sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Chance perdida

(Imagem: Pinterest, pin de Rocio Simon)

Benditos amigos da confraria do Bar do Augusto, aos quais Eforce Uan Calixto Dores – ex-acertador de maçaroqueira, ex-arriador de filatório, ex-aprendiz de macarroneiro, ex-artista de força capilar e ex-bokonô – passara a dever mais um empurrãozinho na tentativa de acertar o pé na vida. Conhecido pelos confrades como Piloto Cheirinho, topava qualquer parada desde que a proposta não afrontasse 'escandalosamente' a lei e os bons costumes. Mesmo com a abundante e riquíssima variedade de superiores exemplos.
No Bar do Augusto, um dos membros da confraria acenara-lhe com a chance de “por a mão numa graninha”. Não era lá grande coisa, mas a oportunidade poderia render-lhe agenda de compromissos para o ano todo. Que trabalho?
- Moleza, Piloto! – o confrade tranquilizara o ansioso Eforce Uan. – Duas horinhas só vestido de macaco num fim de semana. Vai lá, conversa com o Petruco...
A caminho do encontro com o agente de eventos e locação de fantasias, Eforce Uan ensaiou argumento que lhe pareceu decisivo para demonstrar experiência profissional: diria que, "entre outros papéis semelhantes", interpretara o de jacaré como mascote do Clube Atlético Landinho Gorupira – o Calango. É verdade que tudo acontecera por poucos meses, até que a diretoria optasse pela dissolução da entidade em razão da escassez de atletas, recursos e sócios solidários e convictos.
O tal Petruco recebeu o candidato sem dar-lhe muita atenção. Apontou para o figurino de macaco – na verdade um gorila aterrador, porém sem a cabeça. A peça vestia um capacete, posto sobre uma cadeira num canto da sala.
- Vai querer com guinchado? – o agente perguntou ao confuso cliente. Não obtendo resposta, explicou-lhe que a fantasia podia ser ou não acompanhada de equipamento com a gravação da voz de alguns animais. Acomodada em bolso embutido sob a axila esquerda, quando pressionada a engenhoca reproduzia guinchado, rugido, cacarejo, gorjeio ou relincho. Para isso, bastaria selecionar a voz compatível com a peça a ser utilizada.
O homem enfiou a cara na roupa de macaco, ligou o equipamento e o acionou. A cabeça do king-kong então emitiu, ao invés de um rugido de fera, um estridente uaa-uaa-uaaa.
- Aí, é só encaixar a cabeça depois de vestir a fantasia e fechar o zíper – explicou o Petruco.
Tudo acertado, Piloto Cheirinho retirou-se levando numa sacola a ferramenta de trabalho.
No dia do evento Eforce Uan compareceu ao salão de festas pouco antes das 23h, conforme o combinado. Entrou por uma porta lateral e chegou ao camarim improvisado, onde vestiu o figurino, testou a unidade de voz e aguardou ser chamado. No momento certo, entrou no salão em penumbra e acionou o equipamento, que passou a emitir o guinchado de um macaco a intervalos regulares.
Logo a surpresa caiu no gosto dos convidados, que se divertiram com o guinchado de chipanzé na figura de um gorila selvagem. Depois de dar uns saltos e simular uma ou outra ameaça de ataque, o king-kong passou a integrar a equipe de garçons.
Já prestes a encerrar-se o período para o qual Eforce Uan fora contratado (e depois de submeter-se a uma série quase infindável de selfies), um caroço de azeitona lançado por mãos anônimas mergulhou decote adentro de uma convidada. Já tonto pela bebida, o acompanhante da mulher decidiu reclamar satisfações, e como não se identificara o responsável pelo disparo, deu-se início à confusão. O homem queria porque queria a presença dos organizadores do evento. E o fazia de forma exaltada no instante em que o macaco passava a seu lado emitindo um guinchado.
Derrubado no tumulto que se formou, Piloto Cheirinho não apenas foi parar debaixo de uma mesa como o equipamento de voz mudou de guinchado para cacarejo. Impossibilitado de desativá-lo naquela circunstância, Eforce Uan esgueirou-se como pôde até alcançar o camarim. Ali, para sua surpresa e aflição, constatou que o fecho que prendia a cabeça ao corpo da peça havia emperrado.
O salão continuava tomado por gritos, barulho de copos e de bandejas indo ao chão. Uma voz feminina insistia:
- Gente, cadê o macaco?
Foi a senha para que Eforce Uan ganhasse a rua e corresse tanto quanto pudesse. O equipamento de voz seguia cacarejando, indiferente aos golpes que, àquela altura, Piloto Cheirinho desferia em si mesmo.
Na primeira esquina deu com a polícia e foi parar na delegacia, de onde saiu depois de explicar tudinho, tintim por tintim, quando a madrugada já ia alta.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Uma comédia nacional essa sua crônica, Eduardo!1 Há muitos "galinhos garnisés" cacarejando ladeira abaixo... de tantas macaquices aprontadas!
Abraço

Marisol disse...

Muito obrigada, Eduardo pela partilha