sexta-feira, 24 de abril de 2015

A carta

(Imagem: Pinterest, Pin de Kristin Langdon)


Querida Danielle:

Vovô escreve para você porque sua mãe me disse da sua dificuldade em cumprir essa tarefa da escola. Então eu lhe envio esta carta, você responde, copia tudo no seu caderno de casa e leva para a professora. Depois você me conta que a sua cartinha para o vovô foi a que tirou a melhor nota – combinado?

Vovó Esperança e eu estamos bem, mas com muitas saudades de vocês. Qualquer dia a gente aparece aí na capital.

E você? Estudando bastante? Como estão seus pais?

Enquanto escrevo, o vizinho aqui em frente ouve essas músicas de hoje – o tal de funk. Você gosta disso, Danielle? Pois vovô agora se delicia com a terceira de Brahms...

Espero que você tenha desistido de fazer a tal tatuagem de dragão. Você é ainda muito nova, e seus pais estão certos em não deixar que você faça isto agora.

Estude bastante. Vovô já está ansioso para receber sua cartinha.

Um beijo para você.

Ass.: Vovô Felício e vovó Esperança.

PS – Peça à sua mãe notícias da Juju e me escreva sobre ela na sua resposta.

Vô:

Legal receber sua carta. É a primeira que eu recebo na vida.

Não sei se vou tirar notão. Não gosto de escrever cartas, eu nunca escrevi uma. Prefiro e-mail e face. Você tem face, vô? Se tiver, me adiciona lá. Já estou com 825 amigos.

Não curto muito o funk, não. Gosto mesmo é da dupla Zé Ronaldo e Apolinário. Curto eles cantando “Errei a mira”.

Não sei o que você quis dizer com “a terceira de Brahms”.

Não desisti da tatoo. Dragão é legal e eu ainda vou ter um nas costas, bem grandão.

A Juju morreu atropelada na segunda-feira. Foi a maior confusão aqui na rua.

Bjs.

Dani

Danielle querida:

Demorei um pouco para responder sua cartinha (sua mãe me falou que sua nota foi boa e que ela teve que corrigir uns errinhos antes de enviá-la a mim). Como você já deve saber, vovô não andou bem. Ficamos, vovó e eu, muito abalados com a notícia que você deu sobre a Juju.

Querida, a Juju a que eu me referia era a minha única prima ainda viva, a Júlia, e que também mora aí na capital. A Juju que morreu atropelada, segundo sua mãe, foi uma tal dona Judite, vizinha de vocês...

Na minha idade, Danielle, tenho só dois amigos verdadeiros e que, quase certamente, já me valeram e ainda valem pelos mais de 800 que você diz que tem no face (é uma rede social, né?). Tenho isso não, Dani. Vovô e vovó nem precisam disso para continuarem a ser felizes.

Beijo para você, outro para seus pais.

Vovô Felício.

PS – Brahms era um compositor de música erudita. A “terceira” é uma das sinfonias que ele compôs.


(Repost)

4 comentários:

Luis lourenço disse...

tão expressiva esta carta!-Grandde abraço, Eduardo.

Célia Rangel disse...

Então, meu caro Eduardo! Por mais que nos adaptemos aos novos modelos de comunicação... é difícil absorvermos a modernidade do "internetês". Sabemos, a essa altura da maturidade da vida que "amigos" verdadeiros, são escassos! Acumular amigos numericamente nas redes sociais... não nos completam mesmo!
Abraço.

rosadaserra disse...

Que delicadeza, Eduardo!

Excelente reflexão acerca dos meios de de comunicação, as relações humanas e tantos outros assuntos que tocam nossa alma.
Abraço, amigo.

Andreza Gonçalves disse...

Parabéns pelo artigo Eduardo belo e realistas !
Como podem esquecer de algo tão real e concreto como cartas. ..
Sei que é meio complicado mas eu já pensei em mandar cartas "secretas" para algumas casas de desconhecidos, eu queria sentir a mesma sensação que as pessoas no passado sentiam é uma pena eu não ter vivido essa época..
Fico imaginando a sensação de abrir o correio e deparar com uma carta!