domingo, 19 de julho de 2015

Surpresa no mar

(Imagem: Pinterst, pin de Heidi Franklin)

Fonseca recebeu o amigo em casa para cerveja e bate-papo. A mulher tagarelava ao telefone. De olhos e ouvidos atentos à conversa do pai, o pequeno guarda de trânsito concedera trégua ao apitaço infernal, depois de fazer do bloquinho para anotação de recados, um monte de papel rabiscado. Eram multas aplicadas à irmã, que 'dirigia' pela casa um caminhão-caixa de papelão, transportando Gigi – a girafa de pelúcia cujo focinho era um borrão de batom vermelho. As contas com a lei eram acertadas mediante pagamento de uma bala a cada infração. Apreensiva, Larissa via sumir da bolsinha cor-de-rosa suas reservas de liberdade.
Mas a conversa do pai com o amigo era mais importante que o trânsito. Ambos falavam sobre um certo Gaspar, que tinha aprontado poucas e boas.
- Hereditário, Fonseca. Picaretagem tá no sangue... – dizia o amigo.
O pai do garoto rebatia a teoria do outro. Entretido na conversa, o guarda não via a motorista do caminhão furtar-lhe as balas na latinha que ele fizera de cofre.
- Pois não sabe que o pai do Gaspar foi intimado, lá pelos anos trinta, a pagar dívida pelo conserto de um capote?
Fonseca soltou uma gargalhada, mas o amigo ficou sério.
- Verdade... A cobrança foi feita pelo credor através de anúncio de jornal. Uma dívida de cinco anos, que o outro cobrou sob ameaça de trazer a público 'o caso da viúva'.
Já meio tocados pela bebida, os dois riram alto. Passaram então a especular sobre a viúva, o caso, a dívida e o constrangimento do pai do Gaspar – este, definido pelo amigo do Fonseca como um patife.
- Um senhor patife – é o que ele é.
A palavra instigou o guarda de trânsito, que cutucou o pai querendo saber o que era um patife. Mas não obteve resposta.
- O pai do Gaspar – disse o Fonseca – pode até ter sido um patife, mas o Gaspar? Não acredito.
O menino insistiu na pergunta, tocando de leve o braço do homem, que derramou cerveja sobre a mesa.
- Olha aí, Rodrigo! Deixa a gente conversar...
O garoto resmungou pedido de desculpa, mas continuou ali, escutando. O amigo seguia acusando o tal Gaspar.
- Pois eu digo que emprestei a ele uma espada que foi do meu avô. Jurou que precisava para o personagem de Marechal Roquefrut, que ele representava naquela peça. E veio me dizer depois que a espada desaparecera no camarim do teatro... – queixou-se.
- É, esse pessoal de teatro não brinca em serviço... – o Fonseca emendou sem o menor interesse, enquanto buscava outra cerveja no refrigerador.
- Mas o patife tem outra igualzinha. A filha dele contou um dia à minha mulher no salão de cabeleireira.
O guarda de trânsito resolveu apelar para o apito, soprado a plenos pulmões. Fonseca sacudiu-se todo com o susto, e quando procurou a criança, ela já estava longe
Solicitada a interferência da mãe (que ainda tagarelava ao telefone), a paz foi restabelecida. Fonseca então pôde voltar a interessar-se pela suposta patifaria do Gaspar, até que um grito, vindo do quarto das crianças, paralisou papo, cerveja e tagarelice. A um só tempo os adultos compareceram à porta de entrada para o oceano, onde no caminhão-caixa de papelão (agora transformado em navio) navegava o casal de aventureiros. 
Toalha de rosto presa às costas como se fosse capa, o menino fizera de tapa-olho um pé de meia preta do pai. Com os braços, erguia uma espada de plástico. A ex-motorista de caminhão chorava, reclamando da ‘espadada’ que levara na barriga por causa das balas roubadas.
Sorrindo orgulho e valentia, o ex-guarda de trânsito anunciou aos três grandões que observavam da praia que, a partir daquele instante, ele era um patife – o herói do mar.

(Repost)

4 comentários:

Maria Teresa Hellmeister Fornaciari disse...

Texto que faz a alma sorrir.

Célia Rangel disse...

Fico pensando: - E, se não fossem as nossas crianças, hein? Que tédio viveríamos!
Abraço.

Pedra do Sertão disse...

Criança feliz é tudo na vida!!!

Abraços do Pedra...

apareça também!

Araceli

www.pedradosertao.blogspot.com.br

Allan Lucena disse...

Muito interessante e bonita história! `^^´
Parabéns!