domingo, 2 de agosto de 2015

Especulações vocabulares


(Imagem: Pinterest, pin de Holly Cornellius)

Não se desfaz mais nada, hoje. Quem queira desmanchar, arrasar ou destruir algo com sucesso, terá que desconstruir. E com ferramentas orais e morais capazes de romper blindagem – palavra guerreira que saiu dos domínios da beligerância, mas foi sequestrada quando passeava em Brasília.
E é lá, no planalto que um dia foi sonho de Dom Bosco, que hoje se procuram agendas positivas – o que confirma a existência de seu contrário, as negativas, para a defesa de cujos efeitos há de se executar a tal blindagem. Se a medida não for suficiente, tira-se o alvo de cena ou do foco, confiando em que a proverbial amnésia nossa deixe correr o barco em águas que se quer tranquilas.
Se blindagem foi sequestrada em estado de êxtase por Brasília, inexperiência e teimosia tramaram ato tão vil, pois o vocábulo desprezou o conselho da palavra ética. Muito debilitada, ética está de saída, e leva na bagagem ecos de diálogos, declarações e ofensas tão inacreditáveis quanto inesquecíveis. Sai de cena – ou do foco – particularmente ressentida pelo abandono de sua companheira de tanto tempo em ambientes republicanos – a palavra conselho. Embora também sem credibilidade, conselho tem feito tudo para manter-se sob a luz dos refletores, fazendo concessões a finalidades inconfessáveis, em especial as que compõem as tais agendas negativas.
Sem popularidade, a palavra viés teve seus curtos momentos de relativa fama. Invejosa, tentou amizade com a velocíssima agilizar – uma veterana na arte de não deixar rastros. Dissimulada, agilizar não costuma mostrar-se inteira, e nas poucas vezes em que isto acontece, é vista circulando na penumbra e em ambientes restritos. Ainda assim, quem já tenha recorrido a ela nem sempre reconhece tê-lo feito, pois existem suspeitas de que a palavra não dê atenção apropriada à higiene pessoal, carregando com ela odores e manchas de subterrâneos por onde tenha circulado.
Nota-se adaptação rápida da insossa e manquitolante pré-sal ao clima do cerrado, lá por aquelas bandas do Distrito Federal. Apesar de dividida, essa jovem esvoaça com desenvoltura pelos ambientes palacianos, embora já tenha feito mais sucesso com longa agenda (positiva), voltada ao reconhecimento de todo cidadão brasileiro em qualquer metro quadrado do solo pátrio.
Das gêmeas valores, apenas permanece inarredável junto ao poder aquela cuja personalidade se caracteriza por forte apego às questões monetárias. Sua irmã – desprendida, generosa, voltada às questões morais e espirituais – há muito tem demonstrado preferência por lugares mais retirados. Não só em razão de seu desprestígio mas, sobretudo, porque onde há humildade é também possível encontrar suas parceiras, as palavras alegria e paz.
Rumor muito forte tem espalhado inquietação a respeito do vocábulo justiça. Há observadores que apostam na sua clonagem maldosa, afirmando que a verdadeira já estaria em local incerto e não sabido, sob regime de recolhimento forçado. Outros porém dão como inconsistente esta versão. Dizem que justiça, na verdade, tem empenhado a maior parte de seu tempo em longa e penosa mudança para território geográfico ainda desconhecido.
Polêmicas e discussões à parte, parece haver consenso em relação à sobrecarga de responsabilidades sobre uma palavra que, maltratada e usurpada em sua dignidade, não consegue mais transferir respeito ao sujeito a quem deve nominar: a palavra eleitor. Esta, por sua vez, mal consegue enxergar lá no alto, servida por vassalagem e coroada de brilho, a palavra arrecadação e seu fidelíssimo escudeiro, o vocábulo imposto.
E cá de baixo, onde raramente aparecem os maiores e mais contumazes usuários da palavra eleitor, o sujeito ao qual esta palavra ainda serve com fidelidade não descobriu a quem despachar, com urgência urgentíssima, a incômoda e inquietante palavra socorro.

(Repost de Agosto/2009 )

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Nesse clima tétrico em que estamos envolvidos, na política, na economia, e em toda gestão federal, estadual e municipal - endêmico, por excelência, nem em Houaiss encontraríamos termos suportáveis para tamanha desordem "de falta de vergonha na cara"... Por bem menos, eu enrubesço-me e fico calada. Esses outros, ainda se dispõem a discursar em "rede nacional"! Socorro mesmo, pois não somos "vaquinhas de presépios" que só acenam com "amém"! BASTA!
Abraço.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Justiça Eduardo...Só a Divina mesmo.
E espero de coração, que seja feita!
Por todos, que fiam ardentemente nestas pessoas de longe,
Confiáveis.
Obrigado pelo comentário!
Abraços,
Mariangela