizaram uma rixa que acabou na morte do senador catarinense José Kairala, que tentava ajudar a desarmar Péricles até ser atingido por um disparo feito por Arnon de Melo.

Quatro anos mais tarde na Câmara, os deputados Nelson Carneiro, do Rio de Janeiro, e Estácio Souto Maior, de Pernambuco, pai do piloto Nelson Piquet, trocariam tiros em frente a uma agência bancária existente naquela Casa. Souto Maior seria atingido por um disparo de Carneiro e revidaria com cinco tiros, sem acertar nenhum. Assim como no caso anterior, os protagonistas seriam julgados e absolvidos.

Felizmente não temos tido a repetição de casos semelhantes, mas em algumas ocasiões – e a despeito dos esforços de lideranças para restaurar a boa imagem do parlamento – o nível dos debates tem deixado a desejar também quanto a posturas e reações que em nada dignificam nem o parlamentar, nem a Casa à qual pertence.

Dia desses, um leve toque do deputado que discursava, no ombro do colega a quem se dirigia (e que se posicionava de costas para o orador), quase acabou em sopapos, diante da intervenção de uma parlamentar que se julgou agredida ao sair em defesa do parceiro de bancada.

Repositório da esperança dos eleitores que creem na democracia, o Parlamento acolhe os representantes da vontade popular com a expectativa de que estejam à altura das Casas que os recebem. Porque sem respeito àqueles limites – e, em especial, ao Regimento Interno das duas Casas – não pode haver autoridade sequer para condenar atitudes como a de um manifestante que, nas galerias da Câmara dos Deputados, arriou as calças em protesto contra o que se votava.

Afinal, em pátria que se alardeia educadora, mais que nunca o exemplo deve vir de cima.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Amigos em baixa?


(Imagem: Loui Jover, Pin de romi mehr)

Não pode ser só impressão. A vida parece cada vez mais de cabeça para baixo. Ou de ponta-cabeça. As alegrias deixam rastros cada vez menos visíveis, dificultando-nos seguir-lhes a pista. O amontoado de acontecimentos e informações que desagradam ou entristecem é farto e pontual. Basta ler os jornais. Se a maioria não lê jornal, então será suficiente assistir aos noticiários, andar pelas ruas, conversar com o vizinho ou trocar impressões em família. Notícia ‘boa’, antes quase que só na propaganda oficial. Atualmente, nem isso.
Um velho editor de jornais costumava dizer, a título de consolo a quem se queixasse com ele, que bastaria pensar quantas pessoas não se levantariam a partir daquele dia. Tão radical quanto desnecessário, o raciocínio fica próximo a provérbio muito em uso no passado, segundo o qual o bom cabrito não berra. Na ilusão de se transformarem em 'bons cabritos', quantos jovens não terão engolido o berro e sufocado o pranto da indignação e da revolta diante da injustiça e da desigualdade? E, a partir do silêncio cruelmente imposto, quantos não terão se habituado a cultivar a baixa estima e a indiferença, a covardia e uma espécie de 'adesismo versátil' adaptando-se, sem senso crítico ou opinião própria, à situação do momento?
Queixas e protestos de hoje talvez reflitam não mais que os silêncios de ontem. A Saúde anda péssima, a Educação não fica atrás. A Política é indefinível, os políticos causam aversão. Polícia e Justiça são encaradas com reservas. E o futebol? A programação da TV? O trânsito e o custo de vida? Os impostos? Desalento, só.
Na tentativa de colorir rotina cinzenta, esforça-se para buscar no nada as tintas do que se apresenta como novidade. É então que inverter tudo passa a ser opção para inovar. Há algum tempo, passou-se a decorar ambientes para festas de final de ano com árvores de Natal de cabeça para baixo. Idem com a posição das fotos de cães, em site que se direcionava a admiradores entediados e que, supõe-se, gostariam de escapar da tal rotina, mas não sabiam ainda como manter o Totó com as quatro patas para cima. Já se anunciou a escrita com letras invertidas, e até fotos com as câmeras voltadas exclusivamente para o solo serviram de base a formação de entusiasmado grupo de criativos fotógrafos.
Pode estar passando o momento de se rever juízos de valor. E como muito se exalta, particularmente nas redes sociais, a Amizade (que celebramos anualmente em duas datas diferentes, assinalando nossa proverbial afabilidade), então bem se poderia começar por ela, recolocando-a no justo pedestal que já ocupou. Porque, sem amigos verdadeiros, a solidão se apressa.
Imensa e sem criatividade alguma.
(Repost – Editado)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Vendo além


(Imagem: Pinterest / kanaes.com – Pin de  Karlijn Van Asten)

A determinação de descobridor anota tudo o que Gabriel observa no volume farto e virgem da memória. E o faz com bom humor e graça – esse ser miúdo e de uma sociabilidade universal tão encantadora quanto desconcertantemente verdadeira, ao realçar as marcas da caminhada que levamos conosco.

Duas voltas e meia do planeta Terra em torno do Sol. Apenas isto, e Gabriel já sabe o que é um xilofone – palavra que dirige o olhar do vendedor da loja de brinquedos para o teto. "Xilofone, xilofone..", repete como se folheasse mentalmente um dicionário. Atitude semelhante à da moça da livraria: ao ser indagada qual o best seller disponível, respondeu que “best seller” já havia se esgotado.

Não é só xilofone que Gabriel conhece pelo nome. Sabe-se lá porque, ele também gosta da palavra emergência, e do nada, sem nenhum propósito e quando menos se espera, lança no ar um "tarde demais". Mas em alguns momentos, com a melhor cara do mundo, ri e diz que tudo “é muito divertido”. De volta de um fim de semana no hotel-fazenda, conta que tirou leite da vaca e que ele – e não a vaca – usou um chapéu de peão.

Mal iniciados os primeiros passos de sua peregrinação, Gabriel já põe em uso as fórmulas grisalhas do ‘por favor’, ‘licença’ e ‘obrigado’. Na fase final de abandono do uso da fralda, o pai conhece sua retirada estratégica e em silêncio para um canto qualquer da casa. Pergunta-lhe então, ao pé do ouvido, se quer fazer cocô. “Não, obrigado” – é a resposta.

O azul translúcido do olhar dessa criança com pouco mais de dois anos de idade, diz da inocência e da pureza que o mundo e a maturidade se encarregarão de modificar. Despreconceituoso, dócil, verdadeiro, criativo, alegre, divertido, confiante – encantador. Haverá de pressentir e ver muito além do ônus que a vida lhe imporá pela aquisição da sabedoria – como a todos nós –, de forma a não perder a coragem de encará-la com fé e bom humor, evitando praticar o mal que ainda desconhece.