sábado, 24 de janeiro de 2015

Sem mea-culpa

(Imagem: Google / Pando Daily)

Enquanto aguardava atendimento em uma das quatro (em quinze ou vinte) mesas da operadora de telefonia campeã absoluta de reclamações nos Procon's, vi na tevê que o noticiário dava continuidade à rotina de massacre a que tem se dedicado com empenho a mídia nacional: a questão da (falta de) água, a do fornecimento de energia elétrica intercalado com apagões, a do arrocho nos impostos, a da cloaca pulsante onde os casos de malversação do dinheiro público estão em permanente ebulição, a da violência das ruas...
Amparando-se em uma bengala, um idoso se exaspera no balcão de atendimento da operadora e diz à recepcionista que, enquanto tentava sobreviver num hospital com um tubo de oxigênio enfiado no nariz, seu celular recebia mensagens, graças aos recursos de acesso à internet que ele jamais contratara. E pede, inutilmente, respeito sobretudo aos idosos, vítimas desse e de outros tipos de cruel e impune exploração.
Volto ao monitor de tevê, onde especialistas continuam a dar dicas para economizar água no chuveiro, na hora de fazer a barba e de lavar as vasilhas na cozinha. Então me pergunto se não há algo errado nesse cenário, onde a sobrecarga vai sendo visivelmente posta sobre os ombros da população, no que parece a tentativa de atribuir a ela não apenas ‘a culpa’, mas também o ônus pelos estragos. Tudo emoldurado com traços do mais descarado cinismo.
Dia desses, um especialista no assunto advertia para o fato de que a maior demanda de recursos hídricos, antes do abastecimento às pessoas, acontece para suprir a atividade do setor de mineração, e em seguida o de irrigação. Considere-se também o que só agora tem merecido alguma ênfase nos noticiários: o estado precário de boa parte da rede pública, resultando daí um extraordinário desperdício pela falta de manutenção regular e administrada com competência.
Mesmo que esses argumentos sejam recorrentes, o tom do noticiário e dos silêncios é de severa advertência, com o poder público de dedo em riste para o cidadão, que só recebe afagos em instantes pré-eleitorais. Pergunto-me ainda por que a autoridade que convoca rede nacional para anunciar 'benesses', escapa das câmeras quando se faz necessário assumir o que lhe é desfavorável. (Em meio a tantas dúvidas, dou com artigo publicado em jornal de São Paulo, onde o autor igualmente faz referência aos silêncios oficiais e cita, como exemplo “de franqueza e abertura na hora correta do embate”, o ex-Primeiro-ministro britânico Winston Churchill. “Dissimulado como todos os políticos na lida cotidiana, ele não negou fogo quando preciso”, escreveu Igor Gielow).
O dedo que aponta para o cidadão ficaria melhor se unido aos demais para, com o punho cerrado, bater antes no próprio peito em atitude de mea-culpa. A chamada à sociedade é oportuna sobretudo por seu aspecto didático, mas acaba valendo nada quando não há o proverbial ‘bom exemplo que vem de cima’.
Tudo leva a crer que o pano de fundo de toda essa tragédia seja mesmo a longuíssima entressafra de autênticas lideranças, há muito substituídas pelos produtos do marketing político.
Essa, no entanto, já é uma outra história. 

3 comentários:

E.P. GHERAMER disse...

Meu caro Eduardo.
Esta sobrecarga "posta sobre os ombros da população", assemelha-se a tantas outras tal como o Combate à Dengue, o buraco na camada de ozônio e tantas outras mazelas. Sem duvida você abordou todos os aspéctos visíveis de tais cargas. Fico a pensar, também, no uso que elas têm no sentido de manter a população ocupada, e, asssim, desviar sua atenção para assuntos que, se não são mais importantes, envolvem também a pessoa, como indivíduo que é, na limitação do uso de seu intelecto, tornando-o um mero pião do xadrez, que se move daqui para ali, sempre com o objetivo de proteger o Rei. Este úm grande jogo de xadrez, com uma diferença: tem mais de um Rei para proteger.
Parabéns pelo seu artigo.
Mais uma coisa: como estive ausente por dois dias da Comunidade, por culpa de uma gripe, ainda não sei se este texto foi ali postado. Se não o foi, tomo a liberdade de pedir que o faço. Mas, se não achar conveniente, fique à vontade para recusar ou aceitar este pedido.
Um grande abraço, Eduardo!

Célia Rangel disse...

... e ainda as "autoridades" têm a coragem de, cinicamente, pedirem orações pela chuva, pois Deus é brasileiro e, deverá nos dar uma ajuda! Oras, quanta blasfêmia! Um verdadeiro blefe às nossas mentes desde há muito poluídas por tanta desfaçatez! Acho que deveremos preparar nosso passaporte para a eternidade. Talvez lá ficaremos livres de rezarmos o "Confiteor"!
Abraço.

Artes e escritas disse...

Pensando bem, temos que reivindicar a isenção da mídia(o Ibope quem faz é a gente), o respeito aos idosos, a liberdade das religiões, a não opressão das diferentes correntes de opinião,o direito à privacidade em tempos de paz,etc. Aliás, está tudo escrito na Constituição Federal, temos que usar a CFB, recitando-a aos nossos concidadãos. Um abraço, Yayá.