sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sabujos e líderes



O presidente da Casa Legislativa diz basear em orientação técnica da assessoria da Mesa, a decisão de invalidar determinada proposta submetida à votação. Mas o parlamentar que patrocinara a iniciativa não aceita a explicação, e declara equívoco do presidente o de amparar-se no que lhe apontam “esses sabujos”.

Por sua vez outro parlamentar, exaltadíssimo e de dedo em riste, esbraveja contra o presidente da Casa tratando-o por “você” e exigindo que mude sua decisão. Em desarmonia, um coro de vozes grita palavras de ordem, tecendo críticas aos colegas e ampliando o tumulto.

É da natureza democrática – explica-se. E é mesmo. O Parlamento é onde se “parla”, se dialoga, se acordam soluções em benefício da sociedade e do país. Ou se deveria fazê-lo, respeitados os limites da boa educação e da convivência minimamente civilizada. Tudo em atenção aos eleitores, aos próprios pares, e à dignidade das respectivas Casas do Congresso Nacional.

A História registra momentos de escuridão do Parlamento brasileiro – e não apenas relacionados a regimes autoritários. Em 1963 dois senadores – Arnon de Melo, pai do atual senador Fernando Collor, e Silvestre Péricles, ambos de Alagoas – protagonizaram uma rixa que acabou na morte do senador catarinense José Kairala, que tentava ajudar a desarmar Péricles até ser atingido por um disparo feito por Arnon de Melo.

Quatro anos mais tarde na Câmara, os deputados Nelson Carneiro, do Rio de Janeiro, e Estácio Souto Maior, de Pernambuco, pai do piloto Nelson Piquet, trocariam tiros em frente a uma agência bancária existente naquela Casa. Souto Maior seria atingido por um disparo de Carneiro e revidaria com cinco tiros, sem acertar nenhum. Assim como no caso anterior, os protagonistas seriam julgados e absolvidos.

Felizmente não temos tido a repetição de casos semelhantes, mas em algumas ocasiões – e a despeito dos esforços de lideranças para restaurar a boa imagem do parlamento – o nível dos debates tem deixado a desejar também quanto a posturas e reações que em nada dignificam nem o parlamentar, nem a Casa à qual pertence.

Dia desses, um leve toque do deputado que discursava, no ombro do colega a quem se dirigia (e que se posicionava de costas para o orador), quase acabou em sopapos, diante da intervenção de uma parlamentar que se julgou agredida ao sair em defesa do parceiro de bancada.

Repositório da esperança dos eleitores que creem na democracia, o Parlamento acolhe os representantes da vontade popular com a expectativa de que estejam à altura das Casas que os recebem. Porque sem respeito àqueles limites – e, em especial, ao Regimento Interno das duas Casas – não pode haver autoridade sequer para condenar atitudes como a de um manifestante que, nas galerias da Câmara dos Deputados, arriou as calças em protesto contra o que se votava.

Afinal, em pátria que se alardeia educadora, mais que nunca o exemplo deve vir de cima.

Um comentário:

Célia Rangel disse...

A decadência política em nosso país há muito desacreditada, em nada me representam, esses senhores e senhoras, que "aos xingamentos" se tratam por "excelência"! Aprendi, ser esse, um tratamento da mais alta dignidade de postura, e ética adquirida no transcorrer da vida! O que destoa definitivamente da posição ocupada pelos mesmos, segundo o nosso poder de voto! Isso, então, é o mais sofrível! Não sabemos votar!
Abraço.