terça-feira, 9 de junho de 2015

A tosse da vaca

(Imagem: Neil Beech/Behance/Pinterest - Pin de Carol Kuehnhold)

Sem ter como segurar a língua, nem suportar o silêncio naquela sala de espera, Jesualdo dirigiu o olhar para o teto e a provocação para o desconhecido que, de cabeça baixa, brincava com os dedos das mãos.
- Tá feia, a coisa...
O outro ergueu as sobrancelhas e deixou escapar um "é" comprido e sem compromisso. Jesualdo não se deu por satisfeito: queria conversa.
- É, a coisa tá preta mesmo.
O outro interrompeu um tricô imaginário e advertiu sobre a conotação preconceituosa da expressão.
- Preconceito? Eu? – admirou-se Jesualdo, apontando com o dedo a pele morena do próprio braço.
- Mas é preconceito... – insistiu o outro.
- Que que é isso? Se eu posso dizer que essa cadeira aí é preta, a roda do caminhão é preta, não posso dizer que a situação é preta? – Jesualdo foi pegando gosto pela conversa.
- Isso eu não sei, mas que é preconceito, é.
Acrescentando momentaneamente a cor preta à política, religião e gosto – trio de assuntos que a boa e velha educação desaconselhava discutir – Jesualdo resolveu ser mais direto:
- É, esse governo parece que tá de brincadeira, né? Tá judiando com a gente...
O outro, que já deixara de lado o tricô invisível para folhear, com dissimulado interesse, um exemplar de revista sem capa, mexeu-se na cadeira e arriscou:
- O senhor me desculpe, mas até pode ser que o governo faça lá uma ou outra bobagem. Afinal, todo mundo erra. Mas daí a dizer que está judiando, é mais uma vez uma atitude preconceituosa.
Aqui o boa praça do Jesualdo perdeu a fala e ficou de boca aberta, olhos arregalados e fixos no outro, que de novo se desculpou.
- O senhor me desculpe, já disse. Mas judiar é palavra que remete a “judeu”, não é a melhor maneira de se expressar... Desculpe a sinceridade.
Recuperado, Jesualdo foi mais fundo no que passou a considerar uma oportuna provocação:
- Olha aqui, meu amigo: desse jeito, a gente vai ter que andar com uma listinha de palavras proibidas, né não? Preto não pode, judiar também não... O amigo não concorda que não dá pra seguir essa bobagem nem que a vaca tussa?
O outro empertigou-se na cadeira, o rosto ligeiramente corado de indignação.
- Primeiro, não sou seu amigo; segundo, o senhor está dispensado de ironias neste momento. E terceiro: se a vaca tosse ou deixa de tossir, é problema lá da ciência, da veterinária, sei lá de onde ou de quem. – E arrematou:
- Tem mais: se eu fosse pecuarista, lideraria um movimento pra prevenir possíveis prejuízos com esse negócio de vaca tossindo. 

Dito isto, voltou a folhear a revista.

7 comentários:

rosadaserra disse...

"Nem que a vaca tussa", vamos acabar com a discórdia entre esses dois.

Desse jeito fica difícil dialogar, meu amigo.

Abraço de boa tarde.

Rita Lavoyer disse...

Estamos, literalmente.... ferrados!

Fernando Melis disse...

Com bem disse Jô Soares, "politicamente correto é pegar na merda pelo lado limpinho" (risos). Se as cabeças pensantes deste país se dedicassem mais àquilo que realmente interessa, a coisa estaria bem melhor.
Abraços e obrigado por compartilhar.

Célia Rangel disse...

Se correr o bicho pega... se ficar o bicho come... Então sigo o conselho de minha avó: - "Em boca fechada não entra mosquito" ... E, vai que a tosse da vaca seja contagiosa! Quem passou pelos idos de 64 sabe bem como é...
Abraço!

Mariangela do Lago Vieira disse...

Oi Eduardo realmente... Hj em dia está ficando difícil dialogar! Rs
Muito bom!
Abraço
Mariangela

Teresa Silva disse...

É cada vez mais difícil chegar a acordo... Depois, as vacas é que ficam com a fama de tossir!

Bjxxx

Marcelino disse...

Oportuno seu texto, Eduardo, pois fala com humor dessa patrulha linguística a que estamos submetidos em nosso cotidiano. Patrulha essa que às vezes incomoda, mas que sempre contribui com alguma reflexão a respeito da relação entre língua e sociedade.