segunda-feira, 13 de abril de 2015

Segunda-feira

(Imagem: Google / cartoonbrew)

Manhã de segunda-feira. A caminho do escritório, ele viu aproximar-se um sujeito de baixa estatura, boné e óculos de grossas lentes. Estancou rapidamente os passos e, em manobra rápida, escondeu-se atrás de um poste, enfiando a cara no tabloide de esportes que levava, cuja manchete era a derrota de seu time estampada em letras grandes. O esforço, no entanto, foi em vão.
- Félix Fortuna, meu amigo! – exultou o outro erguendo os braços num abraço universal. A resposta foi um olá inaudível, reforçado por um dedo indicador que apontava na direção de onde viera o de boné.
- Estou indo pra lá...
- Eu o acompanho. Afinal, meu nome é Antônio Peregrino. Peregrino pra lá, peregrino pra cá...
Félix ignorou o trocadilho e apertou o passo. O outro também.
- Fiquei sabendo que fechou a firma e voltou a ser empregado... Chato, né?
- Pois é...
- Também, mexer com lava-jato nestes tempos...
- Lava A jato...
- Humm... Chovê! – e o Peregrino recorreu ao celular, indispensável e moderníssimo apêndice da anatomia humana. Arrastou a ponta do dedo pra lá e pra cá na telinha do aparelho, dando por concluída a “pesquisa” antes que ambos cumprissem o quinto passo daquela via crucis.
- Tá bom, que seja... Agora, se você tivesse mudado o nome da firma de “Lava-Jato Fortuna” para Lava-Rápido Félix...
- Nada a ver – ele resmungou. – Fortuna é meu nome, e lava a jato é lava a jato. O problema – aliás os problemas – foram impostos, falta d’água, mão-de-obra e a gozação.
- Tudo culpa lá de cima, né não? Imposto, falta d’água, mão-de-obra e gozação.
Querendo livrar-se do assunto e do interlocutor, Fortuna apressava o passo, olhava para os lados como se procurasse alguém ou alguma coisa, batia a mão na testa simulando a lembrança de algo importantíssimo. Mas o Peregrino, além de peregrinar, era também persistente.
- Passou o negócio pra frente sem prejuízo, né?
- É...
- Ainda bem, né Fortuna? Botou a mão no seu dinheiro de novo, lavadinho..., quer dizer, limpinho.
A partir daí, o de boné começou a teorizar sobre investimentos e parcerias para empreender em novos nichos de mercado. Dizia ter ideias boas e ainda não expostas a quem quer que fosse. E se o velho Fortuna quisesse, então poderiam combinar uma reunião, conversar sobre possibilidades...
Sem obter respostas, parou e só então se deu conta de que o Fortuna desaparecera lá atrás, possivelmente metido na multidão que se espremia para alcançar o primeiro degrau da escada rolante do shopping.

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Essa... peregrinação, persiste, hein... principalmente em uma segunda-feira... Não importa a companhia, ainda que só, lava-se de tudo e mais um pouco... já que a "festa carnavalesca" acontecera no domingo!
Abraço.

Unknown disse...

Boa tarde Eduardo,Esse afortunado do Fortuna,conseguiu escapar...escafedeu-se! Cordial abraço.