terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Bala de uva

(Imagem: Pinterest / Kimberly McCarty)


As circunstâncias puseram diante de Gabriel, com apenas três anos de idade, um Papai Noel sobrevivente da onda de desemprego que afastou das ruas e das lojas uma razoável quantidade de 'bons velhinhos'.

Precedida de necessária troca de acenos à distância, a aproximação rendeu à criança uma bala de uva, firmemente retida nas mãozinhas. Além disso, nenhum pedido com ênfase em meio a murmúrios quase inaudíveis, mas a eloquência de um olhar que perscrutava cada ruga do rosto e cada detalhe dos óculos, do gorro e da barba de um Papai Noel que fazia perguntas demais.

Gabriel carregou a bala de uva como quem carrega um tesouro inestimável. Longe de degustá-la, como era de se esperar, foi dormir com ela entre as mãos. No dia seguinte guardou-a cuidadosamente, junto com outras delícias, em seu baú no formato de uma bola de futebol.

Pode ter sido aquele o primeiro tesouro eleito por uma criança para quem a vida é doce como uma bala de uva. Sobretudo quando ela vem das mãos mágicas de um personagem que é pai de todo mundo.

Na Inglaterra, com o dobro da idade de Gabriel, um cidadão registrou seus pedidos em carta a Papai Noel em pleno tempo de guerra: David Haylock queria uma caixa de giz, soldadinhos de chumbo e uma gravata. Hoje, aos 78 anos, a então criança de seis recebeu das mãos dos pedreiros que reformavam a casa em que ele morara, não só a carta encontrada na chaminé, mas também os presentes com que sonhara.

Costumam ser simples assim, os sonhos que a pureza acalenta. Amadurecidos pelo conhecimento e experiência, deixam para trás, no correr da vida, a doçura de uma bala de uva, antes de se realizarem na plenitude do possível.

É este, afinal, o desejo do autor de Pretextos-elr aos seus leitores no novo ano que começa.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Leitor Feliz

(Imagem: Pinterest)



Lá vem chegando o Natal, com suas compulsórias luzes municipais estendidas aqui e ali, esmaecidas pelos déficits nas contas públicas e pela inexistência de patrocinadores. No comércio, alguma cor tinge o sorriso amarelo de vendedores repletos de expectativas que se realizam preguiçosamente.
À porta de um armarinho, uma fantasia ordinária de Papai Noel veste manequim com jeitão de quem anuncia calça de tergal e camisa volta-ao-mundo. Cara de anos 60, parcialmente coberta por mal arranjada barba. Na falta de enchimento adequado a uma barriga proporcional, alguém enfiou pela cabeça do falso velhinho uma caixa de papelão, dando-lhe assim um abdome quadrado.
As calçadas se repovoam de olhares e mãos adestrados tanto ao peditório quanto à rapinagem. Nos edifícios, proliferam listas arrecadatórias para o Natal do porteiro, da faxineira e do lixeiro. Este, aliás, já se defende historicamente aos gritos, assobios e buzinadas na medida em que o mês de Dezembro avança para seu final. Nos balcões do comércio, pululam as caixinhas de coleta de trôco e de não-trôco.
Pela mídia, o Natal chega cenográfico, tantas vezes cheio de pieguice e de promoções. Aparece nos votos gelados e formais que antecedem concorridos banquetes corporativos para celebrar a ocasião e selar compromissos futuros.
O Natal também dá o tom no arranjo decorativo desfeito pela tragédia que interrompe natais, embala sonhos infantis de querer, e dispara o humano e deturpado dever de consumir.
Lá vem chegando o Natal, que não esconde nossas chagas diárias de malquerer – antes colocam-nas em destaque na falsidade dos discursos e das promessas, no afanar das esperanças tardias e na condenação, pela mentira, dos pobres a mais pobreza. Uma pobreza que ofende e que clama incessantemente por justiça.
Não é esse Natal que desejo ao leitor, mas o Natal verdadeiro, de Luz e de Esperança verdadeiras que redimem, aquecem e alegram o coração que crê em um futuro de Paz.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Telefone

(Imagem: Pinterest / Andrin Dobler)

Estou voltando para o campo de onde eu vim / deixo mágoas, levo sonhos e a saudade... – Altimar cantarolou quando a porta do elevador se fechou. – Minha mulher falou que isso é nostálgico, mas eu não ligo não. Sabe por que, doutor? Porque saudade e sonho não se separam da gente enquanto a gente vive. Já as mágoas, se a gente quiser, pode deixá-las para trás...
Ele estava certo. Mas, e quanto a voltar para o campo?
- Isso também é verdade... (Pois não, senhora: o laboratório? É no quarto andar... Doutor Vicente, advogado? Oitavo.) – Sobe...
Adiei o diálogo até desembarcar no vigésimo-terceiro. Altimar criara os filhos trabalhando duro como ferroviário. Aposentado, virara ascensorista.
- É como eu dizia, doutor: os filhos estão independentes e moram longe. A mulher quer voltar para a roça, eu também.
Percebi nos olhos do ex-ferroviário a nostalgia que inspiram os trilhos de um trem.
- A vida por aqui anda difícil. Nasci lá no Sagrado, e é para lá que estou voltando. Lugar pobrezinho, distrito de Senhora do Desterro. Ainda tem sossego por lá, e também gente boa e solidária. Gente que tem compaixão da gente – é isso, doutor!
Sem saber o que dizer, levei o assunto para o futebol:
- E o nosso tricolor, Altimar? Será que agora vai?
- Sei não, doutor, nem futebol está prestando mais. A gente cresceu torcendo fosse por time grande ou pequeno. E quando perdia, os adversários faziam piada e tal. E tudo ficava por isso mesmo. Hoje, se perde ou se ganha dá briga e até morte. A seleção faz feio e é um chororô danado, vira um dramalhão... Parece fim de mundo.
Concordei ainda. Altimar ajeitou o boné e, com sorriso meio tímido, pediu licença para voltar ao serviço.
Tomei a direção do escritório, enquanto a voz daquele homem correto e simples seguia comigo, evocando a compaixão do povo de Sagrado. A miséria humana que nos une, queiramos ou não, também pode impedir que sejamos fraternos na mútua e necessária compaixão. Ocorreram-me então versos do poeta persa: Eu não me canso de ti / não se canse de ter compaixão de mim!
Meti a chave na porta, iniciando assim mais um dia de trabalho. No momento exato em que o telefone começava a tocar.

(Repost - Editado)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Noel, Noel...

(Imagem: Pinterest)

Acima da multidão que transitava pelo centro da cidade, movimentava-se também uma árvore de Natal em dourado e adornada com laços, bolas, brilhos e cores. Um braço forte erguia o arranjo acima das cabeças.
Levando nos olhos o brilho do Natal, um menino acompanhava a árvore agarrado à fralda da camisa do dono do braço. Este, por sua vez, seguia a passos rápidos, abrindo caminho com muitos 'licencinha' e advertindo os distraídos para 'o pesado'. Na outra mão, levava um saco vermelho cheio de pacotes.
- Pai, vai ter presente pra mim?
- Vai sim, filho, mas só na noite do Natal. Papai Noel vai levar.
- E esses aí do saco?
- Esses eu vou levar pro Noel, que ele vai distribuir lá onde ele mora...
E o homem seguia arrastando o menino e seus sonhos. Até que ambos pararam ao lado de uma velha Kombi, cuja porta o homem abriu e por onde enfiou a árvore. Em seguida, tirou do saco de pacotes uma caixa embrulhada em papel colorido e amarrada com fita.
- Esse presente aqui eu dou pra V. agora, filho. Espera aqui na calçada, que o pai vai fazer funcionar a Kombi.
Rapidamente o homem conseguiu braços solidários que empurraram o veículo. Uma nuvem de fumaça branca envolveu a todos quando o motor deu a partida. Cabeça para fora da janela, o motorista acenou agradecendo e almejando feliz Natal aos braços solidários. Arrancou e desapareceu.
Enquanto isso, na calçada o menino era abordado por um guarda de trânsito e uma gorda agitadíssima. O policial falou primeiro:
- Menino, cadê seu pai?
- Ele morreu.
- Morreu? – perguntou a mulher, indignada. – Não foi ele quem saiu ali naquela Kombi?
- Não senhora – respondeu o garoto. – Aquele homem eu nunca vi, ele só pediu pra eu vir com ele até o carro, chamando ele de pai. E que aqui eu ia ganhar um presente, mas me deu foi essa caixa vazia...
- Bandido! – desabafou a mulher. – Roubou os arranjos de Natal do shopping e ainda mentiu pra essa criança...
Vendo que fechavam um círculo em sua volta, o garoto deu um salto e também desapareceu no meio da multidão.
Na calçada ficou a caixa, enfeitada com laço de fita.
(Repost)

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Natalino Noel

(Imagem: Pinterest / Cherylann)

Agitando um sininho, Papai Noel transpirava horrores sob cruel figurino preenchido com a ajuda de almofadas. A longa barba postiça espetava, provocava coceiras e tinha cheiro de material sintético. Na cabeça dançavam lembranças e no coração, um tanto de tristeza. No bolso, necessidades.
O dono da loja fiscalizava a curta distância. De vez em quando cobrava do pobre Natalino Noel o impossível: um ho-ho-ho convincente e que ajudasse a esvaziar as prateleiras. Apesar do nome verdadeiro pra lá de sugestivo, além disso, de ter nascido num 25 de Dezembro, o personagem era jovem e magro.
Difícil celebrar com alegria aquele Natal de Cristo e dele próprio, Natalino Noel. Recém-casado, tivera um desentendimento com Marília (não a de Dirceu, a quem o poeta descrevera como uma cópia de Cupido e com quem tinha em comum apenas a flecha de uma paixão avassaladora que lhe atingira o peito). Aborrecida por uma bobagem qualquer, Marília de Natalino correra para o colo da mãe, deixando sozinho o marido apaixonado. Há duas semanas o casal não se falava – a não ser ele com ela para pedir que voltasse, e ela com ele para dizer ‘jamais’.
O calvário de Natalino seguia ao som de Jingle Bells, até que surgiu na calçada uma montanha de pacotes e sacolas que parou, voltou-se e gritou um “Lucaaas! Anda menino, que eu vou te deixar pra trás”. Depois retomou a caminhada, seguida por um quase nada de gente que carregava nas mãos um saco de pipocas, deixando boa parte delas pelo chão. Ao ver o Papai Noel, Lucas desviou-se do caminho atrás da mãe.
Natalino fez que não viu a criança. Olhando para lugar nenhum, agitava o sininho enquanto refletia, ingenuamente, no que teria feito aquele pirralho interessar-se por um Papai Noel sem graça, que fazia barulho em frente a uma loja de ferragens. Descontos de Natal para um chuveiro elétrico, fios e cabos, pregos ou ferramentas? Impossível.
O cidadão que parou diante da vitrine foi o pretexto de Natalino para, aproximando-se dele, induzir a criança a desistir da observação.
- Ho-ho-ho! – dirigiu-se Papai Noel ao desconfiado candidato a freguês.
Demonstrando tédio, o homem reagiu batendo em retirada. Foi aí que Natalino percebeu um leve puxão na perna da calça.
- Cadê os presentes que você dá?
- Eu não dou presentes, eu faço propaganda.
- Faz o quê?
- Eu vendo chuveiro, lâmpada, fio, ferramenta... Essas coisas – respondeu Natalino voltando-se para o interior da loja. Mas outra vez a criança puxou-lhe a perna da calça.
- Eu vou dar um presente pra você, viu? – e o menino esticou o braço, segurando uma pipoca na ponta dos dedos.
A oferta pegou Natalino Noel de surpresa. Sobretudo porque acabava de aparecer na calçada, esbaforida, a montanha de pacotes.
- Lucas! Ah, menino... Você me deixa doida! – queixou-se a mãe, que em seguida saiu puxando a criança pela mão.
Natalino Noel congelou o sorriso que ensaiava ao ver atravessar a rua, vindo em sua direção, ninguém menos que Marília. A moça o abraçou, segredando-lhe ao ouvido que ele ia ser papai.
- E, se for menino, quero que se chame Lucas – completou ela, pendurando-se no pescoço do marido em longo e emocionado beijo.
(Repost)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

A farsa e a lama

(Imagem: Pinterest / hative.com)

Renovar a esperança é exercício diário. Mais que exercício, é desafio. Acompanhar a marcha do tempo e dos acontecimentos é também pender entre o acostamento largo e sedutor do cansaço e o horizonte oculto pela incerteza.
Como que evocando a imagem bíblica do barro da criação, a lama que escorre desde a barragem que se rompeu na cidade mineira de Mariana é parte de outras torrentes que afloram na sociedade, a começar pelo ambiente político. Momentos tão inspiradores de repugnância talvez sejam raros na história recente do país, diante das proporções que assume a corrupção e a desfaçatez que dão as caras a cada minuto ou a cada página de noticiário.
A derrocada de valores que nos trouxeram até aqui sugere risco ao futuro pela falta de referências que ultrapassem a visão individualista, apesar dos discursos que alertam para o fato de que navegamos todos no mesmo barco. Na prática, a teoria é outra.
A imprensa publica sobre a realização recente, patrocinado por uma revista norte-americana, de um fórum de debates a respeito da sociedade de consumo. Discutiu-se na ocasião a sedução do luxo e da oneomania, ou o impulso de comprar o desnecessário. A par das 'razões estéticas e sensoriais' apontadas como também responsáveis por orientar nossas preferências, muito se empregou na ocasião o verbo sinalizar como sinônimo de exibir para despertar a admiração do possuidor. Ver ou sentir a desigualdade corrói mais o tecido social que a desigualdade em si, afirma um dos cientistas da Universidade de Yale e que participou daquele fórum.
Quando exemplos de ostentação partem de figuras públicas dos mais altos escalões, passam por lideranças e setores da sociedade como o esporte, e chegam ao funk, então algo provavelmente vai mal. Especialmente se essa gastança é mantida pelo sacrifício e privação da imensa maioria de um país, cujo progresso vem historicamente sendo atrelado a um futuro quase inalcançável.
Do juiz Sérgio Moro já se ouviu que a Operação Lava Jato é uma voz pregando no deserto, haja vista a cara de paisagem que fazem o Congresso e o Governo diante da ausência de iniciativas contra a corrupção.
Às vésperas do Natal, o papa Francisco referiu-se em homilia à farsa que se esconde nas luzes, presépios, árvores iluminadas e festas, pois o mundo “não escolheu o caminho da paz”. E ilustra esta advertência com a imagem de um Deus que chora, mas cuja ira, segundo Paulo, se manifesta contra “a impiedade e perversidade dos homens, que pela injustiça, aprisionam a verdade” (Rm 1, 18).
Quadro desanimador, mas que, apesar de tudo, exige forças e sobretudo a fé capaz de renovar a esperança.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Acenos

(Imagem: Pinterest / Marina Coric)

- Deve haver alguma explicação, ainda que não clara para mim agora. Mas está tudo bem.
A frase foi dita por Ferrah Leni Fawcett de nascimento – Farrah para a mãe, que logo trocou o e pelo a por considerar a mudança sonoramente adequada ao nome da filha. Atriz de talento e beleza, enfrentou o câncer com coragem, manifestou-se incapaz de alcançar uma explicação razoável para a doença e sugeriu, com um “ainda” e um “agora”, que tudo para ela ficaria mais claro no futuro. E amarrou sua esperança com um it’s all right.
Católica por formação, Farrah Fawcett teve um sacerdote ao lado de sua cama antes de morrer, recebeu a Unção dos Enfermos, aceitou o pedido de casamento de seu companheiro Ryan O’Neal, quando já a gravidade de sua doença não deixava esperanças de vida, e reclamou um pouco de privacidade. Além disso, tomou a iniciativa de trazer a público seu estado, gravando algo sobre seu sofrimento em um vídeo de aproximadamente duas horas de duração.
Exemplos que deixam eco. Como o de outra atriz, Audrey Hepburn, falecida em 1993 aos 64 anos. Filha de uma baronesa holandesa e de um banqueiro inglês, Audrey nasceu em 1929 e teve infância difícil. Premiadíssima no teatro, cinema, música e televisão, também foi vítima do câncer, e antes de morrer, deu o último passeio, ao lado de seu companheiro e também ator, Roberto Wolders, pelos jardins de seu refúgio em Tolochenaz, na Suíça. Na ocasião, daria a ele instruções de como cuidar de cada planta.
Embaixatriz da UNICEF, Audrey Hepburn percorreu vários países para prestar apoio às ações em benefício dos mais pobres, dos que nunca ganham prêmios e passam pela vida tão anônimos quanto nela entraram. Foi assim que andou por Macau, Japão, Irlanda, Etiópia, Turquia, Bangladesh, Vietnã, Somália...
Corajosa gente essa, que apesar de tudo consegue despedir-se deixando-nos gestos e olhares de uma quase incompreensível esperança humana. Sem muito esforço, talvez pudéssemos entrever, em acenos definitivos como esses, um sorriso de terna compreensão para conosco – peregrinos que seguimos adiante sem tantas vezes nos darmos conta de nossa miséria.
(Repost)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

O que falta

(Imagem: Pinterest / Damien Byrne)

Há duas décadas quando, em relação ao que se vê hoje o mundo era praticamente outro, uma mulher morreu na porta de um hospital no Rio enquanto aguardava atendimento sob uma placa com a palavra "Emergência". Cardíaca, a comerciária Neusa Ferreira morreu na calçada, um dia depois de o pedreiro aposentado Felipe Ferreira da Silva também ir a óbito em sua própria casa. Ele ficara cinco dias internado no mesmo hospital com derrame cerebral e infecção generalizada, e fora atendido apenas por enfermeiras que lhe ministravam sedativos e cuidavam de sua alimentação. Em ambos os casos, a justificativa para a falta de atendimento especializado era uma greve de médicos.
À época, ambos os casos ganharam as páginas dos jornais e espaço nos noticiários da tevê. A administração do hospital, os sindicatos das categorias profissionais envolvidas e as autoridades estaduais trocaram acusações, apresentaram queixas, reivindicaram e prometeram providências para que novas tragédias semelhantes não voltassem a acontecer. Repetindo: isto, há 20 anos.
No espaço destas duas últimas décadas, quantos casos semelhantes ocorreram e continuam a ocorrer, assim como os discursos, as declarações, os inquéritos e as promessas? Na semana passada, uma enfermeira morreu depois de procurar atendimento na instituição em que trabalhava há sete anos – um hospital também no Rio, onde não lhe fora prestado atendimento adequado diante do que parece ter sido um diagnóstico equivocado de seu verdadeiro estado de saúde.
Em 1996, a fatalidade que vitimou a comerciária carioca indignou também um médico da organização “Médicos Sem Fronteiras”, que na época extravasou sua revolta em artigo publicado na imprensa. “O que matou aquela mulher na porta do hospital foi o egoísmo, e não o salário baixo. (...)  Foi o desastre da ética humana entre os médicos, que hoje passa mais pelo campo mercantilista de relacionamento com os planos de saúde antes de passar pela vida humana”, escreveu então o autor do artigo.
Mesmo não cabendo generalizações quanto a desvios de comportamento em qualquer situação ou categoria profissional, a leitura coincide com a opinião popular sobretudo no Brasil, onde a saúde pública tornou-se algo indescritível. E quem paga plano de saúde sabe também que paga caro por um atendimento que se degrada a cada dia.
Mais que o egoísmo e o desastre da ética humana, falta-nos um pouco de compaixão por nós mesmos e pelo sofrimento em relação à dor alheia.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

A paz pelas sapatilhas

(Imagem: Pinterest / Pin de amelipomidorkina)


I Due Rivali. Este era o título do primeiro espetáculo de balé apresentado no Brasil, no então Teatro Régio (antiga Casa de Ópera Manoel Luís), no Rio de Janeiro. O mês era Dezembro e o ano, o de 1811. Junto com o espetáculo, coreografado pelo bailarino e coreógrafo francês Joseph Antoine Louis Lacombe, seria apresentada também a ópera L'oro non compra amore, composta por Marcos Antônio da Fonseca Portugal em homenagem ao contrato de casamento de D. Pedro com a arquiduquesa D. Leopoldina. Lacombe acabara de chegar ao Brasil para atender exclusivamente a corte, e se tornaria o primeiro professor particular de dança.
Dois anos mais tarde o mesmo Lacombe dirigiria – desta vez no Real Teatro São João – a pioneira apresentação do balé clássico no país. A dança se desenvolveria por aqui apenas um século depois, já no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a partir de apresentações das companhias russas Diaghilev e Pavlova. A escola do teatro só surgiria ali em 1927.
Difícil não associar sofrimento, dores, dedicação, disciplina, sacrifício e dificuldades, a palavras como apaixonante, magia, encantamento, beleza, emoção e sonho, quando o tema é o balé. Mesmo em tempos de frágil criatividade e valores estéticos discutíveis (ou até em decorrência dessa realidade), o balé segue erguendo um público para aplaudi-lo cada vez com mais entusiasmo.
Clássico ou contemporâneo, o balé talvez seja, dos movimentos corporais, o que mais nos aproxime de um autêntico vôo em busca da liberdade. Ao entrevistar o fundador e coreógrafo do St. Petersburg Ballet Theatre, Boris Eifman, Ana Botafogo disse que bailarinos usam movimentos para interpretar sentimentos e idéias. E acrescentou acreditar que todos devem ter a técnica clássica. “Também acho”, respondeu Eifman. “Se você observa um bailarino que não tem a técnica clássica, ele é um diletante. O balé é a linguagem que pode exprimir idéias e sentimentos importantes, pode trazer uma paz especial” – completou o coreógrafo.
Paz especial. Maurice Bèjart – a quem o balé também deve o sucesso de que desfruta hoje – já o definira como uma janela aberta para o céu. Paz celestial ou não, o balé continua atraindo a dedicação de alunos e professores. E o aplauso de platéias emocionadas.
Um indicador da década passada apontava para algo em torno de 220 escolas de balé no Brasil. Hoje esse número está certamente bastante ultrapassado. “A dança tem se tornado mais presente em termos de visibilidade social” – afirmou certa ocasião o então diretor do Nederlands Dans Theatre, Jiri Kylian. Para ele, só era ‘imperdoável’ o fato de algumas companhias se dedicarem apenas a reproduzir o repertório já existente.
- Nós somos os responsáveis pela história do futuro. Não tivesse existido a associação Petipa/Tchaikovski, que aceitou um risco enorme para produzir o que produziu, não teríamos a história da qual tanto nos orgulhamos hoje – arremataria Kylian.
Um provérbio define a dança como a mãe de todas as linguagens. Diante do desgaste da palavra (o homem inarticulado age, segundo Brodsky), pode caber à dança a nobre missão de desarmar os espíritos, favorecendo a que se alcance a paz de que falava Boris Eifman.

(Repost)

domingo, 25 de outubro de 2015

Votos e devotos

(Imagem: ROSSANA761)

O argentino Jorge Mario Bergoglio chega ao noticiário trazendo com ele os pobres. Queridinho da mídia, o Papa Francisco encanta pela figura carismática, mas o foco que projeta sobre os desfavorecidos incomoda.
Pobre é massa, e entre nós só têm comovido governantes e líderes políticos enquanto capazes de chegar à urna eleitoral. Não será, portanto, necessário lembrar-lhes a existência, pois o oportunismo, muito mais do que as urgências, não permitirá que sejam esquecidos.
O tema, claro, é e será sempre recorrente. Estão aí os aglomerados sub-humanos dependurados nos morros ou à beira dos rios, de onde as enchentes carregam vidas e carnês com prestações a perder de vista. De outro lado, observa-se também o vigoroso empenho na construção dos tais estádios de futebol, vilas olímpicas e mais obras que a vontade política empurra ladeira acima com fôlego de atleta.
De escolas públicas em ruínas e professores mal remunerados nem se fale. Idem com a saúde, o transporte, a segurança... Em todos esses setores, o sempre desrespeitado e desconsiderado credor é antes de tudo e de todos o pobre – a vítima que o assistencialismo oportunista não esquece.
Dá-se o pão, o circo e um saquinho de pipocas, enquanto se remexe os bolsos da platéia e se trava, nos bastidores, uma luta encarniçada pelo poder que essa mesma platéia será obrigada a confirmar pelo voto. E os pobres? Ora, os pobres...
O papa foi buscar em Francisco – o outro, o de Assis – oportuno exemplo que o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, franciscano, reforçou recomendando ao Sumo Pontífice que não se esquecesse dos que a sociedade historicamente marginaliza. O santo entregou-se pelos pequenos, mas curiosamente é lembrado hoje muito mais pelo cuidado com os animais. Faz sentido afinal, num tempo em que parece ser mais ‘politicamente correto’ adotar  e assistir cachorros do que pessoas.
Aprisionados a redes cada vez menos sociais, vamos assim aplaudindo delirantemente um espetáculo no qual os protagonistas somos nós mesmos, embalados por nossos pequenos e pobres sonhos. Devotos de Francisco, o santo de Assis, seguimos ardorosos defensores dos animais que ele via irmãos – seres que glorificam, por sua própria existência, o Criador e sua obra.
Quanto aos pobres de Cláudio, de Jorge e de Francisco, sua infindável paciência, ao que tudo indica, continuará fazendo deles um celeiro de votos. Mas, certamente, os preferidos de Deus Nosso Senhor Jesus Cristo.
Amém.
(Repost – Postado originalmente em Pretextos-elr em 28/03/2013)

domingo, 18 de outubro de 2015

Voo solitário

(Imagem: Pinterest / David Tipling)

Dou com uma bela foto na internet. No alto de uma colina e em meio a uma vastidão de solo coberto de neve, um andarilho segue em direção ao horizonte. À sua frente o chão é imaculado, contrapondo-se à trilha que o acompanha – funda, escura, denunciando o trajeto percorrido. No céu sem nuvens, um sol majestoso brilha iluminando tudo.
A cena sugere uma solidão como a que nos ameaça num mundo globalizado, informatizado e que cultua o individualismo. Inquietante e amarga, dela tentamos desviar a atenção, em cacoete tão perceptível quanto inútil. Como o que nos descreveu o escritor francês Jean-Dominique Bauby, em O Escafandro e a Borboleta.
Vítima de acidente vascular cerebral que o imobilizou (exceto a pálpebra esquerda, usada para “ditar” o livro), Bauby era conduzido todas as manhãs à sala de fisioterapia do hospital. Amarrado a uma espécie de maca, os enfermeiros o içavam por cordas, mantendo-o por algum tempo no que ele definiu “uma hierática posição de sentido”. Tão logo percebiam-se alvo de seu único olho não comprometido, os doentes que ali se exercitavam viravam a cabeça, no que parecia ao escritor “uma necessidade urgente de contemplar o detector de incêndio preso ao teto”.
Tangenciar ou bater estupidamente no que, fora de controle, nos constrange e incomoda, é recurso da fragilidade humana. Assim reagimos até mesmo a uma desconcertante e contundente realidade, que medra onde antes haviam valores hoje devastados. Na esteira das novas tendências – originárias de cabeças cuja influência sobre a mídia é inquestionável – seguimos determinados a encontrar uma felicidade que muda de endereço e de forma a cada véspera de verão. Até que nos damos conta de que o solo se fragmenta sob nossos pés como o de um iceberg em degelo. Pingüins solitários, navegamos cada um sobre o seu próprio pedaço de chão, em busca de um horizonte que se afasta na medida em que avançamos.
Brodsky escreveu que, se ainda estiver manejando uma caneta, um homem idoso pode escolher entre escrever suas memórias ou manter um diário. Duas formas de conviver elegantemente com a solidão.
Acaso nos tivesse sido dada a capacidade de voar, possivelmente imitássemos o albatroz, de vôos tão suaves quanto longos. Silêncio, segurança e perfeito controle nas manobras, com gasto mínimo de energia, são predominantes no deslocamento dessa criatura que praticamente só aterrissa na fase de procriação, chegando a percorrer, em vôo, distâncias superiores a 1,5 mil quilômetros.
Seguimos no entanto tecendo teimosamente esperanças frágeis como as asas da fantasia, enquanto se debate em nós a ave de uma solidão bem nutrida nestes tempos de pobreza globalizada.
(Repost)

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Façam o jogo, Senhores!

(Imagem: Google / Revista Forum)



“Tenho vergonha do Congresso Nacional do meu país”'.
A frase circula em adesivo colado no parabrisas traseiro de um veículo cujo motorista, a exemplo de muita gente, deve se considerar apenas vítima dos maus políticos. Em circunstâncias como as que vivemos na política, parece escapar à percepção comum que a má escolha é responsabilidade nossa, e não 'dos outros'.
Se poderes da República nos constrangem, então é porque provavelmente votamos mal. Simples assim. Com a palavra devastada, maltratada e desacreditada como se dá atualmente, é imprescindível ter cautela e sabedoria para não embarcar de primeira no que dizem os discursos, as declarações, e sobretudo a imprensa.
Os avanços da tecnologia favorecem também o aprimoramento dos meios para manipular a opinião pública, seja pela palavra, seja pelo silêncio. Aqui, o dizer e o não dizer se equivalem quando a questão é distorcer e influenciar, sugerir, confirmar ou negar. E, claro, mentir.
É notório como boa parte da mídia não raro induz a opinião da sociedade, não à verdade como se apregoa, mas à defesa dos interesses de grupos e, em última análise, dos seus próprios interesses. E o faz de muitas formas, dentre as quais repercutindo declarações que tão estranhamente como surgem, se diluem no vácuo de contradições e desmentidos.
Façamos o jogo, senhores! – é o que sugere ser a palavra de ordem onde deveria prevalecer o interesse da sociedade que escolhe (tantas vezes infelizmente mal) seus representantes, sofre sob o peso dos impostos e espera. Espera e crê, sem mais alternativas.
Desqualificar as instituições é tiro certeiro no pé. Até porque são elas que garantirão ao cidadão a elaboração e aplicação de leis justas que defendam o interesse comum. Ao eleitor cabe ter agilidade, esperteza e percepção na hora do voto. A mesma agilidade, esperteza e percepção a que tantos indignos representantes, eleitos ou não, recorrem para se realizarem politica e financeiramente, deixando a nós, eleitores descuidados, desatentos, relapsos ou ingênuos, o sorriso sarcástico que nos rotula de otários.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Dançando com a geladeira

(Imagem: Pinterest / Alexandra Bodnaruc)

Uma Luana que não conheço em pessoa nasceu com este blog há seis anos. Chegou lá no Planalto Central, sinalizando um V com dois dedinhos como se prenunciasse uma vitória. Como acontece com quase todas as crianças – e pelo que pude perceber pela janela virtual – foi recebida com o carinho e a alegria que marcam as chegadas precedidas de muito desejo e expectativa. Talvez seja esta é uma forma sutil que a felicidade tenha de nos fazer um aceno.
Bem distante da sede do Poder, dona Matilde sonha com o dia em que a felicidade também lhe sorria, livrando-a da inseparável enxaqueca. Depois de testar e reunir numa pasta as anotações de todas as receitas para ser feliz sem dor de cabeça, dona Matilde agarrou-se à mais bizarra sugestão que lhe deram: não podendo amarrar a felicidade junto ao peito, amarrou na testa uma folha de laranjeira. E para não se submeter a meio grau de temperatura inferior à do ambiente de maneira súbita (exigência complementar ao tratamento), amarrou também a geladeira, envolvendo-a numa corda.
De volta à Luana de Brasília, sua orgulhosa avó assegura que ela “está uma beleza, espirituosa, esperta e ativa”. Há de ter defeitos também mas, acrescenta Donatê, “ainda não é necessário dar-lhes destaque”. De resto, Luana escreve o nome e desenha as pessoinhas dela, todas exibindo sempre “um baita sorriso no rosto e olhos vivos”. Enquanto longe dali, dona Matilde traz sua geladeira sob um nó górdio, Luana, que tem se mostrado bailarina em potencial com muita graça, vê na geladeira de sua casa um partner. É divertido imaginá-la rodopiando e fazendo reverências a um público fictício, depois do impossível pas de deux com um sisudo refrigerador.
Os sonhos e sorrisos de Luana deveriam ser também os nossos, mas andamos em desalento e céticos com o que vemos e prevemos. Talvez muito de nossas dores de cabeça venha exatamente daí, da falta de sonhos onde as pessoas tragam no rosto um baita sorriso, além de olhos muito vivos e alegres. Como os personagens de Luana, relativamente seguros num mundo onde os monstros ainda não conseguem arrombar as portas para entrar. É ali que se dança e se rodopia alegremente com a geladeira, com o boneco ou com o urso de pelúcia.
Em tempos de preciosa e rara esperança, uma Luana espirituosa, esperta e ativa continua a ser um aceno urgente e necessário. Sinal de paz e de cálido aconchego para corações tão acossados pelo inverno rigoroso e persistente do nosso tempo.

(Repost - Editado)