terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

A arma da besta


(Imagem: Pinterest, do álbum de Edie Surtees)

Envolvidos com o turbilhão de opções, exigências, informações, desejos, necessidades e apelos que nos cercam, seguimos a cada dia em direção à silhueta de um futuro que, desejado sorridente, se insinua sombrio. Desatentos, passamos ao largo de realidades cujas conseqüências corremos o risco de ter irreversíveis.
A violência e suas variações, tanto mais cruéis quanto rotineiras, é um desses horrores que, com indiferença cada vez maior, vemos embarcar em nosso cotidiano. Aqui, o destaque é a marca – acima do padrão internacional – que detém o Brasil, relacionada ao assassinato de mulheres. A média registrada na última década, segundo divulga a imprensa, é de dez mulheres mortas a cada dia. À nossa frente, apenas África do Sul e Colômbia.
A pesquisa aborda somente ocorrências de assassinatos no País – a maior parte por motivos torpes, como negativas de fazer sexo ou de manter um relacionamento. Não aborda, assim, outras formas de crueldade, a exemplo da mutilação de mulheres e meninas em muitas partes do mundo. Como o da extirpação do clitóris e do afivelamento ou simples costura dos genitais femininos (prática denominada infibulação) como forma de sufocar a sexualidade. Há sinais de que essa barbaridade ocorra até em regiões da Europa e dos Estados Unidos.
Apesar dos esforços da Ciência para entender, e das leis para manter sob controle a violência humana, fatos parecem denunciar o revigoramento da tal besta que trazemos conosco e que já consegue agir, com surpreendente desenvoltura, contra nossa própria gente. E se aumentam as formas de violência contra a mulher – no caso dos homicídios no Brasil, praticados geralmente por antigos maridos, namorados ou companheiros inconformados em 'perder o domínio' sobre elas – então será mais fácil entender a violência contra os filhos, e destes contra os pais, avós, etc.
Já foi dito aqui que a crueldade de que deveríamos nos envergonhar – praticada também contra os animais e a natureza – acaba virando argumento para o cinema e a literatura. Sabe-se que seriado exibido em emissora de TV a cabo explorava, em escala de 22 níveis, as piores formas de alguém praticar o mal contra seu semelhante.
Cambaleantes sobre a pilha de valores arruinados aleatoriamente, tratamos agora de avançar sobre nossos iguais, na ânsia de satisfazer ambições. Apesar de, no caso do assassinato de mulheres, crianças e idosos, não ser exatamente a ambição o que faz agir a besta, mas a pior das armas: a covardia.
(Repost – Reeditado)

6 comentários:

Célia Rangel disse...

Submissão. Fragilidade. Covardia. Eis as armas que imperam sobre o tido "sexo frágil"... Há muitos belos discursos protetores, teorização, mas na prática as "leis" nunca funcionam. Educação para os valores com nossos iguais, pelo menos, urgente!
Abraço.

Unknown disse...

Boa tarde Eduardo,O machismo covarde e o sadismo leva-se à uma situação como essa,que você relatou.A mulher é mais frágil fisicamente do que o homem. Alguns tiram uma jovem da casa de seus pais não para constituir uma família mas para maltratá-la. Um absurdo! Graça e paz. Dilma.

Lucélia Muniz França disse...

Infelizmente o combustível para muitas dessas atrocidades é a impunidade! E isso alimenta às ações criminosas de muitos! Infelizmente!
http://www.luceliamuniz.blogspot.com.br/

Mariangela do Lago Vieira disse...

Boa dia Eduardo.

Postagens maravilhosas e verdadeiras!
Infelizmente as atrocidades estão por ai...Sinto-me perplexa diante de tanta covardia. Está na hora da educação ser priorizada em todos os meios.
Abraço.
Mariangela

Elvira Carvalho disse...

Absolutamente de acordo. E me pergunto se não somos nós, pais, avós, e educadores, os culpados do rumo que a humanidade está tomando.
Um abraço e bom fim de semana

Celia De Nobrega Lamelza disse...

Muito bom texto.
No mês que se comemora o dia internacional da Mulher.
Sou grata por sua sensibilidade...

Copiei e compartilhei no meu TL do face.

Um grande abraço.