quarta-feira, 3 de junho de 2015

Habilidade

(Imagem: Pinterest, pin de Droosy S)

Macedo saiu apressado. Ia ao banco, pagaria algumas contas, depois...
- Meu bem você nem tomou café direito... – choramingou a mulher, que só teve tempo de anunciar novidade do neto, antes que o marido ganhasse a rua.
- Novidade? Que novidade?
- É o Pipinho quem quer contar...
Macedo soltou um muxoxo, acenou e desapareceu na primeira esquina.
Não percorrera ainda meio quarteirão quando percebeu que alguém o seguia assobiando um sem–fim de agudos, dobrados, rebuscados e desafinados acordes capazes de provocar calafrios. Não bastasse isto, o assobiador calçava chinelos que dialogavam em chlep-chleps insuportáveis.
- Chlep, chlep, chlep, chlep...
De repente o barulho cessou. “Parou no camelô de frutas”, deduziu Macedo. Mas a trégua duraria pouco, recomeçando em seguida. Apesar de mais distante, o assobio se transformara em pipios da melodia do hino rubronegro. Isso pôs em alerta o tricolor Macedo, fazendo-o reduzir o ritmo da caminhada até ser ultrapassado por um sujeito de boné, camisa desabotoada, calção e de chinelos. Uma barriga respeitável abria caminho para o assobiador, que torcia e retorcia os beiços para desenhar um bico adequado ao assobio. Fechava os olhos, erguia as sobrancelhas, e tudo ia terminar em careta assustadora.
- Chlep, chlep, chlep, chlep...
Parado junto ao meio-fio, Macedo deixou que o assobiador o ultrapassasse e virasse a primeira esquina. Por coincidência, iria na mesma direção. O que não queria dizer.... ou queria? E se o destino de ambos fosse o mesmo?
Macedo afinal moveu-se e atravessou a rua. Foi até a banca de jornais, espiou as manchetes. Chegou depois a uma casa lotérica, comprou bilhete, dispensou dois dedos de prosa a um conhecido e partiu para o banco.
Já no caixa eletrônico, Macedo desincumbiu-se da tarefa e voltou à rua. Lembrou-se então do neto e da novidade anunciada por Genu. Decidiu que seria ele, o Vô Cedo, a levar ao Pipinho a surpresa de uma camisa do Fluminense.
Na loja de artigos esportivos, pegou das mãos da vendedora uma pequena camisa com o escudo do tricolor, estendeu os braços e passou a admirá-la com um sorriso. Em seguida mandou embrulhá-la para presente, e já se preparava para fazer o pagamento quando o rubronegro hino veio chegando em pipios toscos, marcados pelo som de chinelos em marcha.
- Chlep-chlep...
De posse de sua compra, Macedo pagou e bateu em retirada antes da chegada do assobiador.
Em casa, custou a se conter enquanto esperava o neto terminar o banho. Assim que a criança apareceu na sala, o avô tomou-a no colo e disse que tinha uma surpresa.
- Eu também tenho, vô! Mas conta a sua primeiro.
- Não, conte a sua... – fingiu o velho.
- Não vale! A sua primeiro...
Macedo então entregou o embrulho ao garoto, que em segundos se desfez do laço de fita e do papel.
- Oba, uma camisa de futebol...
- De futebol não, Felipe: do Fluminense.
O garoto sorriu e disse que não ia usá-la ainda porque não resolvera se torceria pelo time do avô ou pelo Craquecaraca – o time dos colegas da escola.
- Mas você pode torcer pelos dois, ué...
- Então você também pode torcer pelo Flamengo, né? – rebateu a criança.
- Eu sei, eu sei.... – sorriu complacente o avô. – Mudando de assunto, qual é a sua surpresa para o vovô?
O rosto do menino iluminou-se:
- É que eu aprendi a assobiar...
 (Repost - Reeditado)

3 comentários:

rosadaserra disse...

Coisas de criança- são pura poesia e surpresas gostosas.

Célia Rangel disse...

Que sina desse avô, hein... E, quem nunca sucumbiu às narrativas de netos? Uma delícia!
Abraço.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Eduardo, boa tarde!
Adorei ler este teu texto, e senti saudades do meu avô, e do meu pai, que sempre estava fazendo ou aprontando algo para os netos!
Tem coisa mais gostosas?
Abraços!!
Mariangela