segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Tentando a sorte

(Imagem: Pinterest - Pin de Mallory McInnis)


Sonolenta, a mulher que atendia em um dos guichês da casa lotérica chamava os clientes um a um. A fila era longa e entediante como aquela segunda-feira.

- Próximo...

No balcão ao lado, o vendedor de bilhetes ajeitava, distraído, o penteado em estilo moicano diante de um espelhinho de bolso.

- Bom dia, minha noiva! Vem me encontrar, vem me abraçar...

A voz que saudava a funcionária do caixa era a de um sexagenário cliente. Indiferente ao calor e aos olhares curiosos dos enfileirados, o galanteador disparava as cantadas em tom solene e grave, como se declamasse um poema. A mulher primeiro olhou com um rabo de olho, depois deixou escapar muxoxo digno de compaixão. O homem fingiu não perceber.

- Tudo bem, minha flor rosa?

- Hoje não estou pra conversa, nem para os muito poucos amigos... – advertiu a atendente, enquanto devolvia farta papelada ao cliente da vez.

- Próximo!

Simulando interesse por números para a extração da federal, o homem prosseguiu na investida:

- Ninguém é de ninguém / na vida tudo passa / Até quem nos abraça...

Desconhecendo tratar-se de uma letra de música, duas jovens na fila comentaram a fala do apaixonado. Uma delas disse que o homem “poetava verdades” ao definir “também como passageiro até quem nos abraça”.

- Ou até quem nos quer abraçar... Lindo, isto! – filosofou a outra.

Voltando-se para o do espelhinho, que ainda ajeitava o penteado, o galanteador disparou:

- Ah, Bené, o amor é lindo!

O outro sorriu e olhou para a colega do caixa.

- Próximo...

O próximo era o galanteador.

- Minha flor...

- O senhor é bilhete? Então é com o Bené ali... Próximo! – e a mulher do caixa fechou os olhos, ignorando a expressão de desapontamento do apaixonado. Passou em seguida a bater nervosamente uma caneta no vidro do guichê.

- Próximo!

O homem então encheu o peito, abriu os braços e soltou a voz:

- Esta é / a última canção / que eu faço pra você...

Depois sorriu e foi embora. No guichê, a mulher continuou, impaciente, a bater a caneta no vidro:

- Pró-xi-mo!

(Repost)

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Insistente esse seresteiro, hein? Na época em que vivemos teria mais sucesso com "pancadão"... "MC Velhote"... [risos]
Abraço.