quinta-feira, 9 de julho de 2015

A receita

(Imagem: Pinterest, pin de Lyn LaCava)


A quadragésima-segunda edição de Contos Pátrios, reunindo textos de Olavo Bilac e Coelho Netto e publicada em 1954 pela Livraria Francisco Alves, era voltada à formação escolar infantil, na área da extinta Educação Moral e Cívica. Dela faz parte o conto intitulado ‘O Rato’, que tem por personagens principais um menino de nove anos e sua mãe – mulher paralítica ‘que jazia prostrada pela moléstia’.

Muito esperto, o garoto acordava cedo, fazia a limpeza do aposento onde vivia, ‘mudava a água nas bilhas, deixava ao alcance da mão da paralítica a cafeteira e o pão’, e saía à rua para pedir esmolas na porta das igrejas. E o fazia resguardado por um atestado de médico, que ‘por misericórdia’ tratava da doente.

Narra ainda o texto que certa vez, depois de voltar para casa chorando e levando algumas moedas, a criança nada explicaria à sua mãe. No dia seguinte ela o veria chegar sorrindo e trazendo nos bolsos mais dinheiro. O menino então revelaria ter vendido jornais para um amigo de rua, tendo este lhe prometido aumentar a quantidade de exemplares, transformando o até então infeliz pedinte em digno jornaleiro. Quanto ao pranto da véspera, ele fora resultado da humilhação imposta ao garoto pelo pai de outra criança, ao negar-lhe uma moeda por desconfiar que ela seria deixada ‘na primeira taverna’.

Excessos à parte, a olhos atuais não pode passar despercebida a distância estelar que nos separa  de uma sociedade baseada em valores hoje moribundos, para dizer o menos. Há mais de seis décadas, não causaria muito espanto que uma criança de nove anos cuidasse de sua mãe inválida com tanto zelo e responsabilidade. E nem que, para isso, tivesse que esmolar à porta das igrejas, respaldada por um atestado de médico que atendesse a paciente com compaixão e gratuidade.

O leitor do século 21 não vacilaria ainda em ver as cenas descritas como ficção meio boboca, ao imaginar que um menino pobre voltasse para casa, sistematicamente, depois de passar o dia inteiro pedindo esmolas. E – mais surpreendente – levando e entregando à sua mãe o dinheiro angariado.

Encontrar um amigo de rua que encaminhasse o pedinte para uma profissão como a de jornaleiro (que, por sua vez, lhe rendesse o suficiente a seu sustento e ao de sua mãe), parece tão impossível quanto crer que uma criança de nove anos, vivendo nas ruas e agindo mal, hoje, pudesse empregar a esmola recebida na aquisição apenas de inocente tabaco ou bebida em um bar.

Delírio mesmo só a sobrevivência, em nossos dias e por mais de quarenta edições, de um livro de contos infantis de autor brasileiro adotado pelas escolas.

Lá ou cá, algo saiu ou está saindo errado.

(Repost)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Vejo que urge que devolvemos "a criança para dentro dela mesma"... Anulou-se essa linda fase em que "as famílias" cuidavam das mesmas. Ao anteciparem fases da vida, perderam-se.
"RECEITA"? Equilíbrio entre a razão e a emoção.
Abraço.

Lucélia Muniz França disse...

Infelizmente diante da inversão de tantos valores é difícil saber realmente no que devemos acreditar...
Tenha uma semana abençoada! Um abraço!
http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/