sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O competidor


(Imagem: Pinterest / etsy.com, do álbum de Blue Baldur Streetwear)

O ex-zé-ninguém e agora combativo Josué Pilunga Freitas sentia-se um novo homem, de espírito renovado e autoestima altíssima. A caminho de casa, concluíra pela mudança depois de assistir a palestra dirigida aos novos vendedores da firma produtora de pasta para limpeza pesada de pisos e cerâmicas. “Eu sou e serei um vencedor sempre!”– era o lema a que todos deveriam aderir daí em diante. Lema, não: palavra de ordem.

Que exemplos extraordinários de conquistas e superação relatados pelo palestrante – homem fluente e convincente! Em relação à vida e ao mundo, vencer era, basicamente, uma questão de ponto-de-vista. Se Você se sente um vencedor quando toca os pés no chão ao levantar-se a cada manhã, então a vitória está praticamente ao alcance de suas mãos. É só dar mais alguns passos de vendedor para se tornar um vencedor. Quase tão simples quanto trocar um d por um c.

“Eu sou e serei um vencedor sempre”. À frase, repetidas tantas vezes quantas o candidato achasse necessário, se deveria juntar um gesto significativo da vitória plena: uma espécie de soco no ar. Porém um soco contido, elevando-se o punho direito só até a altura do ombro. Aqui, o então candidato a vencedor relembrou dúvida apresentada pelo colega Fred Tamborim, que perguntara ao palestrante se o gesto de vitória poderia ser acompanhado de um grito de “u-hu”, ainda que em voz baixa. Não havendo exageros ou inconveniências, o complemento apenas reforçaria a autoestima do vitorioso – respondera o consultor. Portanto, nenhuma objeção.

Seguia assim distraído o Pilunga, quando sua atenção foi despertada pelos passos de alguém cujas botinas rangiam de forma surpreendente. O transeunte andou lado a lado com o inexperiente vencedor por alguns metros. Este, levantando os olhos, deu com uma cara cuja barba por fazer emoldurava um olhar dissimulado e um sorriso que lhe pareceu sarcástico. “Isto é provocação”, deduziu logo a versão atualizada de Josué Pilunga Freitas. E tratou de acelerar levemente os passos, de maneira a deixar o outro para trás.

E foi o que aconteceu. Mas o par de botinas continuava rangendo e sinalizando proximidade, deixando o Pilunga em risco de ser ultrapassado sem muito esforço. Talvez fosse mais conveniente apertar as passadas e ganhar distância do perdedor, antes de selar aquela conquista com o gesto de vitória plena.

“Eu sou e serei um vencedor sempre!’ – rezava o vendedor da pasta para limpeza pesada. Punhos fechados, ia a passos largos e firmes, ora desviando-se de um camelô, ora interpondo entre o perseguidor e ele uma senhora que empurrava um carrinho de bebê, uma velhota indecisa ou um casal de namorados que discutia a relação. Porém nada fora ainda suficiente para aumentar a distância entre ele e aquele par de botinas rangedoras, que soavam muito próximas. Tão próximas que se emparelharam novamente com um Pilunga, agora mais determinado a não permitir ser ultrapassado.

Providencialmente, o semáforo de pedestres fechou. Parados lado a lado, os competidores fingiam olhar em todas as direções, mas na verdade vigiavam-se com o rabo de olho. Considerando-se um vencedor, Pilunga media com o olhar a distância até o outro lado da avenida, estudando o fluxo de pedestres.

Acesa a luz verde, foi dada a largada. Até alcançar o outro lado, Josué Pilunga Freitas manteve-se em modesta dianteira. Um vendedor de amendoim torrado bloqueou-lhe então a passagem, permitindo ao transeunte das botinas ultrapassá-lo. Este, por sua vez, deixou escapar das mãos uma sacola com laranjas.

Benditas laranjas! Num salto exagerado para transpor pequena canaleta na calçada, nosso herói avançou na dianteira do competidor que, já refeito do incidente, retomara a perseguição.

Pilunga pressentia a derrota. Até que teve a ideia de virar a esquina, saindo de seu trajeto original. O outro não saberia que a mudança de rota, na verdade, era uma espécie de fuga. Ou – pior – o reconhecimento do fracasso. Mas o perseguidor continuou atrás dele.

Os dois já quase corriam, quando um guarda de trânsito cortou-lhes a frente, indo em direção a um cego parado junto ao meio-fio. Deu-se então o choque que derrubou os três, lançou longe as laranjas do sujeito de botinas rangedoras, mais os óculos de sol do Pilunga. Que, não tendo nascido para perder, foi o primeiro a se pôr de pé. Murmurou um pedido de desculpas, resgatou seu par de óculos e tratou de seguir em frente.

Antes, levantou o punho à altura dos ombros e gritou um “u-hu”, mas o barulho ensurdecedor de um caminhão não deixou ninguém ouvir.

(Repost - Reeditado)

4 comentários:

Celia De Nobrega Lamelza disse...

Gostei. Cada um é vencedor em si.

O mundo assim o enxergue, ou não.

bjs

Unknown disse...

Boa tarde Eduardo,A palestra havia mesmo influenciado o vendedor de produtos de limpeza. Graça e paz.

Célia Rangel disse...

"Ser vencedor"... depende das estratégias elaboradas e dos competidores... Nem sempre vale o risco! Muitas vezes vencemos nos bastidores da competição!
Abraço.

pensandoemfamilia disse...

Nem sempre ser vencedor é chegar na frente. Penso que vencedor é quem consegue reconhecer seu próprio valor e não se abater com as criticas perniciosas.
Abços.