segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Telefone

(Imagem: Pinterest / Andrin Dobler)

Estou voltando para o campo de onde eu vim / deixo mágoas, levo sonhos e a saudade... – Altimar cantarolou quando a porta do elevador se fechou. – Minha mulher falou que isso é nostálgico, mas eu não ligo não. Sabe por que, doutor? Porque saudade e sonho não se separam da gente enquanto a gente vive. Já as mágoas, se a gente quiser, pode deixá-las para trás...
Ele estava certo. Mas, e quanto a voltar para o campo?
- Isso também é verdade... (Pois não, senhora: o laboratório? É no quarto andar... Doutor Vicente, advogado? Oitavo.) – Sobe...
Adiei o diálogo até desembarcar no vigésimo-terceiro. Altimar criara os filhos trabalhando duro como ferroviário. Aposentado, virara ascensorista.
- É como eu dizia, doutor: os filhos estão independentes e moram longe. A mulher quer voltar para a roça, eu também.
Percebi nos olhos do ex-ferroviário a nostalgia que inspiram os trilhos de um trem.
- A vida por aqui anda difícil. Nasci lá no Sagrado, e é para lá que estou voltando. Lugar pobrezinho, distrito de Senhora do Desterro. Ainda tem sossego por lá, e também gente boa e solidária. Gente que tem compaixão da gente – é isso, doutor!
Sem saber o que dizer, levei o assunto para o futebol:
- E o nosso tricolor, Altimar? Será que agora vai?
- Sei não, doutor, nem futebol está prestando mais. A gente cresceu torcendo fosse por time grande ou pequeno. E quando perdia, os adversários faziam piada e tal. E tudo ficava por isso mesmo. Hoje, se perde ou se ganha dá briga e até morte. A seleção faz feio e é um chororô danado, vira um dramalhão... Parece fim de mundo.
Concordei ainda. Altimar ajeitou o boné e, com sorriso meio tímido, pediu licença para voltar ao serviço.
Tomei a direção do escritório, enquanto a voz daquele homem correto e simples seguia comigo, evocando a compaixão do povo de Sagrado. A miséria humana que nos une, queiramos ou não, também pode impedir que sejamos fraternos na mútua e necessária compaixão. Ocorreram-me então versos do poeta persa: Eu não me canso de ti / não se canse de ter compaixão de mim!
Meti a chave na porta, iniciando assim mais um dia de trabalho. No momento exato em que o telefone começava a tocar.

(Repost - Editado)

3 comentários:

soninha cidreira disse...

Costumo pensar que nós só conseguimos arranhar a superfície da vida e isto porque o acelerador está sempre lá embaixo, no limite máximo. A fuga da simplicidade nos impede de mergulharmos na sua essência e nela enxergar o seu verdadeiro propósito.É...é isso aí!

Célia Rangel disse...

Mediamos nossa mente entre o "Sagrado e o Profano"... Mergulhamos no ter e no poder. Esquecemos nossas raízes. Como é bom envolvermo-nos na simplicidade, na sabedoria de quem tem experiência em "vida"!
Abraço.

manuela barroso disse...

Voltar às origens com a qualidade de vida que a simplicidade nos proporciona. Cimento, pessoas como números, fumo em vez de neblina.
Depois o aconchego da fraternidade e proximidade.
A escolha é incontornável.
Bj.