terça-feira, 17 de novembro de 2015

Acenos

(Imagem: Pinterest / Marina Coric)

- Deve haver alguma explicação, ainda que não clara para mim agora. Mas está tudo bem.
A frase foi dita por Ferrah Leni Fawcett de nascimento – Farrah para a mãe, que logo trocou o e pelo a por considerar a mudança sonoramente adequada ao nome da filha. Atriz de talento e beleza, enfrentou o câncer com coragem, manifestou-se incapaz de alcançar uma explicação razoável para a doença e sugeriu, com um “ainda” e um “agora”, que tudo para ela ficaria mais claro no futuro. E amarrou sua esperança com um it’s all right.
Católica por formação, Farrah Fawcett teve um sacerdote ao lado de sua cama antes de morrer, recebeu a Unção dos Enfermos, aceitou o pedido de casamento de seu companheiro Ryan O’Neal, quando já a gravidade de sua doença não deixava esperanças de vida, e reclamou um pouco de privacidade. Além disso, tomou a iniciativa de trazer a público seu estado, gravando algo sobre seu sofrimento em um vídeo de aproximadamente duas horas de duração.
Exemplos que deixam eco. Como o de outra atriz, Audrey Hepburn, falecida em 1993 aos 64 anos. Filha de uma baronesa holandesa e de um banqueiro inglês, Audrey nasceu em 1929 e teve infância difícil. Premiadíssima no teatro, cinema, música e televisão, também foi vítima do câncer, e antes de morrer, deu o último passeio, ao lado de seu companheiro e também ator, Roberto Wolders, pelos jardins de seu refúgio em Tolochenaz, na Suíça. Na ocasião, daria a ele instruções de como cuidar de cada planta.
Embaixatriz da UNICEF, Audrey Hepburn percorreu vários países para prestar apoio às ações em benefício dos mais pobres, dos que nunca ganham prêmios e passam pela vida tão anônimos quanto nela entraram. Foi assim que andou por Macau, Japão, Irlanda, Etiópia, Turquia, Bangladesh, Vietnã, Somália...
Corajosa gente essa, que apesar de tudo consegue despedir-se deixando-nos gestos e olhares de uma quase incompreensível esperança humana. Sem muito esforço, talvez pudéssemos entrever, em acenos definitivos como esses, um sorriso de terna compreensão para conosco – peregrinos que seguimos adiante sem tantas vezes nos darmos conta de nossa miséria.
(Repost)

4 comentários:

Célia Rangel disse...

E, peregrinamos em um mundo onde o desamor, o descrédito do humano pelo humano torna-nos cada vez mais insensíveis à nossa mendicância de vida pela vida. Nossas misérias sumiram de nossos acenos "hipócritas" de uma superioridade vã.
Abraço.

Almir Albuquerque disse...

Taí uma doença terrível, impiedosa e lastimável, que leva não só pessoas querida da arte como também parentes próximos a nós. Por mais que avance a medicina, o câncer ainda resiste, solene, tratável em alguns casos, mas incurável anda em sua grande maioria.
Quem sabe um dia nos livramos dele de uma vez, se a indústria dos remédios permitirem...
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

Claudia Almeida disse...

Existe uma força em cada um de nós, mas a industria farmaceutica tem a obrigação de avançar nas pesquisas e levar ao nosso conhecimento a cura, ela está ai...paz

soninha cidreira disse...

O câncer tornou-se o "dragão" dentro do CID, mas o que dizer do Mal de Alzheimer? Com certeza estas fortes e resignadas criaturas não teriam tido o prazer do breve aceno caso sofressem deste terrível mal que "anula" o ser humano transformando-o numa caricatura de si mesmo numa vida vegetativa sem ligação com máquinas mas com a sua história de vida bem ali, mais presente do que nunca; e dolorida para todos...sem acenos!!
Muita paz!