sexta-feira, 19 de junho de 2015

Alienação e poder

(Imagem: Pinterest - Pin de Andrea Reynolds)


O mundo estava ainda em guerra quando, no Natal de 1944, o Papa Pio XII dirigiu mensagem aos povos, distinguindo ”povo” de “massa”.
Movendo-se por vida própria e difundindo, de sua exuberância de povo verdadeiro, a vida no Estado e em todos os seus órgãos “pela infusão do vigor e da consciência da própria responsabilidade, além do sentimento do bem comum”, o conceito de povo, segundo a mensagem, diverge do de massa. Aqui ela é definida como inerte em si mesma “e não pode mover-se senão pela ação de um elemento externo para um fim que ela desconhece.” Habilmente manipulada e usada “pelas mãos ambiciosas de um só ou de muitos agrupados artificialmente por tendências egoístas, pode ser reduzida a não ser mais que uma simples máquina”. Vista por esse ângulo, massa “é inimiga capital da democracia e de seu ideal de liberdade e igualdade.”
A reflexão vem a propósito de análise das transformações pelas quais vem passando o mundo, feitas por Moisés Naim em O Fim do Poder. Ex-Ministro do Desenvolvimento na Venezuela, diretor executivo do Banco Mundial e editor-chefe da revista Foreign Policy, o autor aborda a degradação do poder e suas consequências na sociedade humana remetendo-nos, quando nada, à teimosa resistência que temos em aprender com os erros do passado. Quando escreveu a mensagem “Benignitas et Humanitas”, Pio XII afirmou que os povos, diante do sinistro resplendor da guerra, como que despertavam de prolongada letargia adotando, diante do Estado e dos governantes, “uma atitude nova, interrogativa, critica, desconfiada”.
Passados 70 anos, Moisés Naim lembra que “nunca mais” é o lema universal dos sobreviventes da guerra, e ressalta que, apesar disso, persistem o terror, a coerção e a violência como “forças poderosas que transformam as vidas e as comunidades humanas”. Assim é que os “dividendos de paz” da Guerra Fria já desapareceram, diante de eventos como a Guerra do Golfo, o ataque ao World Trade Center, o genocídio em Ruanda e as guerras civis na África Ocidental, entre outros.
Das consequências da degradação do poder – que cria solo fértil para a demagogia – Naim cita o surgimento de charlatães e do que chama de “vendedores de poções mágicas” ou “simplificadores”, para quem um novo ambiente torna mais fácil alcançar o poder. Em razão disso – e de toda a minuciosa e bem fundamentada análise a que o autor submete a questão – faz-se necessário que a sociedade abra espaço ao diálogo, em todos os níveis, sobre as mudanças por que passa o poder no mundo.
O livro é instigante ainda por questionar, por exemplo, se o aumento nos sentimentos de solidão, apontado por vários estudos de ciências sociais no mundo desenvolvido, não se relaciona com a degradação do poder também na família. Existindo um risco crescente para a democracia e as sociedades liberais no século XXI, o autor acena com a possibilidade de que ele provavelmente tenha origem não em uma “ameaça convencional moderna (China) ou pré-moderna (radicalismo islâmico), e sim do interior das sociedades nas quais a alienação se instalou”.
Alienação que, entre nós, leva jeito de realidade hábil, insistente e convenientemente manipulada com incansável dedicação. 

Um comentário:

Célia Rangel disse...

Uma das "pragas sociais" que sempre existiu, mas hoje aflora-se cada vez mais, é o poder - o dominar pelo poder. Chega a ser castrador e dominador a tal ponto que coagem pessoas com tamanha supremacia, determinando o que pode ou não, o certo ou errado, segundo a ótica dos dominadores. Poder financeiro. Poder cultural. Poder social. Poder religioso, e tantos outros como raça e cor são classificadores humanos, ainda que nada cristãos. A abordagem de Moisés Naim é sem dúvida, uma ótima indicação para aprofundarmos inúmeras questões.
Abraço.