segunda-feira, 20 de abril de 2015

O grão


(Imagem: Debra Andrews Artist, Pin de Lorna Conley)


Recebo texto em minha caixa postal que traz a angústia de saber e de supor a vida no momento. No instante em que escrevemos, outros riem, esperam, nascem, morrem, aprendem, ensinam, amam, pensam, viajam, matam, criam... Todos vivemos ainda que por um instante, seja ele o primeiro ou o último.

O texto é provocador e inquietante, e me remete ao que certa vez escreveu o então embaixador e secretário-geral da Unctad, Rubens Ricúpero. O tema do artigo era o assassinato em Oran, África do Norte, do monsenhor dominicano Pierre Claverie, bispo católico daquela comunidade. No momento em que sete monges eram massacrados em Tibéhirine, na Argélia, o bispo afirmava na televisão que o valor de sua vida dependia de sua capacidade de doá-la.

Suspeitando que, com aquela fala, tivesse assinado sua sentença de morte (e após assistir, em janeiro de 1994, a uma primeira incursão de um comando terrorista ao mosteiro) Claverie pressentiu a morte próxima, ocorrida poucas semanas depois do massacre em Tibéhirine, redigindo um testamento espiritual. Nele o bispo afirmava que “chegado o momento, gostaria de ter o lapso de lucidez que me permitisse solicitar o perdão a Deus e o dos meus irmãos em humanidade, e perdoar de todo o coração, ao mesmo tempo, aquele que me tiver atingido”.

No último parágrafo do documento, Pierre Claverie inclui seu futuro assassino no agradecimento que faz aos amigos e à família: “E tu também, amigo do último minuto, que não sabias o que fazias. Sim, para ti também quero dizer este obrigado e este ‘A-Deus’ tencionado por ti. E que nos seja concedido nos reencontrarmos, ladrões felizes, no paraíso, se Deus, pai de nós dois, quiser”.

A lembrança do artigo a que me refiro, intitulado Se o grão não morre...,  surgiu após a leitura, no texto que recebi, da afirmação de que “nesse momento Deus está permitindo a morte de milhares de pessoas” para a renovação da vida, “que não existiria sem a morte”. Mas é também pela diversidade de gestos aprisionados num mesmo fragmento de tempo que sou levado a pinçar o daquele assassino e o de sua vítima. Enquanto um tirava a vida, o outro deixava no solo a semente boa do perdão, num raro gesto de fé e de verdadeiro amor ao próximo.

Há dúvidas quanto ao que já se disse sobre memórias ficarem maiores à medida que o tempo passa.

Mas certamente a vida, de fato, começa em gestos como o daquele monge.

(Repost - Reeditado)

3 comentários:

rosadaserra disse...

Belíssimo texto,amigo!

Nesta manhã de feriado viajei por entre memórias e sentimentos que movem minha existência.

Você proporcionou uma reflexão dolorida por meio de palavras doces e ternas.

Um dia lindo.

Rosa Maria

Unknown disse...

Boa tarde Eduardo,Texto que me levou à reflexão de um perdão incondicional! Somente muita espiritualidade para se ter um belo gesto de perdão desse "kilate"... Abraços,Dilma.

Célia Rangel disse...

Memória que nos remete ao perdão, sem julgamento... Ao igualarmo-nos como seres comuns, no reencontro, como "ladrões felizes, no paraíso, se Deus, pai de nós dois, quiser”.
Abraço.