domingo, 11 de janeiro de 2015

Eterno enquanto dure

(Imagem, Pinterest, do álbum de DevianArt)

A jovem acomodou-se em uma mesa de canto na lanchonete, pegou o celular e fez uma ligação.

- Saudade...

Começou aí uma conversa à meia voz, entremeada de risinhos. Relembrava momentos 'inesquecíveis', vividos durante um passeio no dia anterior. Até que o clima romântico terminou com um salto na cadeira, seguido de pergunta em tom que denotava surpresa:

- O quê? Eu?

Veio em seguida um sem-número de 'tá louco’, ‘quê-que-é-isso’ e ‘inacreditável’. Foram liberados também alguns ‘é complicado’.

- Quem te disse isso?

Soube que o denunciante fora o futuro sogro.

- Como é que seu pai pode ter certeza de que era eu? Impossível, eu só fui lá na pracinha e comi um cachorro-quente porque eu gosto...

Silêncio e olhos arregalados.

- Imagine... Como as pessoas são falsas e inventam coisas! Agora eu estou com o moral lá embaixo e nem fiz nada...

Não havia sinais de sofrimento, mas de leve indignação. Do outro lado da linha, o namorado insistia em que alguém testemunhara quando a moça, já madrugada alta, passara em frente à sua casa e dera "uma abaixadinha" para não ser vista.

- Abaixadinha? Eu? Nunca vi tanta falsidade! Essa gente cria, inventa porque é invejosa, sei lá...

Decidida a não conceder mais apartes, a injustiçada passou a enfileirar argumentos e testemunhos, lembrando e relembrando promessas antigas. Meteu a mão na bolsa, de onde retirou uma penca de chaves, passando a agitá-las no ar.

-Ué, mas você tem a chave do portão lá de casa, só não tem a da porta... Podia aparecer, tocar a campainha e ver que eu estava lá.

O tom de voz modificara-se, a fisionomia denunciava decisão.

- Quer saber de uma coisa? Vá trabalhar, melhor mesmo a gente dar um tempo. Eu, hein...

Antes que a garçonete lhe estendesse o cardápio, a moça levantou-se e foi saindo, apressada.

Na rua, fez sinal para um táxi e desapareceu no trânsito.

(Repost - Reeditado)

4 comentários:

Rita Lavoyer disse...

Nesta passagem em que estamos, eternos serão apenas os nossos pais e os nossos filhos que não poderemos negar que são nossos, se assim nos registraram e os registramos. Isso não há como negar, apesar de alguns que compõem as partes tentarem anular a outra.
Do mais,até a garrafa pet, depois de séculos e séculos consegue desintegrar-se, quanto mais o efêmero.

E.P. GHERAMER disse...

Impagável!
Eu estava lá na lanchonete e vi e ouvi toda a conversa... enquanto eu ria de morrer!
Grande Eduardo!

Célia Rangel disse...

Essa versão "Eduardo/2015" com blog renovado em cores e letras...com assuntos bem divertidos que nos prendem a atenção está nota dez! E, a garota da crônica é das minhas: - ou confia ou cai fora! Gostei da reação da mesma! Afinal, humano- propriedade... já era!
Abraço.

Celia De Nobrega Lamelza disse...

Gostei do tom como desenvolveu sua crônica.

Sua personagem é minha cara! Decidida. hahah

bjs