domingo, 4 de janeiro de 2015

O especialista

(Imagem: Pinterest, do álbum de Ricardas Gelzinis

Para dona Cilinha, morar na roça tinha suas desvantagens. Uma delas era a de ter prolongada a viuvez. Bastava pensar nisso para lembrar-se da bobagem que dissera ao padre Arhur, quando o ouviu queixar-se certa vez do calor. Desconhecendo o significado da palavra, afirmara-lhe que ali nos Cocos era assim mesmo: muito quente no climatério.
Agora, vantagem mesmo de morar ali era ter que buscar em Santana a cura que não se conseguia pelos remédios caseiros. E isto dona Cilinha ia fazer na companhia de Rosária, a neta de 13 anos: dariam um pulo até a cidade, onde ela resolveria problema de dor nas pernas e fraqueza de visão.
- Vou no calista – disse à filha. – Tô enxergando tudo embaralhado.
- Né o calista não, mãe. É o oculista.
- Tá, ooculista... Vou no ooculista e depois no médico das pernas.
- Oculista, mãe...
Era ainda cedo quando a velha e a neta desembarcaram na rodoviária de Santana. Mal haviam descido do ônibus, e um sujeito bem apessoado aproximou-se delas. Cumprimentou-as e logo quis saber o motivo de dona Cilinha estar mancando. Era unha encravada?
- Né não, é dor nas pernas. O senhor é médico?
- Sou só um pesquisador... – e o homem fez uma reverência leve com a cabeça.
Se havia coisa que dona Cilinha gostava era de gente humilde, sem nariz em pé. Foi com a cara do sujeito: educado, humilde, pesquisador...
- A senhora, por favor, fique com o meu cartão. Se puder faça visita ao meu laboratório. Posso ter o remédio pra sua cura.
Dona Cilinha (que já ia enfrentar fila no posto de saúde), ficou com o cartão e a impressão de que tirara a sorte grande.
- Uai, seu... seu...
- ...Prudêncio, dona...
- ...Ercília, mas todo mundo me chama de Cilinha.
- Prudêncio Costa, dona Cilinha. Estarei no laboratório à tarde, será um prazer recebê-la.
O pesquisador despediu-se da cliente e fez um afago no queixo da neta.
- Bonitão ele, né Rosária?
- Que é isso, vó? Ele é velho e fica passando a mão no queixo da gente... Gostei não.
Fizeram o que tinham que fazer. No consultório do oftalmologista, dona Cilinha pegou receita para óculos novos. E partiu em direção ao laboratório do especialista em dor nas pernas.
Por uma dessas extraordinárias coincidências, encontrou o homem à saída do prédio do oculista. Esquecera-se de que o informara sobre o compromisso, pedindo-lhe orientação de como chegar ao endereço do médico.
Puxando as mulheres para um canto, o especialista tirou do bolso um vidrinho dizendo que aquilo era a solução para acabar com a dor nas pernas. Só pequena quantidade, que ele tinha dose maior no laboratório. Dona Cilinha passasse lá mais tarde para pegar o restante da dose.
- Esse aqui é só cem.... – o homem disse, os olhos brilhando. A velha ensaiou comentário, mas foi interrompida.  
- Gostei da senhora... Faço o seguinte: a senhora me paga cem agora e passa lá no laboratório, que eu ofereço como cortesia o resto da receita.
Dinheiro na mão, o especialista agradeceu e sumiu.
Avó e neta comeram algo em botequim ali perto. Terminada a refeição, Rosária despejou num copo com água o conteúdo do vidrinho, exatamente como recomendara o doutor Prudêncio. A velha então virou na boca tudo de uma vez, e ainda não dera meia dúzia de passos quando percebeu que a dor nas pernas desaparecera.
- Gente, que remédio!... Vamos lá no doutor Prudêncio agora, pegar o outro vidro.
O endereço ficava no final de uma galeria escura. À entrada havia um carro de polícia e alguns curiosos amontoados na beira da calçada. Dona Cilinha e Rosária abordaram o zelador do prédio.
- Doutor Prudêncio... ele está? – perguntou a velha. O zelador fez cara de riso, e disse que o homem encontrava-se ‘em visita à delegacia’.
- Delegado passou aqui e levou ele, dona. O homem é um estelionatário.
Dona Cilinha sorriu satisfeita. Contou que já ia tomar o ônibus de volta pros Cocos, mas voltaria a Santana daí a uns dias para apanhar o resto do medicamento. O zelador fizesse a gentileza de transmitir esse recado ao doutor Prudêncio.
Já em casa, disse à filha que recomendaria o pesquisador a quem tivesse problema de dor nas pernas.
- Aquilo é que é estelionatário de mãos cheias, viu?

(Repost - Reeditado)

2 comentários:

Célia Rangel disse...

Pois então, meu caro Eduardo... haja "prudência" para não cairmos nas garras de "Senhores Prudêncios"... tantos convivendo à nossa volta, hein! Ilusões mentais que usurpam a ingenuidade do nosso povo!
Abraço de um Feliz 2015!

Rita Lavoyer disse...

Oi, Eduardo! Feliz 2015.
Quer saber, já fui uma dona Cilinha.
Dor nas pernas é algo terrível!Abração!