quinta-feira, 26 de março de 2015

Do baú (*)


(Imagem: Pinterest, do álbum de Diane Aldrich / kamelonz.com)

Há 35 anos era realizada, no Congresso Nacional, uma sessão em homenagem aos 20 anos de criação da Petrobras. Este autor estava lá, na condição de repórter do Jornal do Brasil. O presidente da estatal, almirante Floriano Peixoto Faria Lima, fez então breve discurso, no qual definiu a empresa "financeira e economicamente viável; obstinada na busca de resultados sempre melhores; austera na conduta; agressiva, quando o curso da ação exige essa faculdade; flexível, pela descentralização responsável de suas atividades". E encerrava o preâmbulo de seu pronunciamento afirmando que a Petrobrás haveria "de superar os novos desafios" que o futuro lhe reservava.
Representando os dois partidos políticos da época, Aliança Renovadora Nacional (Arena) e Movimento Democrático Brasileiro (MDB), falaram, pelo primeiro, o senador Arnon de Melo e o deputado José Machado; pelo segundo, o senador Adalberto Sena e o deputado Marcelo Medeiros. Os oradores exaltaram a estatal a cuja homenagem, com duração de exatas duas horas, compareceram os ex-presidentes da Petrobras, os generais Juracy Magalhães, Janari Nunes e Candal da Fonseca (então chefe do Estado Maior das Forças Armadas); os marechais Adhemar de Queiroz e Levy Cardoso, e os civis Irnack do Amaral e Geonisio Barroso. Presidia a sessão conjunta o senador Paulo Torres. Nenhum ministro de Estado da época compareceu à solenidade.
A lembrança vem a propósito de notícia publicada no jornal britânico Financial Times, a respeito da instalação de Comissão Parlamentar de Inquérito – CPI para investigar a empresa. Segundo o diário inglês, a investigação de denúncias de "fraudes em concorrências para obras em plataformas de petróleo, irregularidades em contratos de construção, superfaturamento na construção de uma refinaria, desvio de royalties, a suposta evasão de R$ 4,3 bilhões em impostos e irregularidades orçamentárias", pode "dificultar os esforços do governo brasileiro para regular a exploração das vastas novas reservas de petróleo do país".
Surpreendentes criaturas – nós, os seres humanos. Surpreendentes e indecifráveis. Vacilantes. Incertos. Possuidores de miséria maior que nossas incertezas, insistimos na crença de que nossas manipulações estão sob 'blindagem' - para usar a palavra exposta à corrosão da trama que assinala uma política menor. O que parece dificultar não apenas o curso da Petrobras, mas o avanço de qualquer sociedade de maneira geral, é a prática de manipulação da mídia, da opinião pública, dos partidos, em favor de interesses nem sempre confessáveis. Fazer da estatal um instrumento para cartadas políticas, dificulta e ameaça. Enfraquece. Corrói. Governar tem sido muito mais adaptar-se, amoldar-se, do que dirigir, exercer o governo.
Vale trazer ainda alguma palavra daquele pronunciamento do almirante Floriano Peixoto Faria Lima:
- Julgo, finalmente, que o justo e apropriado, nesta data, seria homenagear-se, não a Companhia, mas sim o Congresso Nacional, de cujo ato de vontade – soberano e renovador – a Petrobras é somente consequência.
Eis aí.
 (*) Publicado em Pretextos-elr em 22/07/2009

3 comentários:

Célia Rangel disse...

Hoje, como brasileira, envergonho-me ao ver meu país exposto nas manchetes mundiais como um país recoberto pela imoralidade da corrupção! "ORDEM E PROGRESSO" deveria ser retirado da nossa bandeira. E, nós brasileiros, demonstramos a nossa decadência moral e política na permissividade disso tudo. Seu texto, Eduardo, de 22/07/2009 é de uma atualidade marcante. O que mostra nossa acomodação em "nada politicamente correto"...
Abraço.

Mariangela do Lago Vieira disse...

Que ótimo texto Eduardo. Atualíssimo! Parabéns!
E para o nossos governantes... nota zero!
É com grande tristeza que deixo aqui registrada, a minha imensa indignação.
Abraços!
Mariangela

E.P. GHERAMER disse...

O tempo passa e as coisas não passam com ele - as acompanham.
Um grande abraço, Eduardo!