domingo, 25 de outubro de 2015

Votos e devotos

(Imagem: ROSSANA761)

O argentino Jorge Mario Bergoglio chega ao noticiário trazendo com ele os pobres. Queridinho da mídia, o Papa Francisco encanta pela figura carismática, mas o foco que projeta sobre os desfavorecidos incomoda.
Pobre é massa, e entre nós só têm comovido governantes e líderes políticos enquanto capazes de chegar à urna eleitoral. Não será, portanto, necessário lembrar-lhes a existência, pois o oportunismo, muito mais do que as urgências, não permitirá que sejam esquecidos.
O tema, claro, é e será sempre recorrente. Estão aí os aglomerados sub-humanos dependurados nos morros ou à beira dos rios, de onde as enchentes carregam vidas e carnês com prestações a perder de vista. De outro lado, observa-se também o vigoroso empenho na construção dos tais estádios de futebol, vilas olímpicas e mais obras que a vontade política empurra ladeira acima com fôlego de atleta.
De escolas públicas em ruínas e professores mal remunerados nem se fale. Idem com a saúde, o transporte, a segurança... Em todos esses setores, o sempre desrespeitado e desconsiderado credor é antes de tudo e de todos o pobre – a vítima que o assistencialismo oportunista não esquece.
Dá-se o pão, o circo e um saquinho de pipocas, enquanto se remexe os bolsos da platéia e se trava, nos bastidores, uma luta encarniçada pelo poder que essa mesma platéia será obrigada a confirmar pelo voto. E os pobres? Ora, os pobres...
O papa foi buscar em Francisco – o outro, o de Assis – oportuno exemplo que o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, franciscano, reforçou recomendando ao Sumo Pontífice que não se esquecesse dos que a sociedade historicamente marginaliza. O santo entregou-se pelos pequenos, mas curiosamente é lembrado hoje muito mais pelo cuidado com os animais. Faz sentido afinal, num tempo em que parece ser mais ‘politicamente correto’ adotar  e assistir cachorros do que pessoas.
Aprisionados a redes cada vez menos sociais, vamos assim aplaudindo delirantemente um espetáculo no qual os protagonistas somos nós mesmos, embalados por nossos pequenos e pobres sonhos. Devotos de Francisco, o santo de Assis, seguimos ardorosos defensores dos animais que ele via irmãos – seres que glorificam, por sua própria existência, o Criador e sua obra.
Quanto aos pobres de Cláudio, de Jorge e de Francisco, sua infindável paciência, ao que tudo indica, continuará fazendo deles um celeiro de votos. Mas, certamente, os preferidos de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.
Amém.
(Repost – Postado originalmente em Pretextos-elr em 28/03/2013)

3 comentários:

José Pinto Cardoso disse...

Amém

Almir Albuquerque disse...

Desconfio sempre de quem quer ajudar de cima pra baixo sem mexer nas estruturas, ou seja, apenas deseja aplicar remédios paliativos que não curam a doença, só prolongam a agonia.
Um papa que se diz pelos pobres precisa atacar claramente o sistema que os produz, e não apelar para medidas que tem cara de caridade.
Caridade é uma dessas atitudes de cima pra baixo que contribui para o pobre permanecer no seu devido lugar, com menos sofrimento. Além de que quem faz caridade faz mais pra si do que pelo outro.
Então, não confio em instituições como a Igreja Católica nem em seu representante quando querem falar de pobreza, quando se beneficiam diretamente dela.
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

soninha cidreira disse...

Para mim, cuidar dos animais não é algo politicamente correto e sim uma tarefa divinamente correta, afinal de contas eles carregam em si o princípio inteligente embrionário em processo evolutivo, tanto quanto nós.
A única diferença é que já atingimos o patamar racional,o que aliás, me desperta uma certa dúvida frente ao que tenho assistido entre os humanos.
Animais são da nossa responsabilidade sim, afinal de contas todos os seres estão interligados nesta fantástica cadeia evolutiva.
Amar e cuidar, sim, sem fanatismos, racionalmente e amorosamente, sabendo-se o porquê de...
Paz!