segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O nome


(Imagem:
Pinterest, do álbum de Javiera Cabello)


Ah, o danado do arrasta-pé fazendo cócegas nos pesinhos de Marvília... Tirava a pobre coitada do sério a qualquer momento que não estivesse na roça cavucando, colhendo, tratando da criação. A moça era só trabalho, forrobodó e sonhos o dia, a semana, o mês... O ano inteiro.

De tanto reverenciar a dança e os sonhos, ambos, agradecidos, recompensaram-na com Valfredo – o príncipe-boiadeiro e forrozeiro da fazenda Porteira Verde, com quem se encontrava em qualquer baileco de fim de semana. De uma tarde tranquila de domingo ao altar, foi um nadinha. E logo Marvília exultou com a confirmação de que estava grávida do... da... do... Que nome dariam ao bebê?

- Sei não, Márvi. Gosto de Godofredo, que era o nome do meu avô... – arriscou o marido.

- Que é isso, Val? Nome mais feio... Rima com medo.

- Meu nome é Valfredo...

- Mas é diferente, Valzinho...

O tempo foi passando. Marvília acariciava a barriga pelo bebê e, às vezes, pelos desejos incomuns e insatisfeitos. Mas era calçar as sandálias ao levantar-se ainda na madrugada, para calçar junto o arrasta-pé. Cantarolava, ensaiava uns passinhos à beira do fogão, sonhava com Carlinhos de Jesus todo de branco, sorrisão na cara, sambando com ela.

Chegou o dia marcado para uma ultrassonografia. Curiosidade mesmo em saber o sexo da criança, Marvília não tinha. Fosse menino ou menina, era benção do mesmo jeito. Valfredo é que torcia por um futuro vaqueiro, valente e pé-de-valsa como ele.

Na antessala do Dr. Rangel, Marvília aguardava a vez de ser atendida, enquanto via na tela da tevê um mundo irreal, estranho e longínquo – aquele lado da vida de que ela era, no máximo, uma espectadora de rápidas e eventuais espiadas. Não era só desinteresse; era também receio e desconforto em lidar com esquisitices como praia, multidão, moda e governo. Ainda assim, foi inevitável não se espantar e se emocionar com um oceano de gente em não se lembrava onde, todo mundo nas ruas por causa de uns moços do jornal que foram assassinados.

De volta à casa, Marvília deu com o marido escorado na porteira, chapéu na mão e cigarro de palha no canto da boca. 

- E aí, Márvi? É moleque ou moleca?

Ainda chocada com as cenas que vira na tevê, Marvília foi logo dizendo que se sua avó fosse viva, ia antever para já o fim do mundo.

- Nunca vi tanta gente junta por causa de um tal atentado...

Com toda a atenção na barriga da mulher, Valfredo não ouvia nada.

- É moleque ou moleca, Márvi?

Aterrissando na segurança do seu pedacinho de chão, Marvília anunciou:

- É menino home, Valzinho. Vai dançar igual o Carlinhos... Até já escolhi o nome.

- Benza Deus!

- Vai se chamar Jesuis Charli.

7 comentários:

E.P. GHERAMER disse...

É um outro mundo mesmo. Melhor Márvi e Valzinho continuarem no forrobodó e sonhando... Vem pra cidade grande não!
E viva a ignorância incosnciente!!!
Grande abraço, Eduardo!

Célia Rangel disse...

Ô meu "Jesuizinho Charli"... muita risada por aqui! Como é bom ignorarmos certos acontecimentos... Nada como a segurança do "nosso pedacinho de chão", responsável!
Abraço, Eduardo!

Teresinha Xavier Santana disse...

Amei, achei muito interessante.

Abraço amigo.

Rita Lavoyer disse...

Bem nordestino, com respeito a este povo. Viva Jééésuis!

Lúcia disse...

Uma crônica "pai d'égua" meu caro Resende. Mas, quando quando li um comentário dizendo que isso é coisa de nordestino, fiquei indignada!Ignorância, tem em toda parte...

Unknown disse...

Boa tarde Eduardo, Achei o texto bem interessante. Pessoas assim,se ainda existem no mundo real,são felizes.Não devem ter estresse e nem deprê. Graça e paz,Dilma.

LITERATURAJOC JUIDSON disse...

Muito engraçado. Tudo combinou desde o começo, com desfecho sensacional. Belo conto.