terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Curiosidade

(Imagem: Pinterest, do álbum de Louise Brookes)

O garoto foi correndo até à mãe, que descascava uma bacia de batatas na cozinha.
- Mãe, tem um rato morto lá na rua...
A mãe apertou os olhos, franziu o nariz e sacudiu os ombros num gesto de nojo:
- Aai, Nandoo, que coisa! Você sabe que mamãe tem horror de rato...
- Mas ele tá morto, mãe, vem ver.
O menino falava e puxava a barra da bermuda da mãe, que resistia.
- Nando, Você já escovou os dentes?
- Já. Ele tá lá...
- Ele quem, meu filho?
- O rato, mãe...
- Já fez xixi, lavou o rosto, arrumou sua mochila para o colégio?
- Já.
- Então vem tomar o seu café, que logo a van passa pra te buscar.
O menino parou de puxar a mãe, mas permaneceu ali, imóvel, enquanto ela continuava a descascar as batatas. Até que o garoto rompeu o silêncio.
- O rato, mãe...
A mulher estremeceu, deixando cair a faca e a batata que tinha nas mãos.
- Aaai, Nandôo, que susto! Quê que Você está fazendo aqui ainda?
- É o rato que tá morto lá na rua...
Vencida pela curiosidade e pela insistência do filho, a mulher chegou à janela. Esfregava no avental mãos que pareciam não secar nunca.
- Cadê, meu filho? Detesto rato...
Com a agilidade de um camundongo, o menino subiu em uma cadeira e apontou para um montículo disforme meio cinza, meio vermelho, bem no meio da rua.
- Ali, ó, mãe! O rato tá esmagado.
- Eca, Nandooo, que horror! Pra quê que Você fica me mostrando essas coisas?
Ao por a criança no chão, a mãe deu-lhe uma palmada de leve e recomendou que fosse tomar o café já-já, que o seu Frederico da van estava chegando.

(Repost - Reeditado)

sábado, 24 de janeiro de 2015

Sem mea-culpa

(Imagem: Google / Pando Daily)

Enquanto aguardava atendimento em uma das quatro (em quinze ou vinte) mesas da operadora de telefonia campeã absoluta de reclamações nos Procon's, vi na tevê que o noticiário dava continuidade à rotina de massacre a que tem se dedicado com empenho a mídia nacional: a questão da (falta de) água, a do fornecimento de energia elétrica intercalado com apagões, a do arrocho nos impostos, a da cloaca pulsante onde os casos de malversação do dinheiro público estão em permanente ebulição, a da violência das ruas...
Amparando-se em uma bengala, um idoso se exaspera no balcão de atendimento da operadora e diz à recepcionista que, enquanto tentava sobreviver num hospital com um tubo de oxigênio enfiado no nariz, seu celular recebia mensagens, graças aos recursos de acesso à internet que ele jamais contratara. E pede, inutilmente, respeito sobretudo aos idosos, vítimas desse e de outros tipos de cruel e impune exploração.
Volto ao monitor de tevê, onde especialistas continuam a dar dicas para economizar água no chuveiro, na hora de fazer a barba e de lavar as vasilhas na cozinha. Então me pergunto se não há algo errado nesse cenário, onde a sobrecarga vai sendo visivelmente posta sobre os ombros da população, no que parece a tentativa de atribuir a ela não apenas ‘a culpa’, mas também o ônus pelos estragos. Tudo emoldurado com traços do mais descarado cinismo.
Dia desses, um especialista no assunto advertia para o fato de que a maior demanda de recursos hídricos, antes do abastecimento às pessoas, acontece para suprir a atividade do setor de mineração, e em seguida o de irrigação. Considere-se também o que só agora tem merecido alguma ênfase nos noticiários: o estado precário de boa parte da rede pública, resultando daí um extraordinário desperdício pela falta de manutenção regular e administrada com competência.
Mesmo que esses argumentos sejam recorrentes, o tom do noticiário e dos silêncios é de severa advertência, com o poder público de dedo em riste para o cidadão, que só recebe afagos em instantes pré-eleitorais. Pergunto-me ainda por que a autoridade que convoca rede nacional para anunciar 'benesses', escapa das câmeras quando se faz necessário assumir o que lhe é desfavorável. (Em meio a tantas dúvidas, dou com artigo publicado em jornal de São Paulo, onde o autor igualmente faz referência aos silêncios oficiais e cita, como exemplo “de franqueza e abertura na hora correta do embate”, o ex-Primeiro-ministro britânico Winston Churchill. “Dissimulado como todos os políticos na lida cotidiana, ele não negou fogo quando preciso”, escreveu Igor Gielow).
O dedo que aponta para o cidadão ficaria melhor se unido aos demais para, com o punho cerrado, bater antes no próprio peito em atitude de mea-culpa. A chamada à sociedade é oportuna sobretudo por seu aspecto didático, mas acaba valendo nada quando não há o proverbial ‘bom exemplo que vem de cima’.
Tudo leva a crer que o pano de fundo de toda essa tragédia seja mesmo a longuíssima entressafra de autênticas lideranças, há muito substituídas pelos produtos do marketing político.
Essa, no entanto, já é uma outra história. 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O nome


(Imagem:
Pinterest, do álbum de Javiera Cabello)


Ah, o danado do arrasta-pé fazendo cócegas nos pesinhos de Marvília... Tirava a pobre coitada do sério a qualquer momento que não estivesse na roça cavucando, colhendo, tratando da criação. A moça era só trabalho, forrobodó e sonhos o dia, a semana, o mês... O ano inteiro.

De tanto reverenciar a dança e os sonhos, ambos, agradecidos, recompensaram-na com Valfredo – o príncipe-boiadeiro e forrozeiro da fazenda Porteira Verde, com quem se encontrava em qualquer baileco de fim de semana. De uma tarde tranquila de domingo ao altar, foi um nadinha. E logo Marvília exultou com a confirmação de que estava grávida do... da... do... Que nome dariam ao bebê?

- Sei não, Márvi. Gosto de Godofredo, que era o nome do meu avô... – arriscou o marido.

- Que é isso, Val? Nome mais feio... Rima com medo.

- Meu nome é Valfredo...

- Mas é diferente, Valzinho...

O tempo foi passando. Marvília acariciava a barriga pelo bebê e, às vezes, pelos desejos incomuns e insatisfeitos. Mas era calçar as sandálias ao levantar-se ainda na madrugada, para calçar junto o arrasta-pé. Cantarolava, ensaiava uns passinhos à beira do fogão, sonhava com Carlinhos de Jesus todo de branco, sorrisão na cara, sambando com ela.

Chegou o dia marcado para uma ultrassonografia. Curiosidade mesmo em saber o sexo da criança, Marvília não tinha. Fosse menino ou menina, era benção do mesmo jeito. Valfredo é que torcia por um futuro vaqueiro, valente e pé-de-valsa como ele.

Na antessala do Dr. Rangel, Marvília aguardava a vez de ser atendida, enquanto via na tela da tevê um mundo irreal, estranho e longínquo – aquele lado da vida de que ela era, no máximo, uma espectadora de rápidas e eventuais espiadas. Não era só desinteresse; era também receio e desconforto em lidar com esquisitices como praia, multidão, moda e governo. Ainda assim, foi inevitável não se espantar e se emocionar com um oceano de gente em não se lembrava onde, todo mundo nas ruas por causa de uns moços do jornal que foram assassinados.

De volta à casa, Marvília deu com o marido escorado na porteira, chapéu na mão e cigarro de palha no canto da boca. 

- E aí, Márvi? É moleque ou moleca?

Ainda chocada com as cenas que vira na tevê, Marvília foi logo dizendo que se sua avó fosse viva, ia antever para já o fim do mundo.

- Nunca vi tanta gente junta por causa de um tal atentado...

Com toda a atenção na barriga da mulher, Valfredo não ouvia nada.

- É moleque ou moleca, Márvi?

Aterrissando na segurança do seu pedacinho de chão, Marvília anunciou:

- É menino home, Valzinho. Vai dançar igual o Carlinhos... Até já escolhi o nome.

- Benza Deus!

- Vai se chamar Jesuis Charli.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

'Midiocridade'

(Imagem: Pinterest, do álbum de Bronwin Porter)

Num dia qualquer de 2008, um grande jornal carioca deu destaque a matéria publicada em sua edição online, anunciando que casais poderiam conhecer o futuro de seus relacionamentos no Dia dos Namorados. Para isso, bastaria que procurassem quiosques montados entre os bairros de Copacabana e Leme, na Zona Sul do Rio, onde uma cigana, uma numeróloga, uma taróloga e um astrólogo estariam à disposição para 'ajudar os apaixonados a esquentar o namoro'.
Ainda à mesma época, outra notícia informava a curiosos e indecisos em relação ao amanhã, sobre a possibilidade de se 'desembrulhar' o futuro de cada um mediante pagamento de apenas 15 euros por vale correio. As revelações chegariam ao interessado por e-mail ou pelo próprio correio.
Transcorridos sete anos desde a disponibilização desses serviços, nada se conhece sobre consulentes e futurólogos daquela aventura. Sem qualquer repercussão de resultados, o anúncio público do futuro disponível no calçadão da Avenida Atlântica não foi além de mais uma 'novidade' com que se bombardeia o homem pós-moderno, alvo constante de vários megatons de informação inútil.
Os tempos são de comunicação farta e ruim, tanto em substância quanto na forma. Exceção feita a rara minoria que se preocupa com a qualidade do que é levado ao público, o que se vê são evidências de uma tragédia avassaladora nesse campo. Apura-se nada, fala-se mal e escreve-se pior ainda. Veículos de comunicação, antes zelosos pelo bom nível na apresentação de seu produto ao leitor (boa parte deles, inclusive, organizando e disponibilizando ao público seus então conceituados 'manuais de redação'), hoje se distanciam desse objetivo com a mesma velocidade com que se supervalorizam, trancando com excesso de cifrões seus sites na internet.
Houve um tempo no jornalismo em que a cobertura policial era a escola do repórter que sonhava em fazer carreira nas redações. As notícias policiais apareciam em quantidade moderada, não apenas porque tinham público leitor específico (prioridade de poucos tabloides sensacionalistas), mas também porque parecia haver maior controle da autoridade em relação à (in)segurança pública.
Tempos imemoráveis! Hoje, a carga dos meios de comunicação sobre o desorientado cidadão é brutal sob todos os aspectos – incluindo o gramatical. Do telejornalismo sensacionalista e sanguinolento então, nem se fale: um chato e inutilíssimo ‘embromation’, tanto pior quanto mais desprezíveis forem os índices de audiência da emissora.
Zygmunt Bauman nos situa na 'era da midiocridade e de fragmentos sonoros, e não de pensamentos', quando a atenção humana possivelmente seja, mesmo, a mais escassa (e disputada) das mercadorias.
Haja quiosques e muito foguetório para entreter uma sociedade aparentemente imobilizada em narcose suicida – tão sedutora às cabeças sempre em busca de razões para restringir a liberdade de expressão.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Eterno enquanto dure

(Imagem, Pinterest, do álbum de DevianArt)

A jovem acomodou-se em uma mesa de canto na lanchonete, pegou o celular e fez uma ligação.

- Saudade...

Começou aí uma conversa à meia voz, entremeada de risinhos. Relembrava momentos 'inesquecíveis', vividos durante um passeio no dia anterior. Até que o clima romântico terminou com um salto na cadeira, seguido de pergunta em tom que denotava surpresa:

- O quê? Eu?

Veio em seguida um sem-número de 'tá louco’, ‘quê-que-é-isso’ e ‘inacreditável’. Foram liberados também alguns ‘é complicado’.

- Quem te disse isso?

Soube que o denunciante fora o futuro sogro.

- Como é que seu pai pode ter certeza de que era eu? Impossível, eu só fui lá na pracinha e comi um cachorro-quente porque eu gosto...

Silêncio e olhos arregalados.

- Imagine... Como as pessoas são falsas e inventam coisas! Agora eu estou com o moral lá embaixo e nem fiz nada...

Não havia sinais de sofrimento, mas de leve indignação. Do outro lado da linha, o namorado insistia em que alguém testemunhara quando a moça, já madrugada alta, passara em frente à sua casa e dera "uma abaixadinha" para não ser vista.

- Abaixadinha? Eu? Nunca vi tanta falsidade! Essa gente cria, inventa porque é invejosa, sei lá...

Decidida a não conceder mais apartes, a injustiçada passou a enfileirar argumentos e testemunhos, lembrando e relembrando promessas antigas. Meteu a mão na bolsa, de onde retirou uma penca de chaves, passando a agitá-las no ar.

-Ué, mas você tem a chave do portão lá de casa, só não tem a da porta... Podia aparecer, tocar a campainha e ver que eu estava lá.

O tom de voz modificara-se, a fisionomia denunciava decisão.

- Quer saber de uma coisa? Vá trabalhar, melhor mesmo a gente dar um tempo. Eu, hein...

Antes que a garçonete lhe estendesse o cardápio, a moça levantou-se e foi saindo, apressada.

Na rua, fez sinal para um táxi e desapareceu no trânsito.

(Repost - Reeditado)

domingo, 4 de janeiro de 2015

O especialista

(Imagem: Pinterest, do álbum de Ricardas Gelzinis

Para dona Cilinha, morar na roça tinha suas desvantagens. Uma delas era a de ter prolongada a viuvez. Bastava pensar nisso para lembrar-se da bobagem que dissera ao padre Arhur, quando o ouviu queixar-se certa vez do calor. Desconhecendo o significado da palavra, afirmara-lhe que ali nos Cocos era assim mesmo: muito quente no climatério.
Agora, vantagem mesmo de morar ali era ter que buscar em Santana a cura que não se conseguia pelos remédios caseiros. E isto dona Cilinha ia fazer na companhia de Rosária, a neta de 13 anos: dariam um pulo até a cidade, onde ela resolveria problema de dor nas pernas e fraqueza de visão.
- Vou no calista – disse à filha. – Tô enxergando tudo embaralhado.
- Né o calista não, mãe. É o oculista.
- Tá, ooculista... Vou no ooculista e depois no médico das pernas.
- Oculista, mãe...
Era ainda cedo quando a velha e a neta desembarcaram na rodoviária de Santana. Mal haviam descido do ônibus, e um sujeito bem apessoado aproximou-se delas. Cumprimentou-as e logo quis saber o motivo de dona Cilinha estar mancando. Era unha encravada?
- Né não, é dor nas pernas. O senhor é médico?
- Sou só um pesquisador... – e o homem fez uma reverência leve com a cabeça.
Se havia coisa que dona Cilinha gostava era de gente humilde, sem nariz em pé. Foi com a cara do sujeito: educado, humilde, pesquisador...
- A senhora, por favor, fique com o meu cartão. Se puder faça visita ao meu laboratório. Posso ter o remédio pra sua cura.
Dona Cilinha (que já ia enfrentar fila no posto de saúde), ficou com o cartão e a impressão de que tirara a sorte grande.
- Uai, seu... seu...
- ...Prudêncio, dona...
- ...Ercília, mas todo mundo me chama de Cilinha.
- Prudêncio Costa, dona Cilinha. Estarei no laboratório à tarde, será um prazer recebê-la.
O pesquisador despediu-se da cliente e fez um afago no queixo da neta.
- Bonitão ele, né Rosária?
- Que é isso, vó? Ele é velho e fica passando a mão no queixo da gente... Gostei não.
Fizeram o que tinham que fazer. No consultório do oftalmologista, dona Cilinha pegou receita para óculos novos. E partiu em direção ao laboratório do especialista em dor nas pernas.
Por uma dessas extraordinárias coincidências, encontrou o homem à saída do prédio do oculista. Esquecera-se de que o informara sobre o compromisso, pedindo-lhe orientação de como chegar ao endereço do médico.
Puxando as mulheres para um canto, o especialista tirou do bolso um vidrinho dizendo que aquilo era a solução para acabar com a dor nas pernas. Só pequena quantidade, que ele tinha dose maior no laboratório. Dona Cilinha passasse lá mais tarde para pegar o restante da dose.
- Esse aqui é só cem.... – o homem disse, os olhos brilhando. A velha ensaiou comentário, mas foi interrompida.  
- Gostei da senhora... Faço o seguinte: a senhora me paga cem agora e passa lá no laboratório, que eu ofereço como cortesia o resto da receita.
Dinheiro na mão, o especialista agradeceu e sumiu.
Avó e neta comeram algo em botequim ali perto. Terminada a refeição, Rosária despejou num copo com água o conteúdo do vidrinho, exatamente como recomendara o doutor Prudêncio. A velha então virou na boca tudo de uma vez, e ainda não dera meia dúzia de passos quando percebeu que a dor nas pernas desaparecera.
- Gente, que remédio!... Vamos lá no doutor Prudêncio agora, pegar o outro vidro.
O endereço ficava no final de uma galeria escura. À entrada havia um carro de polícia e alguns curiosos amontoados na beira da calçada. Dona Cilinha e Rosária abordaram o zelador do prédio.
- Doutor Prudêncio... ele está? – perguntou a velha. O zelador fez cara de riso, e disse que o homem encontrava-se ‘em visita à delegacia’.
- Delegado passou aqui e levou ele, dona. O homem é um estelionatário.
Dona Cilinha sorriu satisfeita. Contou que já ia tomar o ônibus de volta pros Cocos, mas voltaria a Santana daí a uns dias para apanhar o resto do medicamento. O zelador fizesse a gentileza de transmitir esse recado ao doutor Prudêncio.
Já em casa, disse à filha que recomendaria o pesquisador a quem tivesse problema de dor nas pernas.
- Aquilo é que é estelionatário de mãos cheias, viu?

(Repost - Reeditado)