domingo, 18 de outubro de 2015

Voo solitário

(Imagem: Pinterest / David Tipling)

Dou com uma bela foto na internet. No alto de uma colina e em meio a uma vastidão de solo coberto de neve, um andarilho segue em direção ao horizonte. À sua frente o chão é imaculado, contrapondo-se à trilha que o acompanha – funda, escura, denunciando o trajeto percorrido. No céu sem nuvens, um sol majestoso brilha iluminando tudo.
A cena sugere uma solidão como a que nos ameaça num mundo globalizado, informatizado e que cultua o individualismo. Inquietante e amarga, dela tentamos desviar a atenção, em cacoete tão perceptível quanto inútil. Como o que nos descreveu o escritor francês Jean-Dominique Bauby, em O Escafandro e a Borboleta.
Vítima de acidente vascular cerebral que o imobilizou (exceto a pálpebra esquerda, usada para “ditar” o livro), Bauby era conduzido todas as manhãs à sala de fisioterapia do hospital. Amarrado a uma espécie de maca, os enfermeiros o içavam por cordas, mantendo-o por algum tempo no que ele definiu “uma hierática posição de sentido”. Tão logo percebiam-se alvo de seu único olho não comprometido, os doentes que ali se exercitavam viravam a cabeça, no que parecia ao escritor “uma necessidade urgente de contemplar o detector de incêndio preso ao teto”.
Tangenciar ou bater estupidamente no que, fora de controle, nos constrange e incomoda, é recurso da fragilidade humana. Assim reagimos até mesmo a uma desconcertante e contundente realidade, que medra onde antes haviam valores hoje devastados. Na esteira das novas tendências – originárias de cabeças cuja influência sobre a mídia é inquestionável – seguimos determinados a encontrar uma felicidade que muda de endereço e de forma a cada véspera de verão. Até que nos damos conta de que o solo se fragmenta sob nossos pés como o de um iceberg em degelo. Pingüins solitários, navegamos cada um sobre o seu próprio pedaço de chão, em busca de um horizonte que se afasta na medida em que avançamos.
Brodsky escreveu que, se ainda estiver manejando uma caneta, um homem idoso pode escolher entre escrever suas memórias ou manter um diário. Duas formas de conviver elegantemente com a solidão.
Acaso nos tivesse sido dada a capacidade de voar, possivelmente imitássemos o albatroz, de vôos tão suaves quanto longos. Silêncio, segurança e perfeito controle nas manobras, com gasto mínimo de energia, são predominantes no deslocamento dessa criatura que praticamente só aterrissa na fase de procriação, chegando a percorrer, em vôo, distâncias superiores a 1,5 mil quilômetros.
Seguimos no entanto tecendo teimosamente esperanças frágeis como as asas da fantasia, enquanto se debate em nós a ave de uma solidão bem nutrida nestes tempos de pobreza globalizada.
(Repost)

4 comentários:

Célia Rangel disse...

Um "diário de bordo" em um voo solitário, em tempos "nudes", soa como estratégia para uma vida livre. Haja "asas" para decolarmos das mesmices que em nada nos acrescentam!
Abraço

Almir Albuquerque disse...

Pra mim, esta é a descrição perfeita do mal-estar da pós-modernidade, essa construção teórica que falha em suprir o homem atual de uma razão de viver que não seja com foco na superficialidade.
Difícil esse mundo em que o consumo é o que dita o status de cada indivíduo, e não mais o quanto ele pode contribuir com seus talentos para o bem geral.
Se eu pudesse eu voava era pra bem longe....
Grande abraço,
Almir Albuquerque
Panorâmica Social

soninha cidreira disse...

A solidão deixa de ser terrível, gélida,horrorosa, capaz de desestruturar o nosso psicológico quando passamos a enxergá-la como uma leal companheira que nos incita ao mergulho na nossa mais profunda intimidade a fim de nos encontrarmos com os nossos temidos demônios e conhecê-los face a face.

Lúcia disse...

A solidão em um mundo à cada dia mais complexo,é de total incoerência, diria até inconcebível...mas existe em escalada galopante, ao indivíduo desprovido de imaginação, criatividade. Ler e escrever podem perfeitamente preenchem o vazio do "homem só"!