terça-feira, 3 de novembro de 2015

A paz pelas sapatilhas

(Imagem: Pinterest / Pin de amelipomidorkina)


I Due Rivali. Este era o título do primeiro espetáculo de balé apresentado no Brasil, no então Teatro Régio (antiga Casa de Ópera Manoel Luís), no Rio de Janeiro. O mês era Dezembro e o ano, o de 1811. Junto com o espetáculo, coreografado pelo bailarino e coreógrafo francês Joseph Antoine Louis Lacombe, seria apresentada também a ópera L'oro non compra amore, composta por Marcos Antônio da Fonseca Portugal em homenagem ao contrato de casamento de D. Pedro com a arquiduquesa D. Leopoldina. Lacombe acabara de chegar ao Brasil para atender exclusivamente a corte, e se tornaria o primeiro professor particular de dança.
Dois anos mais tarde o mesmo Lacombe dirigiria – desta vez no Real Teatro São João – a pioneira apresentação do balé clássico no país. A dança se desenvolveria por aqui apenas um século depois, já no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a partir de apresentações das companhias russas Diaghilev e Pavlova. A escola do teatro só surgiria ali em 1927.
Difícil não associar sofrimento, dores, dedicação, disciplina, sacrifício e dificuldades, a palavras como apaixonante, magia, encantamento, beleza, emoção e sonho, quando o tema é o balé. Mesmo em tempos de frágil criatividade e valores estéticos discutíveis (ou até em decorrência dessa realidade), o balé segue erguendo um público para aplaudi-lo cada vez com mais entusiasmo.
Clássico ou contemporâneo, o balé talvez seja, dos movimentos corporais, o que mais nos aproxime de um autêntico vôo em busca da liberdade. Ao entrevistar o fundador e coreógrafo do St. Petersburg Ballet Theatre, Boris Eifman, Ana Botafogo disse que bailarinos usam movimentos para interpretar sentimentos e idéias. E acrescentou acreditar que todos devem ter a técnica clássica. “Também acho”, respondeu Eifman. “Se você observa um bailarino que não tem a técnica clássica, ele é um diletante. O balé é a linguagem que pode exprimir idéias e sentimentos importantes, pode trazer uma paz especial” – completou o coreógrafo.
Paz especial. Maurice Bèjart – a quem o balé também deve o sucesso de que desfruta hoje – já o definira como uma janela aberta para o céu. Paz celestial ou não, o balé continua atraindo a dedicação de alunos e professores. E o aplauso de platéias emocionadas.
Um indicador da década passada apontava para algo em torno de 220 escolas de balé no Brasil. Hoje esse número está certamente bastante ultrapassado. “A dança tem se tornado mais presente em termos de visibilidade social” – afirmou certa ocasião o então diretor do Nederlands Dans Theatre, Jiri Kylian. Para ele, só era ‘imperdoável’ o fato de algumas companhias se dedicarem apenas a reproduzir o repertório já existente.
- Nós somos os responsáveis pela história do futuro. Não tivesse existido a associação Petipa/Tchaikovski, que aceitou um risco enorme para produzir o que produziu, não teríamos a história da qual tanto nos orgulhamos hoje – arremataria Kylian.
Um provérbio define a dança como a mãe de todas as linguagens. Diante do desgaste da palavra (o homem inarticulado age, segundo Brodsky), pode caber à dança a nobre missão de desarmar os espíritos, favorecendo a que se alcance a paz de que falava Boris Eifman.

(Repost)

6 comentários:

Lúcia disse...

Belíssimo artigo. Vou compartilhar com uma sobrinha neta, que elegeu o balé a sua arte, o seu supremo amor, na vida!
Um abraço!

Célia Rangel disse...

Total cultura esse seu artigo sobre a dança, e suas consequências em nosso espírito. Vi há pouco um balé de deficientes visuais que, através do ritmo da música, dançam e nos encantam com a possibilidade do quanto somos capazes! Falta "arte" no mundo para amenizar os obstáculos da vida. Arte é expressão de sentimentos. A dança se enquadra perfeitamente sendo clássica ou popular.
Abraço.

soninha cidreira disse...

Sim, até porque os surdos também dançam,e como explicar senão através da exteriorização da paz por eles sentida? O simples trepidar sonoro sob seus pés, creio eu, não seria suficiente para tal. Perfeito!

Doroni Hilgenberg disse...

Muito bom o texto. Qualquer que seja a nossa arte, para ser perfeita deve se reproduzir atravez da sensibilidade. Do contrario, sempre faltara algo.

Almir Albuquerque disse...

Quem é que não sente falta dessa paz que só uma cultura elevada pode proporcionar?
Música clássica, balé, coro, orquestras, tudo isso faz parte de um patrimônio humano que não pode jamais ser relegado em nome de uma indústria de cultura de massas que padroniza aquilo que hoje entendemos por "arte". Aqueles que ainda mantêm o gosto pela tradição musical herdada dos modernos sabe que esse tipo de apresentação eleva os espíritos e deveria estar sempre presente no nosso cotidiano.
E não se trata de hierarquizar as culturas entre boas e más, e sim em compreender que temos um legado cultural, universal, que está acima de modismos passageiros.
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

Unknown disse...

Paz especial. Minha paz...