quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dançando com a geladeira

(Imagem: Pinterest / Alexandra Bodnaruc)

Uma Luana que não conheço em pessoa nasceu com este blog há seis anos. Chegou lá no Planalto Central, sinalizando um V com dois dedinhos como se prenunciasse uma vitória. Como acontece com quase todas as crianças – e pelo que pude perceber pela janela virtual – foi recebida com o carinho e a alegria que marcam as chegadas precedidas de muito desejo e expectativa. Talvez seja esta é uma forma sutil que a felicidade tenha de nos fazer um aceno.
Bem distante da sede do Poder, dona Matilde sonha com o dia em que a felicidade também lhe sorria, livrando-a da inseparável enxaqueca. Depois de testar e reunir numa pasta as anotações de todas as receitas para ser feliz sem dor de cabeça, dona Matilde agarrou-se à mais bizarra sugestão que lhe deram: não podendo amarrar a felicidade junto ao peito, amarrou na testa uma folha de laranjeira. E para não se submeter a meio grau de temperatura inferior à do ambiente de maneira súbita (exigência complementar ao tratamento), amarrou também a geladeira, envolvendo-a numa corda.
De volta à Luana de Brasília, sua orgulhosa avó assegura que ela “está uma beleza, espirituosa, esperta e ativa”. Há de ter defeitos também mas, acrescenta Donatê, “ainda não é necessário dar-lhes destaque”. De resto, Luana escreve o nome e desenha as pessoinhas dela, todas exibindo sempre “um baita sorriso no rosto e olhos vivos”. Enquanto longe dali, dona Matilde traz sua geladeira sob um nó górdio, Luana, que tem se mostrado bailarina em potencial com muita graça, vê na geladeira de sua casa um partner. É divertido imaginá-la rodopiando e fazendo reverências a um público fictício, depois do impossível pas de deux com um sisudo refrigerador.
Os sonhos e sorrisos de Luana deveriam ser também os nossos, mas andamos em desalento e céticos com o que vemos e prevemos. Talvez muito de nossas dores de cabeça venha exatamente daí, da falta de sonhos onde as pessoas tragam no rosto um baita sorriso, além de olhos muito vivos e alegres. Como os personagens de Luana, relativamente seguros num mundo onde os monstros ainda não conseguem arrombar as portas para entrar. É ali que se dança e se rodopia alegremente com a geladeira, com o boneco ou com o urso de pelúcia.
Em tempos de preciosa e rara esperança, uma Luana espirituosa, esperta e ativa continua a ser um aceno urgente e necessário. Sinal de paz e de cálido aconchego para corações tão acossados pelo inverno rigoroso e persistente do nosso tempo.

(Repost - Editado)

4 comentários:

Célia Rangel disse...

Lendo sua crônica lembrei-me do chavão: "dançar conforme a música"... Mas, está difícil acertarmos o ritmo desse 'baladão' a que fomos submetidos, por dívidas e dúvidas alheias do financeiro e do poder. Já que é Semana da Criança e do Professor, que tal brincarmos de "Escravos de Jó"... Perfeito, não acha?
Abraço.

Doroni Hilgenberg disse...

Concordo, a geladeira é um peso excessivo, o recurso é sermos uma Luana cheia de vida e energia para enfrentar o que vier pela frente e com os recursos das brincadeiras para se livrar do estresse. Escravoa de Jo vem a calhar! Kkkk

soninha cidreira disse...

Temos uma Luise na nossa família, uma delícia a vida se torna na sua presença...maravilha!!

Pedra do Sertão disse...

E cá com meus botões e amigos blogueiros, lhe faço uma provocação:e, no final disso tudo, quem vai lavar a louça?

A resposta você encontra no Pedra do Sertão...tem a ver com sua argumentação também...

Abraço do Pedra e não deixe de comentar lá também

www.pedradosertao.blogspot.com.br