quinta-feira, 14 de maio de 2015

Amigos em baixa?


(Imagem: Loui Jover, Pin de romi mehr)

Não pode ser só impressão. A vida parece cada vez mais de cabeça para baixo. Ou de ponta-cabeça. As alegrias deixam rastros cada vez menos visíveis, dificultando-nos seguir-lhes a pista. O amontoado de acontecimentos e informações que desagradam ou entristecem é farto e pontual. Basta ler os jornais. Se a maioria não lê jornal, então será suficiente assistir aos noticiários, andar pelas ruas, conversar com o vizinho ou trocar impressões em família. Notícia ‘boa’, antes quase que só na propaganda oficial. Atualmente, nem isso.
Um velho editor de jornais costumava dizer, a título de consolo a quem se queixasse com ele, que bastaria pensar quantas pessoas não se levantariam a partir daquele dia. Tão radical quanto desnecessário, o raciocínio fica próximo a provérbio muito em uso no passado, segundo o qual o bom cabrito não berra. Na ilusão de se transformarem em 'bons cabritos', quantos jovens não terão engolido o berro e sufocado o pranto da indignação e da revolta diante da injustiça e da desigualdade? E, a partir do silêncio cruelmente imposto, quantos não terão se habituado a cultivar a baixa estima e a indiferença, a covardia e uma espécie de 'adesismo versátil' adaptando-se, sem senso crítico ou opinião própria, à situação do momento?
Queixas e protestos de hoje talvez reflitam não mais que os silêncios de ontem. A Saúde anda péssima, a Educação não fica atrás. A Política é indefinível, os políticos causam aversão. Polícia e Justiça são encaradas com reservas. E o futebol? A programação da TV? O trânsito e o custo de vida? Os impostos? Desalento, só.
Na tentativa de colorir rotina cinzenta, esforça-se para buscar no nada as tintas do que se apresenta como novidade. É então que inverter tudo passa a ser opção para inovar. Há algum tempo, passou-se a decorar ambientes para festas de final de ano com árvores de Natal de cabeça para baixo. Idem com a posição das fotos de cães, em site que se direcionava a admiradores entediados e que, supõe-se, gostariam de escapar da tal rotina, mas não sabiam ainda como manter o Totó com as quatro patas para cima. Já se anunciou a escrita com letras invertidas, e até fotos com as câmeras voltadas exclusivamente para o solo serviram de base a formação de entusiasmado grupo de criativos fotógrafos.
Pode estar passando o momento de se rever juízos de valor. E como muito se exalta, particularmente nas redes sociais, a Amizade (que celebramos anualmente em duas datas diferentes, assinalando nossa proverbial afabilidade), então bem se poderia começar por ela, recolocando-a no justo pedestal que já ocupou. Porque, sem amigos verdadeiros, a solidão se apressa.
Imensa e sem criatividade alguma.
(Repost – Editado)

3 comentários:

rosadaserra disse...

É amigo... sem amigos verdadeiros, a solidão se apressa.

Belíssimo texto e providencial para o momento.

Bênçãos de poucos e sinceros amigos em seu caminho.

Rosa Maria

Célia Rangel disse...

Um texto na postura certa ao analisar os dias que estamos vivendo... Chegamos a pensar que tudo o que aprendemos e valorizamos como correto, desarticulou-se totalmente da esfera mundial! Inverteu-se realmente tudo. Há que ser "expresso, virtual, holográfico" nos dias atuais... A amizade, também, para muitos!
Abraço.

Mariangela do Lago Vieira disse...

É uma pena o mundo chegar neste estágio.
E creio que é só o começo.
Era tão bom quando observávamos os valores evidenciados nas pessoas, agora é quase uma raridade.
E neste mundo virtual que já lidera, realmente a solidão já se faz presente.
Ótimo texto, e muito verdadeiro.
Abraços,
Mariangela