quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que falta

(Imagem: Pinterest / Damien Byrne)

Há duas décadas quando, em relação ao que se vê hoje o mundo era praticamente outro, uma mulher morreu na porta de um hospital no Rio enquanto aguardava atendimento sob uma placa com a palavra "Emergência". Cardíaca, a comerciária Neusa Ferreira morreu na calçada, um dia depois de o pedreiro aposentado Felipe Ferreira da Silva também ir a óbito em sua própria casa. Ele ficara cinco dias internado no mesmo hospital com derrame cerebral e infecção generalizada, e fora atendido apenas por enfermeiras que lhe ministravam sedativos e cuidavam de sua alimentação. Em ambos os casos, a justificativa para a falta de atendimento especializado era uma greve de médicos.
À época, ambos os casos ganharam as páginas dos jornais e espaço nos noticiários da tevê. A administração do hospital, os sindicatos das categorias profissionais envolvidas e as autoridades estaduais trocaram acusações, apresentaram queixas, reivindicaram e prometeram providências para que novas tragédias semelhantes não voltassem a acontecer. Repetindo: isto, há 20 anos.
No espaço destas duas últimas décadas, quantos casos semelhantes ocorreram e continuam a ocorrer, assim como os discursos, as declarações, os inquéritos e as promessas? Na semana passada, uma enfermeira morreu depois de procurar atendimento na instituição em que trabalhava há sete anos – um hospital também no Rio, onde não lhe fora prestado atendimento adequado diante do que parece ter sido um diagnóstico equivocado de seu verdadeiro estado de saúde.
Em 1996, a fatalidade que vitimou a comerciária carioca indignou também um médico da organização “Médicos Sem Fronteiras”, que na época extravasou sua revolta em artigo publicado na imprensa. “O que matou aquela mulher na porta do hospital foi o egoísmo, e não o salário baixo. (...)  Foi o desastre da ética humana entre os médicos, que hoje passa mais pelo campo mercantilista de relacionamento com os planos de saúde antes de passar pela vida humana”, escreveu então o autor do artigo.
Mesmo não cabendo generalizações quanto a desvios de comportamento em qualquer situação ou categoria profissional, a leitura coincide com a opinião popular sobretudo no Brasil, onde a saúde pública tornou-se algo indescritível. E quem paga plano de saúde sabe também que paga caro por um atendimento que se degrada a cada dia.
Mais que o egoísmo e o desastre da ética humana, falta-nos um pouco de compaixão por nós mesmos e pelo sofrimento em relação à dor alheia.

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Retiro do seu 'texto-reportagem', do que veridicamente acontece diariamente, a palavra MERCANTILISMO - a qual colocou em último plano o juramento que médicos fazem ao concluírem a faculdade de Medicina! Saudade do "médico da família" - um clínico geral, capacitado que a todos atendia, encaminhava e acompanhava o tratamento e a saúde do seu paciente. Hoje, mesmo com plano de saúde, fazemos uma via sacra entre consultórios e laboratórios que, mais 'perdemos' tempo no deslocamento no trânsito, que na consulta! Quanto ao atendimento público, os 'SUS' é catastrófico! Falta tudo: misericórdia e compaixão, muito bem pontuados por você, Eduardo.
Abraço.

Almir Albuquerque disse...

Esse é um assunto bem delicado, pois extravasa os limites da área médica para alcançar questões sociais, de classe, e econômicos.
Primeiramente, os médicos brasileiros, de modo geral, pertencem a uma classe social já insensível aos problemas daqueles que o sociólogo Jessé Souza classificou provocativamente como "ralé". E com o passar dos anos, por uma série de fatores, os usuários dos serviços públicos passaram a ser, em sua esmagadora maioria, membros dessa casta de pobreza.
O segundo fator é que o desinvestimento do setor público na área da Saúde atende a interesses de empresas privadas que atuam no setor. Se todos tivessem um SUS de qualidade, quem é que recorreria a planos de saúde privados?
Esses são dois fatores, que, entre outros, contribuem para termos praticamente todos os dias cenas indignantes e lamentáveis como essas que trouxe no post.
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

soninha cidreira disse...

Não penso que os médicos brasileiros, de modo geral, pertençam a uma classe social já insensível aos problemas e sim que a insensibilidade ante a dor , o sofrimento e a necessidade do outro independe de classe social.
O ser insensível é assim porque cultivou o seu lado materialista em detrimento da sua espiritualidade e a sua visão imediatista de TER sempre e cada vez mais assim o transformou numa máquina horrorosa,insensível, quase robotizada, de ganhar dinheiro.
Não culpo os médicos de um modo geral, alguns são mesmo insensíveis, indiferentes, causadores de muitas tragédias, mas profissionais assim nós encontramos em outras áreas: os professores, advogados, dentistas, engenheiros, enfermeiros etc.Quem sabe quando os nossos serviços de saúde forem gerenciados pela competência e não pela indicação tais problemas sejam minimizados?
Culpar apenas o médico é não enxergar a amplitude do problema!!
Muita paz!!