domingo, 15 de março de 2015

Amor declarado

(Imagem: Le DiscoLemon)

Em qualquer lugar onde fosse possível escrever usando lápis, caneta, giz, carvão ou a ponta dos dedos, a Humanidade haveria de saber do amor eterno de Priscila por Ricardo. Pri ama Cacado - era o aviso, o recado de esperança aos corações velhos dessa multidão de coroas que tem espalhada pelo mundo. Todos descrentes do amor que sorri, acarinha, acompanha nos programas de fim de semana.

Cacado era mais que o colega de escola: era o amigo, o irmão, o confidente, o.... Melhor não especular, tentar enxergar um futuro que a sonhadora Priscila não conseguia ver muito além de sucesso, felicidade, alegria, compras no shopping e, claro, o Cacado. O vapor da água quente do chuveiro embaçava o espelho do banheiro? Lá aparecia logo um Pri ama Cacado e, abaixo, um coraçãozinho bem desenhado. Carro com poeira ou lama seca em seu caminho? Cimento fresco na calçada? O quadro na sala de aula limpo e sem ninguém por perto, na hora do recreio? Pri ama Cacado.

Tudo isso pelo lado dela, que nem ligava pelo fato de Ricardo não estar tão presente como gostaria - tão próximo, tão amigo, tão irmão, tão confidente. Duas ou três vezes tinham ido ao cinema, outras tantas a festas de aniversário da turma, onde Priscila aproveitara para deixar em guardanapos, blocos de anotações da casa e até em um imã de geladeira, a marca de sua paixão.

Mas tudo começou a mudar no dia em que Priscila surpreendeu a turma rindo dela na sala de aula. Dela e do que deixara escrito no quadro, antes do recreio. Confusa, só caiu em si quando lhe explicaram que a frase 'Pri ama Cacado' compreendia um cacófato - amacacado, com jeito de macaco. Qual palavra seria mais ridícula - cacófato ou amacacado? Priscila então resolveu mudar. Treinou a tarde toda nas folhas de seu fichário escolar: Priscila ama Ricardo, Pri ama Ricardo, Pri ama Ric...Nada bom, tudo muito certinho. Parecia coisa de apaixonado velho e bobo. Foi quando ouviu da apresentadora na TV que era preciso "que nós mulheres nos amemos, nos gostemos". Uma exortação definitiva ao amor universal, sempre nas mãos e nos corações das mulheres.

A revelação coincidiu com a descoberta de que Ricardo já estava em outra, atrás de uma garota horrível, sem graça, cujo nome ela nem queria saber. Nem assim, pensou, desistiria de seus recados. Ela se amava, como havia recomendado a apresentadora. Além disso, era verdade que o Cacado ainda mexia com ela, mas pra que deixar que ele e os outros percebessem?

No dia seguinte – um novo dia para uma nova mulher – a frase apareceu bem desenhada no espelho do banheiro:

“Eu amo a gente”.

(Repost)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Vende-se "amor" tão facilmente, hein... principalmente nessa idade... Faz-se verdadeiros leilões, sem compradores... Isso é o pior!
Abraço.

Mariangela do Lago Vieira disse...

É tão triste amores assim!
Uma pena...
Abraços!