sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Corações e certezas

(Imagem: Pinterest, pin de Chatta Ghost)

Tenho, entre sites favoritos, os que me trazem novidades a respeito de progressos e descobertas da Ciência. É útil saber um pouco sobre onde nos tem levado nosso tatear histórico – na verdade, uma apalpação com jeito de sabedoria impossível de ser ultrapassada. Houve tempo em que se imaginava, por exemplo, que a taxa de expansão do universo, conhecida desde o início do século passado, estivesse em desaceleração. Mas os cientistas acabam de descobrir que acontece exatamente o contrário: o universo está se expandindo em velocidade crescente devido, provavelmente, à ação de enigmática matéria escura.
Pesquisando documentos em arquivo, dou com resenha de livro do jornalista francês Jean-Pierre Lentin, publicado há tempos. Nele o autor rebate acusações parcialmente infundadas, direcionadas a jornalistas por pesquisadores da Ciência. Entre autores do que denominou 'besteirol científico', Lentin cita Augusto Comte. Para o filósofo positivista, a idéia de que unidades básicas de tecidos orgânicos fossem formadas por células não passava de 'moda e confusão, provocada pelas ilusões do microscópio'.
Há mais exemplos: o cirurgião francês Paul Broca, que via em cérebros pequenos um indício de estupidez de seus donos, teve sua pesquisa adaptada depois que se descobriu que os alemães têm cérebros maiores do que os franceses. Nessa área, o autor da resenha sobre o livro menciona outro neurocirurgião – o português Antônio Egas Moniz – criador da lobotomia, uma cirurgia que não mais se pratica.
Seguem-se outros casos, mas nenhum se iguala ao que Jean-Pierre Lantin qualifica 'a frase mais imbecil de todos os tempos', proferida em 1887 pelo químico, professor e político francês Marcellin Berthelot. Àquela ocasião, o sucessor de Louis Pasteur na Academia Francesa de Ciências afirmara que 'para a Ciência, o mundo de agora em diante não tem mistério'.
John L. Casti, matemático das ciências humanas e professor titular da Universidade Técnica de Viena, escreveu certa vez que a questão é saber se o mundo real ‘não é complexo demais para ser apreendido pela mente humana. Em outras palavras, se há ou não limites para o que esperamos descobrir com recursos e instrumentos do que chamamos de ciência’. No campo da Astronomia, só as pesquisas do Instituto de Busca por Inteligência Extraterrestre (Seti, na sigla em inglês) são, hoje, 100 trilhões de vezes mais poderosas do que há 50 anos. Quem informa é Frank Drake, astrônomo e fundador daquela instituição.
Apesar da avalanche de informações que produzimos atualmente, nossas ‘certezas’ permanecem vacilantes como nossos corações. A Ciência é um produto humano, segundo Albert Einstein. Assim como o erro. O problema é que ele nos assusta, nos faz mudar de calçada para não dar de cara com uma sociedade que reverencia cada vez mais a tecnologia, esquecendo-se de que somos, apenas, seres humanos.
(Repost)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Longe de mim ser pessimista. Não posso descrer do ser humano! Há corações vibrantes no mesmo! Mas, eis que o descarte chegou e, privilegia-se muito mais a tecnologia em detrimento do homem. Estar plugado, conectado em modernosas parafernálias tecnológicas é igual a status. Perdeu-se o olho no olho, o brilho no olhar, o diálogo na mesa de refeição, a qual agora é feita diante do teclado... De quantos "terabytes" estaremos delimitados para comunicarmo-nos, cientificamente, enquanto o filho (ou filha), a mulher (ou o homem), ao nosso lado, vive uma lacuna emocional que "byte" algum substituirá o afeto, o carinho, a ternura do "cuidar"?
Abraço.

soninha cidreira disse...

Neste aparente caos de uma miscelânia de conhecimentos multidirecionados o meu coração descansa nas inúmeras incógnitas ainda não decifradas pela ciência e a minha mente serenamente adormece equilibrando-se no fio intangível da oração.
abçs