quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Companheiro


(Imagem: Flickr, do álbum de TJ Scott)

Escalada relativamente longa, a daquela montanha. Obstáculo acidentado, enfrentado em dias raramente azuis.

Olhar fixo no alto, a moça subia devagar. Gotas de chuva umedeciam-lhe os olhos, porque havia chuva e havia frio. Não ia só. Em algum momento surgira-lhe um cão de ar aristocrático, olhos vigilantes e raros latidos. Nada de rabos abanando ou lambidas na cara de sua dona. O cão olhava à frente com olhos de cão, e até que surgisse, apenas sonhos tomavam a atenção da moça. Sonhos não latem e nem lambem o dedão do pé da gente, ela refletiria mais tarde. Mas também não são fiéis.

Ambos avançavam pela encosta, ansiosos por descobrir o outro lado. A esperança puxava a moça, a fidelidade empurrava o cão. Alegrias de outros tempos ecoavam risos lá embaixo, onde tudo começara. Para ouvi-los, bastaria voltar-se um pouco.

Os dois seguiam em frente, ofegantes. Às indagações de olhos e orelhas do cão, a moça respondia com afago sério e contido. Solidário, o companheiro de escalada apontava o focinho úmido para o topo, apurando o faro. Chovia muito quando o cão silenciou.

A brisa do tempo enxugaria o rosto da moça, e só então ela pressentiria que, chegando lá em cima, finalmente abriria um sorriso.

(Texto publicado  em "A Idade da maçã". Para adquirir o livro, entre em contato.)

3 comentários:

E.P. GHERAMER disse...

Bom dia Eduardo.
Como são importantes a Esperança e a Fidelidade, quando se fazem presentes em nosso Caminho, durante a jornada da Vida.
Parabéns, Eduardo.
Obrigado por compartilhar este singelo texto de seu livro, "A Idade da maçã".

lidacoelho disse...

Escrita leve, graciosa e com um ar de segredo. As orelhas do cão e o focinho apontam o cimo da montanha.
Tenho de agradecer estes momentos de prazer

Célia Rangel disse...

Sua narrativa, Eduardo, nos faz escalar a montanha com a segurança e a persistência de uma companhia fiel diante dos nossos objetivos de vida. Excelente!
Abraço.