sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As mãos e os sonhos

(Imagem: Pinterest / Pin de Donna Nicholson)


Leio em edição quase centenária de jornal mineiro, que certa Joaquina da Conceição exercia o ofício de parteira. E se anunciava na folha, credenciada pela ‘prática de Maternidade da Santa Casa de Misericórdia’. Atendia chamados a qualquer hora e, para os pobres, cobrava ‘qualquer preço’.
É possível que tenhamos nos esquecido do quanto já foi mais simples e humano receber os que chegam, destinados a percorrer conosco parte do caminho. Mais simples, mais humano e mais barato. O anúncio evoca prioridade a ser prestada às gerações futuras, ao acontecimento misterioso do nascer de gente – e não de números, contribuintes ou dados estatísticos.
O passado de menos recursos e mais rigores tinha lá, quando nada, algo de corações aquecidos, ao invés de prioridade à temperatura dos bolsos. Nascia-se no aconchego das casas ou nas maternidades – porém sem cheque-caução, plano de saúde ou fila de espera nas calçadas. O parto era parto, sem financiamento e sem juros.
E quem nascia assim tinha também o inalienável direito de sonhar, como têm os que hoje chegam com desembarque filmado, gravado e fotografado. Até porque eram consideravelmente menores os riscos de se terem sonhos abortados, não só literalmente, mas também devido a trocas de bebês na maternidade, seqüestros ou abandonos numa lixeira.
Indago-me se sonhos de quem vinha pelas mãos de uma parteira, como as que eram comuns naquela fração de passado, não trariam junto um perdido elo de pureza, encantamento e coragem que os atrelava, de alguma forma, a futuro menos cinzento. Considerados à distância, aqueles sonhos revelam feições de engrandecimento humano, enquanto os de hoje parecem trazer a cara do pavor. Tímidos, não raro se restringem à sobrevivência digna, livrando o sonhador de horrores como bala perdida, desemprego e mau político.
Aventuras e desventuras de viver necessitam mais que disponibilidade e acolhimento de uma Joaquina da Conceição – que certamente teve, em sua partida, um nada de presença dos que ajudou a chegar. Elas pedem generosidade, acolhimento verdadeiro, simplicidade.
Para Montaigne, a morte é a condição de nossa criação – razão pela qual devemos dar lugar aos outros, assim como o deram a nós. Portanto não nos bastará ‘ceder’ o lugar, mas assegurar, a quem chega ou está por vir, o humano direito de sonhar.
(Repost) 

2 comentários:

Celina Vasques disse...

excelente teu texto poeta!abraços

Célia Rangel disse...

Sempre é ótimo uma releitura de uma crônica do seu livro, Eduardo, "A Idade da Maçã!" Eram simples mãos e muito afeto que nos traziam ao mundo! Hoje, são muitas mãos, dinheiro, pompas, nasce-se com grife de 3 ou 5 estrelas, mas o afeto, muitas vezes deixado a segundo plano! Isso sem contar nos partos nas ruas, nas viaturas, nos banheiros abandonados como excrementos de um ser gerado de um ato sexual irresponsável! Então, assim temos uma malha social em nada relevante!
Abraço.