terça-feira, 13 de janeiro de 2015

'Midiocridade'

(Imagem: Pinterest, do álbum de Bronwin Porter)

Num dia qualquer de 2008, um grande jornal carioca deu destaque a matéria publicada em sua edição online, anunciando que casais poderiam conhecer o futuro de seus relacionamentos no Dia dos Namorados. Para isso, bastaria que procurassem quiosques montados entre os bairros de Copacabana e Leme, na Zona Sul do Rio, onde uma cigana, uma numeróloga, uma taróloga e um astrólogo estariam à disposição para 'ajudar os apaixonados a esquentar o namoro'.
Ainda à mesma época, outra notícia informava a curiosos e indecisos em relação ao amanhã, sobre a possibilidade de se 'desembrulhar' o futuro de cada um mediante pagamento de apenas 15 euros por vale correio. As revelações chegariam ao interessado por e-mail ou pelo próprio correio.
Transcorridos sete anos desde a disponibilização desses serviços, nada se conhece sobre consulentes e futurólogos daquela aventura. Sem qualquer repercussão de resultados, o anúncio público do futuro disponível no calçadão da Avenida Atlântica não foi além de mais uma 'novidade' com que se bombardeia o homem pós-moderno, alvo constante de vários megatons de informação inútil.
Os tempos são de comunicação farta e ruim, tanto em substância quanto na forma. Exceção feita a rara minoria que se preocupa com a qualidade do que é levado ao público, o que se vê são evidências de uma tragédia avassaladora nesse campo. Apura-se nada, fala-se mal e escreve-se pior ainda. Veículos de comunicação, antes zelosos pelo bom nível na apresentação de seu produto ao leitor (boa parte deles, inclusive, organizando e disponibilizando ao público seus então conceituados 'manuais de redação'), hoje se distanciam desse objetivo com a mesma velocidade com que se supervalorizam, trancando com excesso de cifrões seus sites na internet.
Houve um tempo no jornalismo em que a cobertura policial era a escola do repórter que sonhava em fazer carreira nas redações. As notícias policiais apareciam em quantidade moderada, não apenas porque tinham público leitor específico (prioridade de poucos tabloides sensacionalistas), mas também porque parecia haver maior controle da autoridade em relação à (in)segurança pública.
Tempos imemoráveis! Hoje, a carga dos meios de comunicação sobre o desorientado cidadão é brutal sob todos os aspectos – incluindo o gramatical. Do telejornalismo sensacionalista e sanguinolento então, nem se fale: um chato e inutilíssimo ‘embromation’, tanto pior quanto mais desprezíveis forem os índices de audiência da emissora.
Zygmunt Bauman nos situa na 'era da midiocridade e de fragmentos sonoros, e não de pensamentos', quando a atenção humana possivelmente seja, mesmo, a mais escassa (e disputada) das mercadorias.
Haja quiosques e muito foguetório para entreter uma sociedade aparentemente imobilizada em narcose suicida – tão sedutora às cabeças sempre em busca de razões para restringir a liberdade de expressão.

2 comentários:

E.P. GHERAMER disse...

Deu saudade do "Jornal do Brasil" impresso...
"midiocridade", não poderia haver outra melhor para definir os tempos atuais.
Parabéns, meu caro Eduardo, por sua lucidez! Ou deveria dizer 'dor da lucidez'?
Um grande e fraterno abraço!

Célia Rangel disse...

O extraverbal falou alto, meu caro Eduardo, corroborando com a qualidade de sua crônica sobre a enxurrada de "midiocridade" que invade nosso visual e auditivo.
Terrível é o momento de inversão de valores a que querem nos submeter. Deflagra-se uma absurda impotência intelectual.
Todos querem a maior fatia do bolo, mesmo com data de validade vencida!
Abraço.