quarta-feira, 29 de abril de 2015

Ainda a carta...


(Imagem: Pinterest, pin de Brownie Snyder)


A propósito de crônica "A carta", recebo da leitora Miriam Carrilho um e-mail no qual ela relata experiência que se repete há 28 anos, quando sua livraria promove concurso para crianças entre 7 e 12 anos de idade. O tema em 2013 foi uma carta e envolveu, como de hábito, alguns colégios e mais de duzentas participações. Naquele ano – e ainda segundo o relato da leitora – "houve uma quase revolução nas salas de aula. As crianças ficaram atarantadas, nunca tinham recebido ou enviado nenhuma carta e, assim, não sabiam como escrever uma carta, o que fazer com elas".

Desnecessário dizer do respeito pela palavra, pelo idioma e pela própria cultura como sinais evidentes de cidadania, antes de tudo. Contra uma avalanche poderosíssima que devasta valores, só a resiliente esperança numa reviravolta quase ficcional na educação, que derrapa como a saúde pública, para ficar só nisto.

A iniciativa da livraria de Miriam Carrilho, a par dos frutos que possa produzir em nível comercial, ultrapassa em muito uma visão imediatista, para alcançar o que outros segmentos da sociedade não buscam pela falta de fé e de vontade política. Pela ausência de cidadania. No caso do concurso de 2013, os promotores tiveram a satisfação de ver um dos colégios participantes levar até um carteiro aos alunos, como forma de dar credibilidade e facilitar a dinâmica da aula em que se discorreu sobre o tema.

Já me referi aqui neste Pretextos-elr a misteriosa carta, descoberta não há muito tempo sob uma pilha de tijolos em adobe de uma igreja que desabara no Peru. Escrita em língua perdida desde o século XVI ou XVII, é possível que ainda não se tenha conseguido decifrar sua mensagem – seja ela uma oração, uma fórmula, o relato de uma batalha ou uma declaração de amor. É instigante e dolorido imaginar que, em um tempo remoto e desconhecido, alguém movido pela esperança tenha legado ao futuro uma mensagem esclarecedora, necessária ou até urgente, sem que a mesma cumprisse sua finalidade, ficando para sempre aprisionada pela nossa ignorância e desinteresse.

Se a leitura já é vista com monumental má vontade, que se dirá da escrita – a caminho de ser considerada próxima de algo como um tipo de pena medieval e cruel imposta nas escolas. É assim que, apesar de esforços e iniciativas como as de Miriam Carrilho, cresce a cada dia a impressão de que preparamo-nos para deixar às futuras gerações traços, sinais e códigos quase tão indecifráveis quanto os da carta peruana. E que, a passos rápidos e firmes, seguimos para a era do balbucio, quando então a tecnologia pouco nos ajudará na interpretação de grunhidos e caracteres – tão dispersos e solitários quanto nós mesmos.

4 comentários:

Paulo Gomes disse...

Parabéns!!!

Célia Rangel disse...

Falando sobre "Carta" fiz esse caminho da escola onde atuava ao correio da cidade, várias vezes, com meus alunos para postarem cartas às suas mães, como homenagem pelo seu dia! Foi memorável a experiência! Do escrever, do andar na rua, do postar e pagar, receber troco e retornar ao colégio e ver as mães, nas portas da sala de aula, emocionadas! Hoje, no entanto, na rua ou em uma sala de espera médica, odontológica, ou outra qualquer, há um bando de humanos cabisbaixos, teclando ou dedilhando mesmo, com semblante totalmente alheio ao ambiente e seus semelhantes. Perdemos totalmente a comunicação da palavra e do olhar, do cumprimento de um bom dia e da educação do por favor e do obrigado!
Isso é ser moderno?
Abraço.

Reflexos Espelhando Espalhando Amig disse...

Eduardo, bela postagem.
E sobre a mesma eu afirmo
que amo ainda hoje escreve cartas
e ha pouco mais de um ano
eu escrevi uma cartinha para
m jovem de 12 anos
e ela alem de criticar a minha
caligrafia
assumiu nunca ter recebido ou escrito
uma carta.
Mas é fato que joga na internet
por horas e horas...
Então fica minha pergunta:
E quando sistema cair, pq ele
vai cair um dia,
essa geração e as futuras
não saberão mais falar, ler
ou escrever se não for em um teclado
ou on line?
Adorei a iniciativa citada
na postagem.

Bjins querido amigo e o aguardo
la no meu blog Espelhando.
CatiahoAlc.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que saudades das velhas cartas...
Ficava na janela esperando o carteiro!
Tempos bons.
Agora já não tem mais a mesma emoção.
Amei este texto!
Abraços!!
Mariangela