Filho e morador da pacata Santa Helena, na Zona da Mata mineira, o falante Candinho Alvarenga tinha a oportunidade de voltar ao Rio de Janeiro por conta do casamento de um parente da esposa. Ele e a mulher, Zaíra, iriam num dia para voltar no outro – que não era possível largar a casa e a criação sozinhas lá na roça. Malas prontas (prevenida, Zaíra Alvarenga não deixava faltar nada), puseram o pé na estrada.
Já na Cidade Maravilhosa, acomodaram-se no hotel e logo se aprontaram para ir em busca de almoço ali por perto. Vestido com a bermuda que ganhara de presente da afilhada, Candinho segurava a roupa pelo cós com uma das mãos, enquanto revirava as malas com a outra.
- Ô, muié, cadê meu cinto?
Cabeça sob touca de plástico e cara besuntada de creme apareceram na porta do banheiro. Traziam, junto, um pedido de desculpas: o cinto havia ficado esquecido em Santa Helena. A peça era motivo de constante admiração de Candinho, que o adquirira no mesmo Rio de Janeiro há 30 anos e, apesar do tempo, ainda o considerava em perfeito estado de conservação: estava ‘novo’.
- Fica triste não, paixão! – consolou Zaíra. - A gente passa ali numa loja de artigos masculinos e compra um cinto.
Era imprescindível estrear a bermuda no Rio. Mesmo porque, o valente Candinho, para vestir a parte inferior do tronco – e além de sua velha calça de guerra (sem cinto) usada na viagem – contava na ocasião apenas com as calças do terno e do pijama.
- Mas...
- Tem nada de 'mas' não, paixão! – atalhou Zaíra. - Eu dou um jeitinho, enrolando aqui o cós da bermuda pra fazer volume...
- Isso!
- E aí, é só você deixar a camisa pra fora e botar as mãos no bolso, ajudando a segurar até a gente chegar à loja. É pertinho, logo ali do outro lado da rua.
- Também não sei porque a Prudência foi comprar uma bermuda desse tamanho... Cabe dois de mim aqui dentro! – choramingou Candinho.
- Coitada da menina, Candinho, fala mal dela não! É que ela não tem experiência, uai...
Na loja, enquanto aguardavam o vendedor, alguém cutucou de leve as costas de Zaíra. Eram os Porto Fuentes – Rachel, o marido e uma mistura bem dosada de choro, gritos e inquietude de três anos, que atendia pelo nome de Fernanda.
Ao rever a ex-colega de ginásio, o espanto de Zaíra foi total. Abraçaram-se, apresentaram-se, cumprimentaram-se efusivamente. Menos o Candinho, claro, contido e cerimonioso, dispondo para o ritual de apenas uma das mãos.
No chão, Fernanda corria pra todo lado, entrava atrás do balcão, puxava calças do calceiro de exposição, enfiava a mãozinha na gaveta do caixa. Até que pediu colo, logo para o ‘tio Candinho’. E o fez com insistência agarrando-se à barra da bermuda, exatamente quando o ilustre santelenense usava ambas as mãos para examinar modelo de cinto que o vendedor acabara de lhe apresentar.
Ouviu-se nesta hora um ‘oh!’ em coro, junto com uma gargalhada mal contida pela moça do caixa. O pobre Candinho recompôs-se em velocidade impensável. E o fez tão rápido que o vendedor, que estivera de costas para a cena, não entendeu, nem a gargalhada da moça (que se retirara sob pretexto de ir ao banheiro), nem os tapinhas nas mãos de Fernanda, que Rachel fingia dar com rigor.
Efetuada a compra, o casal seguia para o restaurante quando Zaíra quebrou o silêncio:
- Paixão, melhor a gente voltar à loja e comprar umas cuecas...
- Mas eu estou usando aquela nova que você me deu, aquela meio estranha...
- Pois é, paixão, isto aí é minha calcinha...

7 comentários:
Ah, Eduardo!! Candinho de calcinha da Zaíra, de bermudas estiradas ao chão, dando um espetáculo desses em pleno Rio de Janeiro, isso foi impagável! Ótima sua criatividade, como sempre!
Abraço, Célia.
Muito bom, Eduardo!
Um texto de humor sempre é bem vindo. Tadinho do Candinho.
Beijos
Mirze
Coitado do Candinho,que situação, que aperto passou neste episódio. Zaira por sua vez, com certeza esta rindo até hoje do pobre coitado.
Muito bom....
Abraço
Marcos
Humor é essencial nos dias de hoje. Excelente!
Adorei, muito divertido...Abrçs
Que ninguém nos ouça, ou melhor, não me leia. Fato idêntico aconteceu quando fomos viajar pra muito longe, mas longe mesmo, tudo arrumadinho para todo mundo. Botamos tudo no carro...
chegamos lá, naquele lugar bem longe onde todos deviam se apresentar "de gala".
_ Muié, cadê a minha roupa?
Dá aperto no coração só de ver o Candinho em situação quase... quase igual.
Se fosse somente o cinto...
Abração
kkkkk esse Candinho parece meu pai! E os 2 estão na zona da mata mineira! Adorei!
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