terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Bala de uva

(Imagem: Pinterest / Kimberly McCarty)


As circunstâncias puseram diante de Gabriel, com apenas três anos de idade, um Papai Noel sobrevivente da onda de desemprego que afastou das ruas e das lojas uma razoável quantidade de 'bons velhinhos'.

Precedida de necessária troca de acenos à distância, a aproximação rendeu à criança uma bala de uva, firmemente retida nas mãozinhas. Além disso, nenhum pedido com ênfase em meio a murmúrios quase inaudíveis, mas a eloquência de um olhar que perscrutava cada ruga do rosto e cada detalhe dos óculos, do gorro e da barba de um Papai Noel que fazia perguntas demais.

Gabriel carregou a bala de uva como quem carrega um tesouro inestimável. Longe de degustá-la, como era de se esperar, foi dormir com ela entre as mãos. No dia seguinte guardou-a cuidadosamente, junto com outras delícias, em seu baú no formato de uma bola de futebol.

Pode ter sido aquele o primeiro tesouro eleito por uma criança para quem a vida é doce como uma bala de uva. Sobretudo quando ela vem das mãos mágicas de um personagem que é pai de todo mundo.

Na Inglaterra, com o dobro da idade de Gabriel, um cidadão registrou seus pedidos em carta a Papai Noel em pleno tempo de guerra: David Haylock queria uma caixa de giz, soldadinhos de chumbo e uma gravata. Hoje, aos 78 anos, a então criança de seis recebeu das mãos dos pedreiros que reformavam a casa em que ele morara, não só a carta encontrada na chaminé, mas também os presentes com que sonhara.

Costumam ser simples assim, os sonhos que a pureza acalenta. Amadurecidos pelo conhecimento e experiência, deixam para trás, no correr da vida, a doçura de uma bala de uva, antes de se realizarem na plenitude do possível.

É este, afinal, o desejo do autor de Pretextos-elr aos seus leitores no novo ano que começa.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Obrigada, Eduardo, pelo doce momento de uma bala sabor de uva! Vejo estar ai o segredo da felicidade. Guardar esses momentos, em um potinho de sonhos, até que um dia se concretizem! Ah! A doçura de ser criança! Realmente, não podemos deixar que a nossa criança interior morra.
Abraços esperançosos de um "Feliz 2016"

Roseli Pedroso disse...

Belo e comovente texto Eduardo! Há alguns anos passei por uma crise existencial que me fez resgatar a criança que fui um dia e que simplesmente sufoquei com tantas responsabilidades da vida adulta. Foi minha salvação. Hoje tenho ela caminhando lado a lado comigo fazendo meu dia a dia mais colorido e feliz. E falando em felicidade, desejo a você e todos que por aqui passam, um 2016 repleto de realizações, escritos, saúde e muita paz no coração. O resto a gente conquista.
Abraço,