sexta-feira, 3 de julho de 2015

As sementes do rei

(Imagem: Pinterest, pin de Supakorn Chinanawin)

Em terras muito distantes vivia um povo numeroso, trabalhador e privilegiado pela qualidade do solo de onde germinavam os melhores frutos durante todo o ano. Regalando-se com as delícias produzidas no reino, o rei e sua corte levavam vida mansa e tranquila, indiferentes à luta diária dos súditos, a cujas necessidades eram geralmente lentos e malevolentes no atendimento, porém ligeiros na cobrança do imposto real.
Invejando a produtividade da terra alheia, os habitantes das nações vizinhas ateavam fogo à sua vegetação na expectativa de que aquele solo fértil se transformasse em terreno onde apenas brotassem ervas daninhas.

Cansado pelo combate constante aos focos de incêndio, o povo queixou-se ao rei que, por sua vez, prometeu-lhes providências. O soberano então enviou emissários aos limites do território real com a tarefa de convencer os inimigos, em nome da boa vizinhança, a não incendiarem suas terras.
Assim foi feito. Correu o tempo, mas nada mudou: os inimigos do reino das terras boas e de excelentes frutos continuaram lançando tochas no meio da plantação do vizinho na calada da noite, causando com isto enormes estragos.
Desesperados, os súditos voltaram ao rei e este tentou acalmá-los com a notícia de que seus ministros já integravam comissões especiais, encarregadas de estudar técnicas agrícolas capazes de disponibilizar aos produtores sementes modificadas geneticamente e imunes ao fogo. Enquanto esse objetivo não fosse alcançado, todos deveriam evitar apagar os incêndios limpando o terreno em volta da área atingida de maneira a que o fogo, extinguindo-se pela falta de combustível, não se alastrasse ao resto da plantação.
Indagado sobre a razão desse procedimento, o rei explicou que apagar simplesmente o fogo seria agir sobre a consequência, quando o melhor seria fazê-lo sobre a causa. E isto significava tentar convencer os inimigos a não repetirem aquele gesto. Quanto às sementes especiais, elas apareceriam em algum momento no futuro.
O rei ainda falava a seus súditos quando um extraordinário incêndio devastou as terras do reino, matando o soberano e sua corte, seus súditos e os ministros reunidos em comissões técnicas para tratar das providências que jamais se concretizariam.

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Bem, meu caro Eduardo, essa sua 'crônica-fábula'... traz-me à mente as atuais notícias do nosso mundo político, que socialmente não pensa em seus súditos; ao contrário coloca é mais lenha na fogueira... Seria premonição de extermínios?
Abraço.

Sandra disse...

Agir sobre as causas é sempre mais complicado, só pela simples razão de que altera o status quo seja do que for, não é verdade? A resistência à mudança seduz muitos interesses... Bela crónica, como sempre. Abraço, Sandra.

Penso logo existo disse...

Didáctico e inteligente. Parabéns. Grande abraço amigo Eduardo