terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Natalino Noel

(Imagem: Pinterest / Cherylann)

Agitando um sininho, Papai Noel transpirava horrores sob cruel figurino preenchido com a ajuda de almofadas. A longa barba postiça espetava, provocava coceiras e tinha cheiro de material sintético. Na cabeça dançavam lembranças e no coração, um tanto de tristeza. No bolso, necessidades.
O dono da loja fiscalizava a curta distância. De vez em quando cobrava do pobre Natalino Noel o impossível: um ho-ho-ho convincente e que ajudasse a esvaziar as prateleiras. Apesar do nome verdadeiro pra lá de sugestivo, além disso, de ter nascido num 25 de Dezembro, o personagem era jovem e magro.
Difícil celebrar com alegria aquele Natal de Cristo e dele próprio, Natalino Noel. Recém-casado, tivera um desentendimento com Marília (não a de Dirceu, a quem o poeta descrevera como uma cópia de Cupido e com quem tinha em comum apenas a flecha de uma paixão avassaladora que lhe atingira o peito). Aborrecida por uma bobagem qualquer, Marília de Natalino correra para o colo da mãe, deixando sozinho o marido apaixonado. Há duas semanas o casal não se falava – a não ser ele com ela para pedir que voltasse, e ela com ele para dizer ‘jamais’.
O calvário de Natalino seguia ao som de Jingle Bells, até que surgiu na calçada uma montanha de pacotes e sacolas que parou, voltou-se e gritou um “Lucaaas! Anda menino, que eu vou te deixar pra trás”. Depois retomou a caminhada, seguida por um quase nada de gente que carregava nas mãos um saco de pipocas, deixando boa parte delas pelo chão. Ao ver o Papai Noel, Lucas desviou-se do caminho atrás da mãe.
Natalino fez que não viu a criança. Olhando para lugar nenhum, agitava o sininho enquanto refletia, ingenuamente, no que teria feito aquele pirralho interessar-se por um Papai Noel sem graça, que fazia barulho em frente a uma loja de ferragens. Descontos de Natal para um chuveiro elétrico, fios e cabos, pregos ou ferramentas? Impossível.
O cidadão que parou diante da vitrine foi o pretexto de Natalino para, aproximando-se dele, induzir a criança a desistir da observação.
- Ho-ho-ho! – dirigiu-se Papai Noel ao desconfiado candidato a freguês.
Demonstrando tédio, o homem reagiu batendo em retirada. Foi aí que Natalino percebeu um leve puxão na perna da calça.
- Cadê os presentes que você dá?
- Eu não dou presentes, eu faço propaganda.
- Faz o quê?
- Eu vendo chuveiro, lâmpada, fio, ferramenta... Essas coisas – respondeu Natalino voltando-se para o interior da loja. Mas outra vez a criança puxou-lhe a perna da calça.
- Eu vou dar um presente pra você, viu? – e o menino esticou o braço, segurando uma pipoca na ponta dos dedos.
A oferta pegou Natalino Noel de surpresa. Sobretudo porque acabava de aparecer na calçada, esbaforida, a montanha de pacotes.
- Lucas! Ah, menino... Você me deixa doida! – queixou-se a mãe, que em seguida saiu puxando a criança pela mão.
Natalino Noel congelou o sorriso que ensaiava ao ver atravessar a rua, vindo em sua direção, ninguém menos que Marília. A moça o abraçou, segredando-lhe ao ouvido que ele ia ser papai.
- E, se for menino, quero que se chame Lucas – completou ela, pendurando-se no pescoço do marido em longo e emocionado beijo.
(Repost)

4 comentários:

Célia Rangel disse...

E, assim o "Natalino" ganhou seu presente "divino"... Renascem as esperanças em uma nova vida!
Abraço.

soninha cidreira disse...

Dizem que anjos não existem, mas que existe...existem sim!!

Almir Albuquerque disse...

Como seria bom se a vida nos desse um pouco mais dessas reviravoltas inesperadas... Na vida real provavelmente Marília teria ido embora pra sempre, seu filho seria de outro e o pobre Natalino iria passar muitos e muitos outros natais na amargura...
Mas é pra isso que existe a arte, para nos dar um pouco de esperança.
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

Ricardo Fabião disse...

Talvez ele passe a acreditar em Papai Noel e em presentes de natal...
Muito bom, Eduardo.
Abraço.